• Ricardo Bonacorci

Livros: Golpe de Ar - A novela autobiográfica de Fabrício Corsaletti


No último sábado, li a novela "Golpe de Ar" (Editora 34) de Fabrício Corsaletti. A sugestão de leitura foi do meu amigo Paulo Sousa, um escritor iniciante e de "mão cheia" que fez algumas oficinas literárias com o autor do livro no ano passado. Paulo me emprestou a obra na virada do ano e me disse, na ocasião, que ela era "muito interessante". Por isso, minha curiosidade em conhecê-la. Após algumas semaninhas de adiamentos (É começo de ano, ainda não entrei totalmente no ritmo!), pude, enfim, lê-la com a atenção merecida.

O principal mérito de "Golpe de Ar" está em propiciar ao leitor uma viagem rápida por Buenos Aires. A trama se passa inteiramente na capital argentina e a cidade portenha é de certa maneira uma das personagens principais da narrativa. Não é à toa, portanto, a preocupação do autor em descrever rua a rua e lugar a lugar o cenário retratado. O leitor se sente realmente passeando por Buenos Aires. Como morei lá por um tempo há mais de dez anos, pude matar a saudades de "Mi Buenos Aires Querida".

Fabrício Corsaletti nasceu no interior de São Paulo em 1978 e vive na capital paulista há mais de trinta anos. Formado em Letras, o escritor é poeta, prosador e letrista musical, além de atuar, desde 2010, como colunista quinzenal da revista São Paulo, encarte dominical do jornal Folha de São Paulo.

Publicado em 2009, "Golpe de Ar" é o primeiro trabalho de Fabrício na prosa. Até então, ele só tinha lançado livros de poesia, uma coletânea de contos e uma obra voltada ao público infantil. Os títulos de poesia dessa época são "Movediço" (Labortexto), de 2001, "O Sobrevivente" (Hedra), de 2003, e "Estudos para o Seu Corpo" (Editora 34), de 2007. A coletânea de contos se chama "King Kong e Cervejas" (Companhia das Letras), de 2008, e o livro infanto-juvenil é o "Zoo" (Hedra), de 2005.

O enredo de "Golpe de Ar" é um tanto pueril. Um rapaz paulista e solteiro de vinte e cinco anos mora sozinho há quatro meses em Buenos Aires. Ele decidiu viajar para a capital argentina porque tinha se cansado da vida na cidade de São Paulo, onde trabalhava muito durante o dia e passava as noites bebendo. Apaixonado por poesia, seu sonho era se tornar escritor.

Na nova morada, ele decide não trabalhar nem estudar. Passa, assim, seus dias na maior vagabundamente. Sua meta é "aproveitar a vida ao máximo" até o dinheiro acabar. Entende-se por aproveitar a vida: abusar da bebida, exagerar na comida e fumar sem parar, além de conhecer o maior número possível de pessoas diferentes. Por essa disposição de desbravar os melhores bares, restaurantes e kioskos da cidade portenha, ele acaba conhecendo como ninguém cada pedacinho daquele lugar. Com orgulho de ser quase um nativo de Buenos Aires, o rapaz apresenta aos leitores as melhores opções à sua disposição.

Quem narra a trama em primeira pessoa é o próprio protagonista. Contudo, ele conta a história para o leitor após ter retornado a São Paulo. Ou seja, o relato tem um tom saudosista de quem aproveitou ao extremo cada momento da longa viagem. O narrador opta por relatar apenas um mês da sua estadia por lá, exatamente o período que considera o mais importante da jornada. Nesses trinta dias, ele abrigou em sua casa um grupo de seis jovens universitárias brasileiras que passavam férias escolares em Buenos Aires. O clima de paquera e de tensão sexual coletiva permeia esses dias. A chegada da trupe de moças recém-saídas da adolescência é o toque final que faltava na vida idílica da personagem principal.

"Golpe de Ar" possui apenas 96 páginas e é possível lê-lo em uma tacada só. Foi o que fiz na tarde do último sábado. Em aproximadamente duas horas li a obra inteira. O mais interessante do livro é a descrição detalhada de Buenos Aires. Fabrício se preocupa em especificar cada lugar visitado por suas personagens. Esse recurso pode desagradar quem gosta de ação, mas acerta em cheio quem é fã da capital portenha (como é o meu caso).

A história da novela é em si muito banal: o protagonista e o grupo de meninas que ele hospeda passam os dias e, principalmente, as noites visitando bares da cidade para beber o máximo que conseguirem. Enquanto isso, todos procuram por companhias agradáveis para tornar as próximas horas mais agradáveis. De vez em quando, para quebrar o tédio, eles visitam alguns museus, parques e restaurantes (isto é, quando conseguem ficar sóbrios).

Ou seja, o lema aqui é aproveitar ao máximo a vida (uma filosofia bem adolescente). Entende-se com isso: beber, comer e fumar o que vier pela frente. O grupo só não se esbalda no sexo, talvez por inexperiência ou medo. Essa é inclusive a tensão da história. O leitor fica aguardo o momento em que o protagonista irá realizar suas fantasias sexuais com as ninfetas que o cercam. Será que vai conseguir? Não vou contar o spoiler, fique tranquilo.

"Golpe de Ar" é um livro autobiográfico. Fabrício Corsaletti viveu de fato alguns meses na Argentina em sua juventude. O narrador da novela é sem dúvida nenhuma o alter ego do autor. O próprio escritor reconhece que "incrementou a realidade" para construir uma trama mais interessante ao leitor. Neste sentido, ele foi bem-sucedido. Apesar da obra não possuir grande relevância literária, é legal notar a preocupação de Fabrício em construir uma trama com forte tensão psicológica. A aparente banalidade das situações e o vazio sentimental das personagens são aspectos que merecem uma atenção de quem lê a história.

De certa maneira, esse narrador-protagonista de Corsaletti é parecido com os primeiros personagens de Haruki Murakami, principalmente em "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara) e "Pinball, 1973" (Alfaguara). Lendo esse livro, também me lembrei de "Comer, Rezar e Amar", best-seller de Elizabeth Gilbert. A diferença é que o narrador de Fabrício é um jovem que viaja para um único lugar à procura de prazeres mundanos, enquanto a narradora da norte-america faz um roteiro mais amplo e diversificado da sua experiência. Assim, a novela do escritor brasileiro poderia muito bem se chamar "Comer, Beber e Fumar"...

Após "Golpe de Ar", Fabrício Corsaletti publicou mais cinco livros: "Esquimó" (Companhia das Letras), coletânea de poemas de 2010, "Quadras paulistanas" (Companhia das Letras), outra obra poética de 2013, "Ela me Dá Capim e Eu Zurro" (Editora 34), coletânea de crônicas de 2014, "Zoo Zureta" (Companhia das Letrinhas), uma obra infanto-juvenil de 2010, e "Zoo Zoado" (Companhia das Letrinhas), outro livro infantil de 2014. O mais premiado deles foi "Esquimó", vencedor do Prêmio Bravo!, em 2010, como melhor livro de prosa/poesia publicado no país.

Quem estiver interessado em ler algo sobre o vazio existencial da juventude contemporânea com uma pegada turística (viagem rápida por Buenos Aires), "Golpe de Ar" é uma boa indicação de leitura que deixo aqui. Gostei de conhecer o estilo de Fabrício Corsaletti. Estou pensando agora em ler algo poético dele. Esperem novidades nesse sentido para os próximos meses.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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