• Ricardo Bonacorci

Livros: A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar - Dicas de Nelson de Oliveira


Ontem, li "A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar" (Ateliê Editorial), livro de Nelson de Oliveira. Esta obra é direciona aos jovens escritores que vão participar ou já participam de oficinas literárias pelo país. A publicação também é destinada a quem deseja tirar as dúvidas mais básicas de como escrever, o que ler e como proceder para ter suas produções literárias publicadas de maneira atraente e profissional. Ou seja, temos aqui um breve manual voltado à orientação de poetas e prosadores aprendizes, amadores e/ou novatos.

Segundo Nelson de Oliveira, doutor em Letras pela USP, autor experiente com mais de vinte livros publicados e professor há quase duas décadas de oficinas de escrita criativa, os escritores de primeira viagem precisam aprender, antes de qualquer coisa, a melhorar sua produção textual. Uma vez compreendida a dinâmica e a estrutura da literatura, eles precisam se inserir adequadamente no mercado editorial. Só assim vão conseguir ingressar na carreira literária e ter seus livros publicados com a qualidade e o destaque que almejam.

Para o autor de "A Oficina do Escritor", escrever bem é um dom. A habilidade da escrita literária é um talento inato do artista das letras. Ou você já nasce com essa capacidade ou jamais poderá produzir ficção ou poesia de qualidade. Porém, escrever mal indica falta de preparo ou mesmo falta de interesse do escritor em se desenvolver. Infelizmente, muita gente comete esse equívoco no momento em que está começando no ofício. Assim, para Nelson de Oliveira é possível ensinar alguém a não escrever mal (mas é impossível ensinar alguém a escrever bem). Essa ideia (ensinar a não escrever mal) é a proposta deste livro. Através de algumas técnicas comprovadamente consagradas em oficinas literárias pelo mundo todo e de algumas dicas valiosas do autor, os jovens poetas e os ficcionistas de primeira viagem conseguem desenvolver as habilidades necessárias para dar o pontapé em suas carreiras literárias.

Em um trecho da quarta capa, Fernando Seixas, poeta e professor universitário que escreveu o prefácio de "A Oficina do Escritor" (inserida na orelha do livro), diz: "A função maior deste livro é combater o clichê, o estereótipo, o lugar-comum. É ajudar os novos poetas e prosadores de todas as idades, donos de muito material bruto, a não escrever mal. É facilitar a alquimia dessa ampla matéria-prima que almeja ser obra-prima".

Publicado em 2008, "A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar" reúne onze ensaios de Nelson de Oliveira sobre a criação literária. O livro é curto e possui pouco mais de 150 páginas. Li a obra inteira em aproximadamente três horas e meia na tarde desse sábado. Este é aquele título que dá para ser lido em uma batidinha só ou em uma única parte do dia.

Dos onze capítulos do livro, "Compulsão à Criação" é o primeiro ensaio. Ele trata da overdose de publicações de novos autores nos dias de hoje. Assim, a impressão que o mercado tem é que muitas vezes há mais gente lançando novos títulos do que lendo as obras disponíveis. "Sinais do Sinai", o capítulo mais longo do livro, aborda a pedagogia por trás das oficinas literárias. Nessa parte há também a apresentação de vários conceitos básicos tanto da prosa ficcional quanto da poesia. No meio da teoria, o autor aproveita para inserir dicas interessantes para quem está começando a escrever. Em "Tradição e Talento Individual (Ainda Hoje)", Nelson de Oliveira discute a dicotomia entre tradição e inovação nas artes escritas. Até onde os clássicos são relevantes para os autores contemporâneos?

"Vidas: Modo de Brincar", quarto ensaio de "A Oficina do Escritor", apresenta algumas características dos jovens escritores do século XX, grupo intitulado por Oliveira de "Geração Zero Zero". Em "Os Dois Lados do Círculo" discute-se a importância do prosador gostar e utilizar a poesia em suas obras e do poeta apreciar e aplicar a prosa em seus trabalhos. "Literatura Feminina ou Poética Feminina" entra na polêmica sobre a relevância da categorização das obras literárias feitas pelas mulheres ou que sejam protagonizadas por personagens femininas.

O sétimo ensaio se chama "Fantasmas, Fantoches, Fantasias". Nele, Nelson de Oliveira comenta o trabalho de Tzvetan Todorov, um famoso teórico da literatura, sobre a ficção fantástica. Em "Guerra de Todos Contra Todos" temos uma crônica sobre a polarização entre a alta literatura (livros clássicos e com valores estéticos reconhecidos) e a baixa literatura (obras voltadas apenas para o entretenimento sem grande valor artístico). "Carta ao Autor Inédito e Desconhecido" reúne várias dicas para o escritor novato começar com o pé direito sua nova carreira nas letras.

"Decálogo do Resenhista" oferece orientações práticas para quem deseja lançar-se na tarefa de analisar obras literárias produzidas por terceiros. E, por fim, em "Demissão por Justa Causa", o último ensaio do livro, trata-se da crise que passa a crítica literária contemporânea.

Para ser sincero, fiquei muito frustrado com a leitura de "A Oficina do Escritor Sobre Ler, Escrever e Publicar". O livro não é de todo ruim. Longe disso! Há partes ótimas. Seu conteúdo é interessante e rico. O seu maior problema está no abismo entre o que o autor se propôs a fazer e o que apresentou de fato. Aí a sensação de decepção toma conta dos leitores mais exigentes.

Esperava encontrar dicas e orientações sobre como me comportar e como participar de forma proveitosa de oficinas literárias (afinal, li a obra com esse objetivo - vou participar das minhas primeiras oficinas em fevereiro). Porém, o que encontrei na maioria dos ensaios foi outra coisa completamente diferente. Nelson de Oliveira acaba discorrendo mais sobre temas gerais da literatura e menos do fazer ficcional. Temos, por exemplo, várias páginas dedicadas às definições do que é literatura e às diferenças entre conto, crônica, novela e romance. Apresentam-se teses de teóricos da literatura e abordam-se as crises da arte contemporânea (das vanguardas europeias até os dias hoje). Com isso, as partes das oficinas e das dicas aos jovens escritores acabam ficando em segundo plano.

A impressão que tive é que o autor reuniu vários ensaios já prontos que ele tinha produzido sobre literatura ao longo da sua carreira e colocou tudo em um livro. Depois da unificação do material, alguém teve a ideia de apresentar a obra como um manual para jovens escritores participantes de oficinas literárias. Se for isso mesmo o que aconteceu, o problema deve ser computado mais na conta do editor e menos na do autor. Não gosto de publicações que prometem um conteúdo e entregam algo completamente diferente.

Além disso, admito ter ficado muito incomodado com alguns recursos linguísticos utilizados por Nelson de Oliveira em seu texto. Em uma obra que pretende orientar os jovens escritores, há várias passagens com mais perguntas do que respostas. Para piorar, construções frasais começadas com "que" são muito feias. Por exemplo, "Que é realidade?", "Que sugestões são essas?" e "Que é prosa?" são usadas a torto e direito ao longo dos capítulos. Entendi que a proposta do autor era dar um tom de oralidade ao livro, mas isso não é desculpa para se esquecer do uso dos termos "o que" e "quais" ("O que é realidade?", "Quais sugestões são essas?" e "O que é prosa?").

As melhores partes de "A Oficina do Escritor" são aquelas em que Nelson de Oliveira se propõe a orientar e informar os novatos sobre a dinâmica da produção literária e do funcionamento do mercado editorial. Os ensaios "Carta ao Autor Inédito e Desconhecido", "Vidas: Modo de Brincar" e "Os Dois Lados do Circulo" são excelentes. No dia a dia, vejo muitos artistas iniciantes cometendo os mesmos erros apontados pelo autor em seu livro. Adorei ler as propostas que Oliveira dá para os jovens colegas. Nesse caso, a proposta de unir poesia e prosa é espetacular. Por isso, não deixe de ler "Sinais do Sinai", outro ótimo capítulo.

Já as partes da teoria literária e da crítica da arte contemporânea não chamaram tanta a minha atenção. Como já tinha lido muitos dos textos originais comentados pelo autor (que por sinal apresenta uma ótima bibliografia no final do livro), esses capítulos foram extremamente enfadonhos para mim.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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