• Ricardo Bonacorci

Livros: Estado Vegetativo - O criativo romance policial de Tiago Novaes


"Estado Vegetativo" (Callis) é o romance de estreia do escritor paulista Tiago Novaes. Nesta trama extremamente original e inteligente, o autor une teoria literária (estudo da história dos romances policiais) com um caso prático e fictício de investigação criminal ambientado na cidade de São Paulo (procura por um serial killer). O resultado desta mistura peculiar é um enredo incrível. Quem se interessa pelo panorama histórico da literatura policial e gosta de um bom mistério irá adorar a proposta do livro.

"Estado Vegetativo" é um romance noir com boas doses de filosofia, intertextualidade literária, ação e suspense. Com isso, até mesmo as falhas narrativas da trama, que não são poucas, acabam ficando em segundo plano. No fim das contas, o leitor fica tão empolgado com a estética construída pelo autor que nem liga para as pontas soltas da história. Tiago Novaes faz escolhas muito criativas do início ao final da obra. Quando você acha que o desfecho não pode ser tão bom quanto o começo do livro, aí vem uma reviravolta incrível que coloca tudo de pernas para o ar. Prepara-se para fortes emoções!

Antes desta trama policial, Tiago Novaes só tinha publicado uma coletânea de contos em 2004. Chamada de "Subitamente: Agora" (7 Letras), a obra narra situações corriqueiras acontecidas na cidade de São Paulo. Depois de "Estado Vegetativo", mais quatro livros do escritor foram lançados: o romance "Documentário" (KWL), de 2012, o ensaio literário "Tertúlia: O Autor como Leitor" (Sesc Edições), de 2013, o romance "Os Amantes da Fronteira" (Dobra), de 2014, e novela "Algoritmo" (Quelônio), de 2017. De todas as publicações, aquela que teve mais sucesso de público e de crítica até agora foi, sem dúvida, "Estado Vegetativo".

Escrito com o apoio da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo e publicado em 2007, "Estado Vegetativo" foi finalista, em 2008, do Prêmio São Paulo de Literatura, um dos principais concursos literários do país. O livro concorreu na categoria romance de autor estreante. Naquela edição, o vencedor nessa categoria foi "A Chave de Casa" (Record), obra de Tatiana Salem Levy.

O romance de estreia de Tiago Novaes foi muito elogiado pela crítica. De certa forma, o livro foi responsável por catapultar a carreira do seu autor na ficção. Nascido em Avaré, interior do estado de São Paulo, o escritor trabalha também como tradutor e professor de escrita criativa. Recentemente, Novaes lançou um curso online de formação de escritores.

"Estado Vegetativo" é narrado pelo detetive particular Guedes. Glutão, solitário e afeito a pequenas malandragens, Guedes possui um escritório perto da Praça da Sé, no centro da capital paulista. É ali que ele e Gregório, seu jovem assistente apaixonado por literatura policial, comandam as pequenas investigações que ocasionalmente chegam às suas mãos.

Curiosamente, o detetive conta a história de sua vida em um momento difícil. Ele está em coma na cama de um hospital após sofrer um grave acidente. Sem conseguir ter contato com o mundo fora do seu corpo, Guedes aproveita o tempo ocioso para recapitular os eventos que o levaram àquela situação delicadíssima. Assim, entramos na mente da personagem e acompanhamos seu fluxo de pensamento.

A maré de azar do narrador-protagonista começou quando Janaína Monteiro, cujo nome artístico era Verônica Drake, entrou no escritório de Guedes e o contratou para descobrir a identidade de um serial killer que estava matando escritores de romances policiais na cidade de São Paulo. Dois já tinham sido mortos e a cliente, também uma romancista desse gênero, temia pela sua vida. Na conta da cliente, ao menos mais três escritores estariam na lista de próximas vítimas do criminoso.

Gregório ficou empolgado com o primeiro caso de homicídio que, enfim, a dupla iria trabalhar. Acostumado com casos banais e bem menos perigosos, como as simples comprovações de traições conjugais e pequenos trambiques empresariais, Guedes não calculou corretamente as dimensões da investigação em curso. Assim, o detetive acabou mergulhado dento de uma trama complexa e muito arriscada.

Quanto mais perto estiver das revelações do caso, mais risco de morte Guedes estará correndo. Pela sua situação atual (inerte em uma cama de hospital), o leitor supõe que a personagem principal do romance conseguiu descobrir o mistério da série de assassinatos (pagando um preço alto pelo sucesso em seu trabalho).

"Estado Vegetativo" possui 260 páginas e permite uma leitura rápida. Concluí a obra em duas noites, tamanha foi minha empolgação com sua história. O livro está dividido em quatro partes: "O Homem Gordo", "O Homem Oco", "Tu és o Homem" e "Epílogo". Em "O Homem Gordo", o narrador no leito do hospital apresenta sua condição atual e descreve os últimos casos que seu escritório investigava antes do acidente que mudou sua vida acontecer. Em "O Homem Oco", Guedes avança na investigação sobre a identidade do assassino dos escritores e expõe a relação desse crime com a história da literatura policial. "Tu és o Homem" apresenta o desfecho da trama. Nessa parte, há a reprodução do surpreendente diálogo do narrador com o vilão. E, por fim, no "Epílogo" o protagonista faz uma reflexão sobre tudo o que aconteceu com ele.

Quatro pontos chamaram mais minha atenção em "Estado Vegetativo": a escolha do narrador, a situação clínica do protagonista, as referências literárias ao longo da trama e a incrível reviravolta no desfecho da obra. Esses são os elementos que fazem do romance de Tiago Novaes uma narrativa tão boa e impactante.

Comecemos falando do narrador e da sua condição médica. Se a escolha de um detetive para descrever um romance policial parece uma decisão um tanto óbvia, o que você me diz se esse homem for obeso (ele pesa cerca de 200 quilos), hein? Não me recordo de ter lido uma história do ponto de vista de alguém que sofre de obesidade mórbida. Achei excelente essa alternativa. O autor explora muito bem os preconceitos sociais e os dramas mais íntimos de alguém que há muito tempo perdeu a batalha com a balança. E o que você me diz se esse narrador estiver em coma no hospital?! Incrível! Tiago Novaes consegue surpreender o leitor logo de cara com um protagonista singular e diferente do padrão apresentado pelos demais romances policiais.

A surpresa do início só não é maior do que a do desfecho. A reviravolta de "Estado Vegetativo", apesar de um tanto estrambólica e pouco verossímil, está à altura dos melhores romances policiais da literatura. Se você achou, por exemplo, "O Assassinato de Roger Ackroyd" (Globo) e "E Não Sobrou Nenhum" (Globo) de Agatha Christie, "O Caso Morel" (Biblioteca da Folha) e "A Grande Arte" (Círculo do Livro) de Rubem Fonseca e/ou "Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias" (L&PM) de Edgar Allan Poe surpreendes, prepare-se, então, para o que Tiago Novaes reserva para você nas últimas páginas deste romance. É de tirar o fôlego.

Também gostei muito de como a historiografia dos romances policiais foi inserida na trama. "Estado Vegetativo" é uma narrativa metalinguística que dialoga diretamente com os clássicos do seu gênero literário. Ler este livro é entrar de cabeça na dinâmica dos contos de Edgar Allan Poe (mestre e introdutor desse tipo de narrativa) e em boa parte da teoria literária das tramas criminais. Assim, foi impossível não me recordar de algumas das melhoras obras de Rubem Fonseca (introdutor e principal adepto nacional do romance negro - brutalismo).

Outros elementos interessantes deste romance são: o retrato realista e ácido da cidade de São Paulo (é possível visualizar a metrópole nas páginas do livro), o humor do texto de Tiago Novaes (geralmente humor negro e politicamente incorreto, o que é ótimo!), o debate indireto do papel do escritor na literatura contemporânea (com excelentes sacadas e com a apresentação de pontos e contrapontos) e a eficiente construção dos seus personagens (uma coleção de pessoas com sérios problemas de caráter, conforme o bom e velho receituário dos romances noir).

O único aspecto negativo de "Estado Vegetativo", se é que podemos dizer assim, está relacionado a algumas passagens de pouca verossimilhança. Sinceramente, há cenas e situações que são difíceis do leitor minimamente crítico engolir. Pacientes em coma que acordam depois de meses no momento exato em que a trama vai atingir seu clímax, indivíduos que conseguem enganar os conhecidos com alguns poucos recursos estéticos (enquanto desconhecidos não caem no mesmo truque) e as várias coincidências que vão se sobrepondo são alguns pontos que o leitor precisa passar por cima para curtir o romance com mais intensidade.

De maneira geral, "Estado Vegetativo" é uma ótima narrativa policial. Como é bom ler um romance noir de grande qualidade e extremamente inteligente feito pela nova geração de escritores nacionais. Tiago Novaes é um autor que merece uma atenção especial dos leitores e da crítica literária. Admito ter ficado com vontade de conhecer mais obras desse escritor. Por isso, não estranhe se nos próximos meses novas análises dos livros de Tiago Novaes pintarem aqui no Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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