• Ricardo Bonacorci

Livros: Memórias do Subsolo - O início do existencialismo de Dostoiévski


"Memórias do Subsolo" (Editora 34) é uma novela marcante da carreira de Fiódor Dostoiévski, um dos mais influentes escritores do século XIX. Esta obra inaugurou uma nova fase tanto na literatura russa quanto na literatura ocidental. Pela primeira vez na ficção tivemos um narrador que se apresentava de maneira muito agressiva, como se quisesse agredir o leitor com suas palavras pouco simpáticas e com seu temperamento extremamente difícil. Com isso, o texto deste livro adquire um tom corrosivo e tenso. Não se surpreenda se você, no papel de leitor, sentir uma forte angústia durante a leitura.

Com "Memórias do Subsolo", a figura do anti-herói adquire, portanto, doses mais elevadas de imoralidade. Com essa característica singular, Dostoiévski inaugurava a etapa mais representativa da sua carreira, que ficaria marcada na história da literatura até hoje. Para se ter uma ideia do que isso significou de ordem prática, "Crime e Castigo" (Editora 34), "O Jogador" (Editora 34), "O Idiota" (Editora 34) e "Irmão Karamazov" (Editora 34), romances mais célebres do escritor russo, são diretamente influenciados por esse tipo de recurso narrativo.

Para entendermos "Memórias do Subsolo", novela publicada em 1864, e a mudança estilística de Dostoiévski, precisamos conhecer um pouco a trajetória de vida deste autor. Nascido em Moscou, em 1821, Fiódor Dostoiévski mudou-se para São Petersburgo, então capital do país, e por lá viveu a maior parte do tempo. Quando tinha pouco mais de 20 anos de idade, ele começou a escrever seus primeiros contos e seus primeiros romances. Essa é a fase realista/naturalista de Dostoiévski. Suas histórias dessa época narravam essencialmente os dramas da parcela mais pobre da sociedade russa. "Gente Pobre" (Editora 34), romance de 1846, e "A Senhorita", novela de 1847, são bons exemplos desse tipo de literatura.

Em abril de 1849, Fiódor Dostoiévski foi preso pela polícia russa acusado de conspirar contra o czar Nicolau I. Após quase um ano de detenção, a decisão do julgamento condenou o escritor à morte. Contudo, pouco antes do fuzilamento, a sentença foi revista e revertida em trabalhos forçados na Sibéria. E para lá foi Dostoiévski. Por quatro anos, ele sofreu os horrores da detenção no frio siberiano. Apenas em fevereiro de 1854, o escritor pode deixar a prisão, beneficiado por uma nova revisão da pena que transformava alguns presos em soldados por tempo indeterminado.

Solto, Dostoiévski precisou cumprir por mais cinco anos o serviço militar obrigatório. Sua dispensa das Forças Armadas russas foi efetuada apenas em 1859 porque o autor passou a sofrer de graves crises de epilepsia. A fase de desgostos do escritor russo ainda não estava terminada. Casado com Maria Dmitriévna, em 1857, Fiódor Dostoiévski assistiu à morte da amada. Depois de muito padecimento, Dmitriévna faleceu de tuberculose em 1864. Poucas semanas depois, foi a vez de Milkhain, irmão do escritor, morrer. O calvário de Dostoiévski parecia, nesse momento, interminável.

Tendo regressado a São Petersburgo, Fiódor Dostoiévski lança, em 1862, sua primeira grande obra após a fase de reconquista da liberdade: "Recordações da Casa dos Mortos" (Martin Claret). Nesse romance, o autor narra o pesadelo que sofreu nas prisões siberianas. Estava, assim, inaugurado um novo gênero romanesco que seria importante da literatura russa, o dos relatos de prisioneiros.

"Memórias do Subsolo" veio logo depois. A novela foi publicada dois anos após "Recordações da Casa dos Mortos" e apresenta um autor desiludido com a política do seu país, entristecido pela perda de alguns entes queridos e amargurado pelos graves problemas de saúde que passava. Temos aqui a versão angustiada de Dostoiévski. O seu pessimismo e sua agressividade no fazer ficcional tornam-se, de certa maneira, totalmente justificados quando conhecemos sua biografia. Esse traço rancoroso do texto de Dostoiévski seria uma de suas marcas até o final da vida, algo apontado como o símbolo máximo da sua literatura até hoje.

O livro "Memórias do Subsolo" é dividido em duas partes. Ambas são narradas em primeira pessoa por um homem que não demonstra qualquer preocupação em agradar o leitor nem de passar uma imagem positiva de si. Pelo contrário, ele faz questão de demonstrar o quanto é nojento, antissocial, insensível, esquisito e repulsivo. Trata-se do sujeito que tem orgulho de ser mau e que parece sentir prazer em relatar suas características mais sórdidas.

Na primeira parte da novela, chamada de "O Subsolo", temos um monólogo filosófico de um narrador desiludido com o mundo e com a humanidade. Temos, assim, um desabafo sincero de uma personagem tragada pela imoralidade. O texto aqui é uma mistura de ensaio existencialista informal com a crônica ácida de costumes. O narrador diz que o homem é normalmente sádico e sanguinário. A sociedade humana é insensível ao belo e ao sublime. Nesse contexto, o progresso da civilização é uma utopia. A humanidade, segundo essa crença, estaria fadada à barbárie e ao retrocesso permanente.

Depois de muito tentar viver em sociedade, o protagonista desistiu do convívio com pessoas tão ignorantes. Por isso, ele passou a viver escondido de tudo e de todos em um lugar intitulado de Subsolo. É nesse Subsolo que ele apresenta suas reflexões existencialistas e niilistas da humanidade.

Na segunda parte de "Memórias do Subsolo", chamada de "A Propósito da Neve Molhada", o narrador relata um episódio importante do seu passado: a paixão que teve por uma prostituta. Nessa fase da novela, ele confessa atos de sua torpeza dirigidos não apenas à amada, mas também aos colegas de infância, ao seu funcionário residencial e a alguns conhecidos. Nessa fase da vida, o protagonista ainda não era o "homem do subsolo" e tentava se adequar socialmente, por mais difícil que isso fosse para ele.

O mais interessante deste livro é a postura ambígua do seu narrador. Apesar da força do seu discurso, a personagem principal é frágil e oscilante. Em muitos momentos sua voz desaparece no texto. A variação do humor do narrador interfere nos relatos feitos levando a história para caminhos paradoxais. Em muitos instantes da narrativa, o protagonista apresenta uma ideia para logo depois negá-la. Mais à frente, ele diz estar mentindo para o leitor, o que torna tudo ainda mais nebuloso. E, por fim, o narrador volta a reafirmar aquilo que disse inicialmente. Como confiar em alguém tão impreciso e a amalucado, hein?

Com "Memórias do Subsolo", Dostoiévski inaugurou o que podemos chamar de narrador em primeira pessoa abalado pela "Crise do Eu". A proposta dessa figura narrativa é incomodar e agredir o leitor em todos os momentos do texto. O leitor é o principal inimigo de quem conta a história. A sinceridade do narrador passa a ser total, sem a preocupação de parecer simpático ou bom. Esqueça, portanto, as convenções sociais e o princípio da empatia. Aqui a imoralidade e a perversão ganham uma nova dimensão.

Com isso, não espere uma narrativa prazerosa e simples. O tom dialógico do texto, com a apresentação de vários conceitos existencialistas e com a constante intertextualidade (várias obras ficcionais são citadas e comentadas), torna "Memórias do Subsolo" um livro denso e tenso. Dessa maneira, aconselho que a leitura desta novela seja feita com bastante calma e atenção. Apesar de pequeno, são apenas 152 páginas, o livro exige substancial esforço intelectual e de concentração do leitor. No meu caso (li "Memórias do Subsolo" no último final de semana), precisei de quase cinco horas para concluir esta obra. Esse tempo é o dobro do que normalmente consumo para uma leitura com esse número de páginas.

Também é importante não se assustar com a primeira parte de "Memórias do Subsolo". Se você ficar inclinado a desistir da leitura logo nas primeiras páginas, saiba que isso é algo proposital desse tipo de narrador de Dostoiévski. Ele vê o leitor como um adversário que será combatido. Se você tiver coragem e seguir para a segunda parte da novela, saiba que encontrará uma excelente trama. A história ali é extremamente angustiante, marcante e original. Vale a pena conhecê-la. A literatura de Dostoiévski pode parecer em um primeiro momento maçante e impenetrável, porém quando compreendida ela se revela magnífica.

Não é à toa, portanto, que este escritor e esta obra sejam tão influentes na literatura praticada ao longo de todo o século XX, possuindo resquícios das suas características estilísticas até os dias de hoje. E aí, topa encarar "Memórias do Subsolo"?

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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