• Ricardo Bonacorci

Livros: As Melhores do Analista de Bagé - A divertida criação de Veríssimo


Há algumas personagens literárias que se tornam mais populares quando migram dos romances, das novelas, das crônicas e dos contos para outros meios culturais. Gabriela e Dona Flor, as clássicas criações de Jorge Amado, se tornaram extremamente conhecidas no Brasil inteiro quando chegaram, respectivamente, à televisão e ao cinema. Ambas entraram no imaginário coletivo do país pela interpretação da atriz Sônia Braga. Impossível não se lembrar de Mazzaropi quando pensamos em Jeca Tatu ou em Grande Otelo quando imaginamos o nascimento de Macunaíma. Essa consolidação dos protagonistas literários acontece não apenas na televisão e no cinema, mas também no teatro, no rádio e nas histórias em quadrinhos.

Um caso interessante é do Analista de Bagé, criação de Luis Fernando Veríssimo. O psicanalista gaúcho foi desenvolvido, em 1981, para compor uma série de crônicas que o autor escrevia em vários jornais do país. O sucesso foi tão grande que a Playboy, em 1983, convidou Luis Fernando Veríssimo para publicar sua trama com exclusividade na revista no formato de histórias em quadrinhos. As tirinhas tiveram a ilustração de Edgar Vasques, enquanto o texto continuou com a autoria de Veríssimo. O sucesso foi retumbante. Estava criada uma das personagens contemporâneas mais interessantes e peculiares do humor nacional.

A Playboy publicou as histórias em quadrinhos da dupla Veríssimo-Vasques até 1992. Em 2007, a editora Objetiva resolveu reunir as melhores tirinhas e lançá-las em um livro ilustrado. Assim, nasceu "As Melhores do Analista de Bagé". Com 79 histórias (uma para cada página), o leitor se diverte com os enredos mais absurdos desse psicanalista freudiano "muy macho, sim senhor".

A leitura desse livro é rápida e muito descontraída. Em menos de duas horas é possível concluí-la. Para você ter uma ideia, peguei a obra emprestada na Biblioteca Mário de Andrade na quarta-feira à tardezinha (A BMA está novamente aberta ao público desde segunda-feira, dia 8). Quando cheguei em casa (voltei usando ônibus e trem), já tinha devorado 70% da publicação. Ou seja, piscou o olho, acabou o livro.

O Analista de Bagé é um psicanalista que se diz freudiano, mas que segue na verdade uma linha totalmente independente (muito heterodoxa por sinal). Aos cinquenta anos de idade, o analista faz o tipo charmoso viril. Ele não pensa duas vezes em levar suas pacientes para a cama. Segundo sua técnica de tratamento, não há neurose feminina que não se cure com uma boa transa (seja no consultório ou em qualquer outro lugar). Quanto aos pacientes do sexo masculino, ele prefere enfiar a mão na cara (ou melhor, o joelho nas partes certas, técnica chamada de "joelhaço"). De acordo com sua concepção psiquiátrica, nada como uma boa surra (joelhada) para fazer um homem melhorar como pessoa e evoluir na vida.

Assessorado pela linda e amalucada recepcionista Lindaura, com quem tem um tórrido romance, o Analista de Bagé trata em seu consultório pacientes com frigidez feminina, ninfomania, ejaculação precoce, ciúme compulsivo, impotência sexual, inveja crônica e uma infinidade de outros complexos mentais, sociais e sexuais. Assim, as narrativas do Analista de Bagé giram sempre em torno das consultas e dos conselhos/tratamentos que o psiquiatra oferece ao público.

O humor do livro (e dessa personagem) é bem típico da década de 1980: recheado de caricaturas e com narrativas que passam longe do politicamente correto. O próprio protagonista reúne essas duas características. Ele é o protótipo do gaúcho machista e machão que age segundo as convicções pouco convencionais da sua cultura bageense (cultura essa criada por Veríssimo). O contraste entre o ambiente sério da consulta psicanalítica e a grossura do analista geram situações hilárias.

Se "As Melhores do Analista de Bagé" rapidamente envolve o leitor (em poucas tirinhas já é possível ter um retrato aprofundado das principais personagens e compreender o enredo das tramas), o livro também rapidamente pode entediar o leitor mais exigente. Depois de vinte ou trinta histórias, as demais vão se parecendo muito umas com as outras. A impressão é que da metade para o final do livro, não há qualquer novidade. Esse aspecto não ficava tão evidente quando as tirinhas eram publicadas mensalmente na revista masculina. Contudo, quando se lê todas na sequência, a sensação de mesmice inevitavelmente surge.

Apesar desse ponto negativo, é impossível desaprovar as tramas. Elas são realmente engraçadas (pelo menos para quem ainda valoriza, em pleno século XXI, piadas sexistas e homofóbicas). Sei o quanto esses temas e esse tipo de humor são polêmicos atualmente, mas é preciso dar uma colher de chá para o autor e sua mais famosa criação. Lembremo-nos que Veríssimo criou o Analista de Bagé no início da década de 1980, época em que era possível fazer graça sem a opressão do politicamente correto.

Luis Fernando Veríssimo é um dos melhores escritores brasileiros da atualidade. Excelente contista e cronista, o gaúcho consegue criar narrativas divertidas que retratam com astúcia a realidade contemporânea. Até hoje, suas colunas no jornal O Estado de São Paulo são as minhas favoritas. E, sem dúvida nenhuma, o Analista de Bagé é sua criação máxima, que vale a pena ser conhecida (gostando ou não do tipo de humor que ela oferece).

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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