• Ricardo Bonacorci

Contos: Paranoias Modernas - Celebração


Ela recolocou o fone no gancho. Parou por alguns segundos, de pé ao lado da mesinha da copa, refletindo sobre como iria dar a notícia ao marido. Eles já estavam casados há mais de quarenta anos, mas uma notícia delicada como aquela nunca era fácil de ser transmitida.

- O que foi que aconteceu agora, Maria de Lourdes? - Berrou Manuel da sala, inconformado com a reação misteriosa da esposa à ligação. Ele estava sentado no sofá e pôde acompanhar, de longe e de mau humor, parte do diálogo da mulher.

- É... Era... - Ela procurava as palavras certas – Acho que temos um enterro para ir.

- Um enterro! - Espantou-se - Isso quer dizer que haverá um velório também.

De repente, Manuel ficou muito animado. Milagrosamente, sua fisionomia carrancuda, cultivada há anos com amargura, desesperança e frustração, desapareceu por completo. Quem o olhasse naquele instante poderia perceber um ar um pouco mais jovial em seu semblante. Um evento social como aquele não era todo dia que acontecia. Na certa, vivenciava uma manhã de sorte, uma data especial que deveria ser aproveitada ao máximo.

- Que maravilha! Quando que é? Onde será? Já podemos nos aprontar? – Com alguma dificuldade, se levantou do sofá. As dores nas pernas não pareciam mais tão fortes como outrora. Ele iniciou a caminhada até o quarto.

- Pelo amor de Deus, Manuel! Como você fica feliz como uma notícia como esta?

Ela não compreendia porque o marido, nos últimos anos, ficava tão excitado com este tipo de evento. No ano passado, ele fora radiante a dois enterros realizados pela família dela. Na época, Maria de Lourdes achou que fosse birra de Manuel com seus familiares. Porém, desta vez, ele repetia o comportamento com uma morte na família dele.

- Sabe que é até pecado esta sua alegria!

- Pecado nada! Essas são as melhores ocasiões para encontrarmos os amigos antigos e os parentes que vivem enfurnados em suas casas. É nesta hora que nós reencontramos o povo das antigas. Podemos colocar a conversa em dia e saber como vão todos...

- Jesus Cristo! Que Nossa Senhora te perdoe por pensar assim. Só espero que você não fique falando essas bobagens para os outros, como nos velórios do ano passado. Fiquei com uma vergonha danada de você...

- Pois vou repetir isso quantas vezes achar necessário. E, no fim das contas, todo mundo concorda comigo, não é? Ninguém fala tão abertamente porque tem vergonha de parecer insensível. Como sou desbocado, falo sem preocupação. Aposto que até você, lá no fundo, fica um pouquinho animada. Confesse! Você também adora por uma roupinha diferente e sair de casa para encontrar com a velha guarda?

A mulher fez o sinal da cruz, ignorando a pergunta. Ela olhava para o marido com a certeza de que passaria mais uma vez por constrangimentos. Velórios e enterros não eram locais para confraternizações animadas. Onde já se viu aquilo?

- Só gostaria de saber por que, agora depois de velho, você tem esta mania maluca? Quando você era novo, você não gostava de ir aos cemitérios, lembra? Eu acabava sempre indo sozinha.

- Naquele tempo, Maria de Lourdes, a gente encontrava mais vezes a família e os amigos. Cada um visitava a casa do outro pelo menos uma vez ao mês. E havia tantos casamentos, nascimentos dos filhos, batizados... Toda semana tinha uma festa no mínimo. Eita tempo bom aquele! Hoje, os jovens não se casam mais. Quando alguém desencalha, faz tudo escondido para ninguém saber, como se aquilo fosse proibido. Ter filhos, então, é uma dificuldade. Ninguém mais visita ninguém e festa é artigo raro. Hoje em dia, o único momento que sobrou para revermos todo mundo é quando alguém bate as botas. Porque, ainda bem, de morrer o povo não se esqueceu como faz.

- Ninguém vai feliz a um enterro! - A esposa já havia ouvido aquela explicação um milhão de vezes, mas não concordava com os argumentos estapafúrdios de Manuel - O único que vai alegre e quer transformar o cemitério em festa é você.

- Só eu? Imagine! Seu irmão é quem ficou contando piadas durante o velório da sua mãe no ano passado. E quem foi buscar os engradados de cerveja quando sua prima empacotou, hein? Por um acaso fui eu? Não! Foi o Gregório, o marido dela. Ele inclusive pagou tudo e não deixou ninguém ajudar na conta. Saiba que a conta do bar não ficou barato não.

- E por que vocês resolveram assistir ao jogo bem no meio do velório dela, comendo e gritando como se estivessem em um estádio de futebol?

- A culpa também não foi minha. O seu cunhado, aquele corintiano fanático, é quem trouxe a televisão de casa e colocou para vermos. Era final de campeonato, né? Não dava para não torcer contra aquele time de maloqueiros.

- E quem resolveu colocar música depois do jogo para todos dançarem?

- OK. Nessa eu admito parte da culpa. Eu apenas propus, mas todos gostaram da ideia. Você viu como os filhos do Talascão e da Gertrudes dançaram a noite toda? Eles eram os mais animados. Não dava para falar para eles pararem com aquilo e ficarem sentados chorando, não é?

- Se minha mãe estivesse vendo a bagunça que vocês fizeram no velório dela e no da sobrinha predileta dela, na certa teria ficado furiosa com todos.

- Se ela estivesse vendo alguma coisa, não estaria sendo velada, Maria de Lourdes.

- Prometa, Manuel, por favor, que desta vez você vai se comportar. Não quero passar vergonha no enterro da sua irmã. Pelo amor de Deus! Já pensou o que sua família vai falar da gente?

Manuel, então, parou pela primeira vez os preparativos para o evento. Ele já havia chegado ao quarto e conversava com a esposa enquanto escolhia a roupa que usaria mais tarde. Ao descobrir quem havia falecido, sua fisionomia se alterou.

- Minha irmã morreu? É dela o velório?!

- Sinto muito.

Manuel ficou momentaneamente sem ar. Ele não esperava por aquilo. Imaginava que fosse outra morte na família de Maria de Lourdes. Jamais passara por sua cabeça que um parente seu fosse o responsável por aquela mobilização. Ainda mais sua irmã.

- Isso quer dizer... - Ele não escondia a fortíssima emoção - Isso quer dizer que o primo Pacheco, a Conceição do Zé Pinguinha e o tio Darley também vão. Não acredito! Esta será a melhor noite do ano. Aposto que eles vão querer ficar a madrugada toda batendo papo no velório.

Em questão de segundos, ele abandonou a escolha da roupa e passou a concentrar sua atenção nas gavetas do armário. Parecia procurar algo guardado no fundo do móvel.

- Acho que precisarei levar mais dinheiro... Você conhece minha família, Maria de Lourdes, eles vão secar o bar da frente do cemitério... Você sabe onde está aquele dinheirinho que eu estava guardando para as emergências? Deixei em uma dessas gavetas, mas não estou... Achei! Aqui está.

Um sorriso largo apareceu no rosto de Manuel, para desânimo da esposa.

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Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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