• Ricardo Bonacorci

Livros: Primeiro Amor - O conto angustiante de Samuel Beckett


Nesta semana, li "Primeiro Amor" (Nova Fronteira), livro de Samuel Beckett. É preciso deixar claro que esta não é a obra mais famosa do irlandês vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1969. Essa honra cabe à trilogia formada pelas peças "Esperando Godot" (Cosac Naify), de 1952, "Fim de Partida" (Cosac Naify), de 1957, e "Dias Felizes" (Cosac Naify), de 1961. Só de citar essas histórias fiquei com vontade de comentá-las no Blog Bonas Histórias. Quem sabe não coloque Beckett no Desafio Literário do próximo ano para poder analisar suas criações de forma mais completa, hein? Vontade não me falta. O que atrapalha é o fato de a lista do Desafio ser limitada a apenas oito autores anualmente. Aí, sempre ficam grandes nomes de fora...


A relevância de "Primeiro Amor" está em sintetizar o espírito atormentado e pessimista de Beckett em uma narrativa curta, gênero em que o irlandês produziu boas obras. O texto deste conto retrata com propriedade as características literárias que fizeram o escritor tão amado ao redor do mundo ao longo da segunda metade do século XX. A força dramática do livro deixa o leitor totalmente desconcertado. Trata-se de uma paulada que tomamos na cabeça e, ao mesmo tempo, no coração. É uma leitura existencialista para pessoas fortes e destemidas. Não seja enganado pelo título: a última coisa que temos aqui é amor.


Prova maior do valor de "Primeiro Amor" está no fato de algumas editoras, tanto no Brasil quanto no exterior, terem aceitado publicá-lo de maneira independente apesar de ele ser um conto. Normalmente, as narrativas curtas não são impressas em uma publicação exclusiva. Geralmente, elas são lançadas dentro de antologias ou coletâneas de contos. Entretanto, "Primeiro Amor" acabou contradizendo a lógica do mercado editorial de que "um único conto não pode ocupar um livro inteiro" e foi publicado sozinho.

Assim sendo, não se assuste com o tamanho reduzidíssimo de páginas desta obra. A versão da Nova Fronteira, por exemplo, tem meras 88 páginas. E isso foi um esforço da editora para alongar ao máximo o livro. Por ser uma edição bilíngue, o número de páginas foi duplicado. Se fosse editado apenas em nosso idioma, dificilmente o livro teria mais do que 48 páginas. Pelo seu tamanho reduzido, é possível ler essa obra inteira em pouco mais de meia hora. Foi o que fiz na noite desta terça-feira.


Para quem não conhece Samuel Beckett, ele é um dos escritores mais influentes do século XX. A impressão que temos é que seu trabalho, seja no teatro, na prosa, nos ensaios ou na poesia, influenciou boa parte dos grandes autores contemporâneos de língua inglesa. Muita gente boa o cita diretamente como fonte de inspiração. Nascido em Dublin, em 1906, Beckett levou a literatura irlandesa para novas fronteiras, sendo considerado por muitos críticos e acadêmicos como um dos primeiros escritores pós-modernistas.


Primeiro texto em francês de Samuel Beckett, "Primeiro Amor" foi escrito em 1945, logo após o término da Segunda Guerra Mundial. Nesta época, o autor já morava em Paris, cidade que adotou como residência fixa desde o final da década de 1930. A publicação deste conto, porém, demorou um quarto de século para acontecer. Apenas em 1970, quando Beckett já era um dos maiores escritores do planeta e da história, o monólogo pessimista ganhou as livrarias.


A trama é narrada em primeira pessoa por um homem patético, que não tem seu nome revelado durante todo o conto. Ele vive isolado e se comporta como um bicho: não fala com ninguém, parece não nutrir nenhum sentimento nobre e procura não fazer nada de importante durante seus dias. Além disso, ele parece ter adoração por tudo o que é mórbido. Cemitérios, corpos em decomposição, sensação de prostração, lápides e epígrafes, por exemplo, são temas de suas reflexões mais profundas.

Esse narrador incomum informa ao leitor logo no início que escreverá uma história de amor: a primeira paixão de sua vida. Seu casamento com esse grande amor está relacionado com a morte do pai. Afinal, quando o pai do protagonista morre, ele é expulso de casa pela família. O motivo dessa atitude radical não é explicitado. Sem ter onde ficar, o pobre homem passa a dormir em um banco da praça como um mendigo. Em uma noite gelada, uma mulher surge na praça e quer dividir o banco com ele. De má vontade, o rapaz aceita compartilhar o espaço do seu leito improvisado. Ambos acabam dormindo juntinhos, espantando um pouco o frio noturno.


Quando a mulher retorna ao banco nas noites seguintes, o narrador se revolta. Como assim? Ela não pode ficar voltando sempre para aquele lugar! Aquele é seu banco e ela não tem o direito de incomodá-lo tantas vezes. A mulher entende a situação do homem e, surpreendentemente, o convida para ir morar com ela. A moça, que é estrábica, possui um apartamento de dois quartos perto da praça.


Assim, as duas personagens vão morar juntas como um casal. Na nova residência, o narrador e "sua mulher" começam um relacionamento muito estranho. Nesse ponto, a história torna-se enigmática e muito ácida. A pobreza emocional da dupla é tão atormentadora que o leitor não consegue ficar indiferente a tanta frieza. Está criado o conflito que permeará toda a história do conto. Até a página final da obra, presenciamos uma enxurrada de situações angustiantes de personagens que parecem não ter corações.


Achou estranho o enredo de "Primeiro Amor"? Saiba que mais esquisita do que sua história é a maneira como o narrador-protagonista conta os fatos da trama. O homem expulso de casa pela família parece não querer relatar os acontecimentos que se propôs inicialmente. Na verdade, ele parece não querer fazer nada. Assim, tudo caminha envolto em uma névoa indecifrável de mutismo. O narrador se torna pouco confiável ao se contradizer o tempo inteiro e dar grandes voltas na história para retornar sempre para o mesmo ponto.

Outro elemento que causa grande incômodo é a característica psicológica da personagem principal. O protagonista do conto é um homem que ama a morbidez e a sordidez. Ele não consegue conviver minimamente em sociedade, se transformando em um pária antissocial. Sua frieza emocional é tamanha que sua concepção de amor choca até mesmo os leitores menos românticos. Se aquilo que ele diz sentir pela mulher dona do apartamento pode ser chamado de amor, a humanidade está perdida.


Esse sentimento de desilusão com tudo e todos de "Primeiro Amor" combina de certa maneira com a época em que o texto foi produzido. O final da Segunda Guerra Mundial foi um período de grande pessimismo. As lembranças recentes do holocausto, dos milhões de mortos em combate e das bombas atômicas atormentavam os homens. O mundo físico e o universo sentimental da maioria dos indivíduos pareciam totalmente devastados naquele momento histórico. Assim, a morbidez, o desespero e a frieza dos textos de Beckett combinam perfeitamente com o período em que não se podia acreditar no belo e nas emoções mais afetuosas dos seres humanos.


Além da desconstrução da narrativa e das relações humanas, "Primeiro Amor" possui (acredite se quiser!) doses de bom humor, o que só torna seu texto ainda mais angustiante para o leitor (pobre leitor!). O narrador faz graça com aspectos mórbidos, tornando tudo mais ácido. Juro que é impossível simpatizar com um protagonista assim. Desde a primeira linha nota-se algo de muito errado com sua figura.

Por tudo isso, este é um conto angustiante, um dos mais aterrorizantes que já li. Enojado. Foi assim que me senti ao final dessa leitura. Sentimos tanta antipatia pelo narrador, uma personagem desprovida de sentimentos nobres e destruída emocionalmente, que acabamos embarcando na tristeza da história. Como diria um professor meu, Beckett não é para ser lido todos os dias. Do contrário, você corre o risco de cair em depressão ou de cometer suicídio. Lê-lo de vez em quando, por sua vez, é realmente uma experiência devastadora e intensa. Perto do escritor irlandês, a literatura de terror de Stephen King ou de Edgar Allan Poe, por exemplo, parecem coisas de criancinhas sem graça. Nada é mais cruel do que a realidade fria do mundo bruto que conhecemos no dia a dia.


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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