• Ricardo Bonacorci

Livros: O Menino Maluquinho - O clássico infantil de Ziraldo


Nesta semana, reli o livro "O Menino Maluquinho" (Melhoramentos). Este clássico da literatura infantil brasileira foi criado por Ziraldo em 1980. Curiosamente, esta foi a primeira obra literária que li em minha vida. Lembro que ganhei "O Menino Maluquinho" de presente de aniversário quando completei seis anos de idade. Por muitos anos, tive este livro na estante do meu quarto. Infelizmente, depois de algumas mudanças de residência pelo país o perdi. Por isso, somente agora pude relê-lo com a calma necessária. Afinal, consegui adquirir um novo exemplar em uma visita despretensiosa a um sebo da Avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros, há algumas semanas.


"O Menino Maluquinho" é um dos maiores sucessos editoriais da história do nosso país e o maior best-seller brasileiro destinado ao público infantil de todos os tempos. De seu lançamento, em 1980, até hoje já foram publicadas mais de 100 edições com vendagens que ultrapassam a marca de três milhões de unidades. É isso mesmo o que você leu: três milhões de livros vendidos no Brasil! Na esteira do êxito comercial do livro vieram adaptações para gibis, filmes, peças de teatro, óperas, programas de televisão, etc. Esta obra já foi publicada em vários países, ganhando traduções para o inglês, o espanhol, o francês, o italiano, entre outros idiomas. Não é à toa que a personagem principal deste título tenha se tornado um ícone da literatura infantil nacional.


Ziraldo, o autor de "O Menino Maluquinho", tem atualmente 85 anos. Nascido em Caratinga, Minas Gerais, o escritor também trabalhou muito tempo como cartunista, jornalista e dramaturgo. É inegável que Ziraldo utilizou-se de fatos autobiográficos para criar o garoto levado que usava uma panela na cabeça como se fosse um chapéu (ilustração fantástica que estampa uma das capas mais simbólicas da literatura brasileira). É só assistir a uma entrevista do autor para entendermos que o Menino Maluquinho é (ou foi) o próprio Ziraldo.

Quando "O Menino Maluquinho" chegou às livrarias do Brasil, Ziraldo, então com 48 anos, já era um jornalista experiente e consagrado no país. Na década de 1970, ele fundou e dirigiu o tabloide "O Pasquim", que fazia críticas bem-humoradas ao regime militar. Pela ousadia, Ziraldo foi preso pelos militares. Na década de 1960, o humorista já havia criado a série "Turma do Pererê", uma das revistas em quadrinhos de maior sucesso da época. Por este trabalho, ele conquistou vários prêmios na Europa e na América do Sul. Antes disso, na década de 1950, Ziraldo tinha trabalhado como cronista de importantes veículos da imprensa brasileira: no jornal Folha da Manhã (atualmente Folha de São Paulo), na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Sua matéria-prima sempre foi o humor e a criação de personagens hilários. A consagração definitiva, contudo, veio com o lançamento, no começo dos anos de 1980, do título infantil que marcaria gerações e gerações de brasileirinhos.


"O Menino Maluquinho" conquistou o Prêmio Jabuti, em 1981, como a melhor obra infantojuvenil lançada no ano anterior. Com pouco mais de 100 páginas, o livro mistura textos e ilustrações com rara felicidade. É difícil saber o que é melhor. Se a parte textual é maravilhosa (inteligente e sensível), as imagens não são menos incríveis (são divertidas e lúdicas). Para um adulto, é possível ler esta obra em poucos minutos. Já para uma criança, será necessário dar-lhe ao menos uma tarde inteira para a conclusão da leitura.


O enredo do livro é sobre a infância do protagonista, um menino muito arruaceiro. De tão brincalhão, o garoto recebeu o apelido de Maluquinho. Nas páginas da obra, conhecemos o dia a dia dessa personagem: na escola com a professora e com os coleguinhas, em casa com os pais, nas visitas à residência dos avós, nas brincadeiras de rua, nas peraltices típicas da idade, nos jogos de futebol com os amigos e no romantismo dos namoros infantis. Estão ali muitos dos elementos de uma infância idílica: empinar pipa, comer doces, ler gibis, brincar com os amiguinhos na rua, estudar para as provas, ter medo de fantasma, se preocupar com o boletim, passar a tarde desenhando e pintando...

É a infância, período mágico e de uma beleza singular, que Ziraldo retrata com lirismo e graça nas páginas de "O Menino Maluquinho". O escritor descreve de maneira poética e com uma linguagem própria para as crianças essa fase inicial da vida das pessoas. Impossível não se emocionar com o conteúdo desta publicação.


O mais interessante do livro é que Ziraldo confere dramaticidade a uma trama aparentemente simples. Estão ali, por exemplo, a separação dos pais (elemento sempre complicado para a criança e de difícil menção em uma obra destinado aos pequenos leitores) e a passagem do tempo (o menino deixa de ser criança e se torna adulto). As inserções desses componentes dramáticos são feitas com graça e leveza, dando ainda mais beleza à história narrada. Repare na força do seu desfecho (cuidado: aí vai o spoiler!). Com bastante sensibilidade, o autor desmente tudo aquilo que falou até então: aquele menino não é de fato maluquinho; é apenas um garoto normal, que soube aproveitar intensamente sua infância. Maravilhoso!


O livro é recheado de belíssimas ilustrações. Curiosamente, Ziraldo, um grande desenhista e ilustrador, cedeu várias páginas deste título para algumas crianças apresentarem suas criações artísticas. Vários desenhos e detalhes da obra foram feitos por meninos e meninas, o que confere ainda mais legitimidade às ilustrações infantis. Além disso, os desenhos ocupam até mesmo mais espaço do que a parte verbal do livro (em uma época em que esse recurso não era assim tão corriqueiro como agora). Isso é proposital, pois a molecada, nessa fase da vida, é mais visual do que textual. A grande quantidade de imagens chama a atenção das crianças e as incentiva a descobrir o teor daquela história visualmente impactante.

"O Menino Maluquinho" tem a capacidade de mostrar ao leitor infantil a beleza de uma história ficcional e a força estética da literatura. Ao se emocionar com essa narrativa, o jovem leitor provavelmente desejará ler mais e mais livros. Falo isso por experiência própria. Neste sentido, a obra de Ziraldo pode ser vista como um título introdutório ao prazer de se aventurar pela literatura. Afinal, o brasileiro de modo geral não é muito fã da leitura de livros. Infelizmente, isso é um fato concreto. Alguns não leem porque não sabem (e há muita gente assim, analfabeta funcional) e outros porque não gostam (ou não aprenderam a gostar). Há também aqueles que não têm esse saudável hábito. Como mudar isso? O primeiro passo é educando e letrando as crianças. E o segundo é mostrando como é saudável e prazeroso o hábito da leitura. Por que não apresentar a maravilha de "O Menino Maluquinho" para a garotada, hein?


Admito que agora a estante da minha biblioteca voltou a estampar um dos livros mais queridos. Não vejo a hora de apresentar esta obra para a primeira criança que vier me visitar.


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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