• Ricardo Bonacorci

Músicas: Com Defeito de Fabricação - O maluco (e excelente) álbum de Tom Zé


Desde o final da década de 1960, Tom Zé é um dos mais criativos e talentosos músicos de nosso país. Em 1968, ano de lançamento do seu primeiro LP, chamado simplesmente de "Tom Zé" (álbum que celebra agora seu quinquagésimo aniversário), o artista baiano venceu o IV Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. A canção premiada foi "São Paulo, Meu Amor". Nos anos seguintes, a proximidade com os cantores da Tropicália evidenciou o jeito irreverente e único de Tom Zé. Ao mesmo tempo em que inovava musicalmente, ele também era mestre em polemizar. Impossível não nos lembrarmos da imagem da capa de "Todos os Olhos", álbum de 1973, que supostamente era uma bola de gude pousada no centro do ânus de uma mulher. Impagável!


Contudo, as experimentações cada vez maiores e mais intensas de sua música acabaram levando Tom Zé ao ostracismo na segunda metade da década de 1970. Esse período de ocaso se prolongou durante boa parte dos anos de 1980. Suas composições se tornaram incompreensíveis para os ouvidos sensíveis do público e da crítica, sendo rejeitadas pelas massas. De certa maneira, suas maluquices haviam alcançado alguns pontos acima da capacidade de compreensão do mercado comercial fonográfico.


A virada na carreira de Tom Zé aconteceu na década de 1990. Sua música foi levada para os Estados Unidos, no final dos anos de 1980, por David Byrne, ex-integrante do Talking Heads. E merecidamente ela se tornou um sucesso na América do Norte. Byrne conheceu o talentoso músico baiano e suas canções inusitadas em uma viagem ao Rio de Janeiro. Com a valorização no exterior, os brasileiros, principalmente os profissionais do mercado fonográfico, passaram a ver Tom Zé com outros olhos. A revalorização do seu trabalho e a nova mensuração do seu potencial artístico fizeram com que as portas das gravadoras, até então fechadas, fossem novamente abertas para ele. No comecinho dos anos 1990, Tom Zé não era mais visto como o maluco que criava canções difíceis e álbuns herméticos. Ele voltava a ser pop.

Ao longo da década de 1990, Tom Zé lançou quatro álbuns: "The Hips of Tradition", em 1992, "Parabelo", em 1997, "No Jardim da Política", em 1998, e "Com Defeito de Fabricação", também em 1998. Desses trabalhos, aquele que teve a repercussão mais positiva foi o último. "Com Defeito de Fabricação" é um dos melhores e mais criativos álbuns brasileiros das últimas duas décadas. Para se ter uma ideia do seu alcance, ele foi eleito pelo The New York Times como um dos dez melhores discos daquele ano lançados no planeta. Nada mal, hein?


Em "Com Defeito de Fabricação", Tom Zé consegue surpreender e agradar o público ao mesmo tempo em que não abre mão de sua polifonia sonora, das misturas de gêneros e das letras ousadas, engraçadas e muito engajadas (características essas que sempre marcaram sua carreira e seu estilo musical). Ouvir esse trabalho na íntegra é mergulhar em um mundo novo, poucas vezes acessível à música comercial. É impossível dizer qual faixa é a melhor. Sempre que ouço esse álbum acho que sua riqueza maior está no conjunto da obra e não nas canções isoladas.


Ouça, a seguir, esse disco de Tom Zé, que completa agora 20 anos de existência:

Com 14 canções ("O Gene", "Curiosidade", "Politicar", "Emerê", "O Olho do Lago", "Esteticar", "Dançar", "Onu: Vendem-se Armas", "Juventude Javali", Cedotardar", "Tangolomango", "Valsar", "Burrice" e "Xiquexique"), "Com Defeito de Fabricação" tem pouco mais de meia hora de duração. As minhas músicas favoritas são "O Gene", "Curiosidade", "Politicar" e "Tangolomango".


Hoje em dia, Tom Zé já é um senhor de mais de 80 anos. Mesmo com o acúmulo de décadas e décadas de vida, é legal perceber que ele continua ativo e criando com a mesma qualidade de sempre. Seu último álbum, "Canções Eróticas de Ninar", de 2016, mantém a pegada irreverente e ousada (a começar pelo nome).


É ou não é um artista excepcional com uma riqueza singular, hein?!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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