• Ricardo Bonacorci

Livros: O Coronel e o Lobisomem - O realismo fantástico de José Cândido de Carvalho


No começo deste ano, li a principal obra literária de José Cândido de Carvalho. "O Coronel e o Lobisomem" (Companhia das Letras) foi escrito na década de 1960 e de lá para cá tem sido editado ininterruptamente. O livro se aproxima da marca de cinquenta e seis edições lançadas, o que demonstra evidentemente o seu grande apelo de público ao longo dos últimos cinquenta e quatro anos. Na média, é praticamente uma edição por ano. A história de "O Coronel e o Lobisomem" foi levada recentemente às telas dos cinemas brasileiros. O filme de 2005 foi produzido pela Globo Filmes e teve Guel Arrais como produtor e Maurício Farias como diretor.


Além de escritor, José Cândido de Carvalho trabalhou como jornalista (por muitos anos na revista "O Cruzeiro") e advogado (por pouquíssimo tempo no início de carreira). Em 1974, foi eleito para uma das cadeiras da Academia Brasileira de Letras, sendo, assim, reconhecido como um dos principais autores de sua geração.


"O Coronel e o Lobisomem" foi o segundo livro ficcional de Carvalho. Publicada em 1964, a obra pertencente ao gênero realismo fantástico se tornou um best-seller no mercado editorial de nosso país desde o seu lançamento. O sucesso foi tanto de público quanto de crítica. O romance conquistou importantes prêmios no cenário nacional, entre eles o Jabuti de 1965, o mais relevante da literatura brasileira. O livro também foi traduzido e lançado em alguns países europeus.

Curiosamente, José Cândido de Carvalho só publicou dois romances, ambos no início de carreira. Antes de "O Coronel e o Lobisomem", o escritor fluminense já tinha lançado "Olha para o Céu, Frederico!", de 1939. Depois, Carvalho só escreveu obras de contos ("Porque Lulu Bergantim não Atravessou o Rubicon", "Um Ninho de Matagafos Cheio de Matagafinhos" e "Se Eu Morrer, Telefone para o Céu"), de crônicas ("Ninguém Mata o Arco-Íris") e infantojuvenis ("Manequinho e o Anjo de Procissão", "Notas de Viagem ao Rio Negro" e "Os Mágicos Municipais"). Assim, seu portfólio literário é composto por nove títulos.


O enredo de "O Coronel e o Lobisomem" aborda a vida de Ponciano de Azeredo Furtado. O protagonista, que narra a trama em primeira pessoa, é neto de Simeão Furtado, um ex-oficial da Guarda Nacional de muito sucesso e que se tornou uma espécie de herói lendário na cidade de Campos dos Goytacazes. Sem sucessos concretos para exibir (o que o diferencia totalmente do avô famoso), Ponciano tenta desesperadamente se equiparar às façanhas do antepassado. Assim, passa a narrar suas aventuras e suas realizações, julgando-as extraordinárias, para o leitor.


Quando jovem, ele derrotou Vaca-Braba, um valentão que trabalhava no circo e que tinha fama de invencível. Depois, expulsou um cobrador de impostos que visitava as propriedades rurais da região extorquindo os proprietários. Na ânsia crescente de mostrar sua coragem e sua beleza, o narrador pouco a pouco começa a exagerar na dose. Aí surgem histórias de confrontos contra lobisomens (obviamente vencidos por Ponciano) e paixões avassaladoras de sereias (que ficam gamadas no nosso protagonista). Por fim, o narrador adota a cunha de Coronel, apesar de nunca ter lutado nem servido as forças armadas.

Posicionando-se como um defensor dos fracos e dos oprimidos de Sobradinho, sua cidade natal, Ponciano se apresenta como um herói popular, relatando do início ao final do romance seus êxitos financeiros, amorosos e armados. Porém, fica evidente para o leitor minimamente atento, logo nas primeiras páginas, que o Coronel é um narrador pouco confiável. Ao invés de corajoso, inteligente, bonito e preocupado com a população carente, ele é um tanto covarde, extremamente ingênuo e muito vaidoso. Aqui está o lado cômico da história de José Cândido de Carvalho. Por mais que o narrador se esforce para nos mostrar algo, fica evidente o oposto do que ele tenta nos provar.


Por exemplo, para Ponciano, ele é um partidão local, sendo cobiçado por todas as mães ansiosas em casar bem suas filhas. A realidade é bem distinta dessa visão do Coronel de Sobradinho. Uma a uma, as famílias da região acabam preterindo aquela figura excêntrica. As belas filhas dos principais fazendeiros tornam-se muitas vezes esposas de sujeitos simples, pobres e pacatos, para incompreensão do protagonista. Até mesmo as famílias menos importantes e ricas desprezam a candidatura de Ponciano como marido. Como consequência, ele torna-se um solteirão rico, solitário e amargurado. Por mais que deseje amar uma única mulher e ter uma esposa em casa, o expediente que lhe resta para ter uma companhia feminina na cama em algumas noites é pagando para algum rabo de saia visitá-lo.


Com o tempo, Ponciano de Azeredo Furtado cansa da vida passada no campo. Ele, então, muda-se para a cidade grande. No novo ambiente, o Coronel de Sobradinho deseja demonstrar sua importância social e sua riqueza. Também continua querendo conquistar uma esposa. Mesmo já velho, ele não desiste de ter uma mulher para si. Assim, passa a viver das aparências e a querer agradar aos "amigos" com presentes e favores caros. Com isso, torna-se um alvo fácil da malandragem urbana, que não perdoa um homem rico, ingênuo e bastante vaidoso. Sem perceber, Ponciano, por mais que tente vender ao leitor suas grandes realizações na cidade grande, termina por arruinar pateticamente sua vida e sua fortuna.

A principal característica de "O Coronel e o Lobisomem" é o seu humor. Com um texto leve, ágil e muito engraçado, Ponciano de Azeredo Furtado é um excelente narrador. Sendo sem dúvida nenhuma uma das mais contraditórias personagens da nossa literatura, o Coronel de Sobradinho gera diferentes reações no público leitor: ora ficamos com raiva dele, ora sentimos pena. Às vezes acreditamos em suas histórias para logo em seguida duvidarmos delas. Em alguns momentos ele parece um vilão, mas rapidamente ele perde a vilania e torna-se um pobre coitado.


Ponciano não é, definitivamente, um fazendeiro cruel e sanguinário como Paulo Honório, de "São Bernardo", romance de Graciliano Ramos. Ele está mais para uma versão rica e pretensamente erudita de Vitorino Carneiro da Cunha, protagonista cômico e ingênuo de "Fogo Morto", obra de José Lins do Rego. Ou seria um Dom Quixote brasileiro, acreditando piamente em seus devaneios? Neste caso, o problema para Ponciano é que ele não tem um fiel companheiro para ajudá-lo a enfrentar a realidade dura do mundo como tinha o herói de Miguel de Cervantes. Sem um Sancho Pancha a tira colo, Ponciano fica a mercê das maldades e das ambições de homens e mulheres da cidade grande.


Juntamente com um excelente narrador-protagonista, também temos uma coleção de boas personagens secundárias. Desde os funcionários do Coronel em sua fazenda em Sobradinho até seus sócios e "admiradores" na cidade grande, temos figuras complexas e bem construídas. Variando de personagens caricatas a personagens redondas, elas conferem um colorido especial à trama.

Durante a leitura, repare também na linguagem utilizada por José Cândido de Carvalho. Parte da graça da obra está nessa construção do discurso do narrador. O humor advém da tentativa de erudição do Coronel Ponciano, que na verdade é um homem pouco letrado do interior (em outras palavras, ele é um caipirão bronco). Mais uma vez, o infeliz narrador é desmascarado facilmente pelo leitor mais astuto. Realmente, são muito engraçadas essas contradições de ordem discursiva-narrativa. Mais uma vez, nosso herói (ou seria anti-herói?) fracassa na tentativa de se provar a quem lê suas páginas.


Gostei muito da leitura de "O Coronel e o Lobisomem". Li em apenas dois dias suas mais de 400 páginas. Esse livro é um dos clássicos da literatura brasileira e é também um dos melhores exemplares do realismo fantástico que temos em nosso país. Quem gosta de boa literatura precisa conhecer tanto José Cândido de Carvalho quanto "O Coronel e o Lobisomem".


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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