• Ricardo Bonacorci

Filmes: Marshall, Igualdade e Justiça - Combate ao racismo nos Estados Unidos


Durante a cerimônia do Oscar do último domingo, percebi que não tinha visto um dos filmes postulantes à estatueta de melhor canção original. O longa-metragem em questão era "Marshall - Igualdade e Justiça" (Marshall: 2017) – e sua música indicada era "Stand Up for Something". Confesso que fiquei, naquele momento, muito curioso para conhecer o filme depois de ouvir as opiniões elogiosas da crítica especializada. Segundo os comentaristas de cinema que cobriam o evento, não apenas sua música principal era/é magnífica, mas o longa-metragem como um todo era/é incrível.

Por isso, ontem à noite, arranjei um tempinho e matei à vontade de conhecer "Marshall". Se o tivesse visto antes do Oscar, na certa a minha torcida no domingo teria sido totalmente para esta produção. Achei-o fantástico. Mesmo assim, entendi a escolha da academia por "Remember Me", de "Viva - A Vida é Uma Festa" (Coco: 2016), como a canção vencedora. "Remember Me" é tão boa quanto "Stand Up for Something", porém é mais carismática e emotiva do que a música de "Marshall" (atributos essenciais na hora do júri tomar sua decisão).

Orçado em US$ 12 milhões, "Marshall - Igualdade e Justiça" foi dirigido por Reggie Hudlin, mais conhecido pelos seus trabalhos na televisão norte-americana. Ele é especialista em dirigir seriados. Seus últimos filmes no cinema tinham sido "A Serviço de Sara" (Serving Sara: 2002), "O Tigrão" (The Ladies Man: 2000) e "O Trambique do Século" (The Great White Hype: 1996), comédias que, convenhamos, não são motivos de orgulho para ninguém. Ou seja, "Marshall" foi sem dúvida nenhuma o grande feito da carreira de Hudlin como diretor (ele também é ator).

Nos papéis principais foram escalados Chadwick Boseman, de "Pantera Negra" (Black Panther: 2018) e "42 - A História de uma Lenda" (42: 2013), e Josh Gad, de "A Bela e a Fera" (Beauty And The Beast: 2017) e "Amor & Outras Drogas" (Love and Other Drugs: 2010). Completaram o elenco Kate Hudson, Sterling K. Brown, Dan Stevens e James Cromwell.

Lançado em setembro de 2017 nos cinemas dos Estados Unidos, "Marshall" ainda não entrou em cartaz no circuito comercial brasileiro. Daí o motivo por não tê-lo visto até então. Não sei o motivo da ausência desta produção das telonas por aqui. Talvez o destaque no Oscar, apesar de não ter levado nenhuma estatueta para casa, ajude a viabilizar sua inclusão em algumas salas do cinema nacional nos próximos meses. O longa-metragem, por enquanto, está disponível apenas no Google Play, no iTunes e no NOW. Eu o vi no NOW ao custo de R$ 14,90 (o aluguel digital vale por dois dias).

"Marshall - Igualdade e Justiça" é baseado em fatos reais. O filme se passa na década de 1940, quando o racismo era uma prática disseminada em grande parte da sociedade norte-americana, principalmente nos estados mais conservadores do sul do país. Vale lembrar que em muitos lugares dos Estados Unidos, naquele momento da história, as crianças negras não podiam frequentar as mesmas escolas que os estudantes brancos. No ônibus ou nos bebedouros, por exemplo, a cor da pele do indivíduo influenciava o local onde ele podia se sentar ou beber água. Essas práticas irracionais são motivo de vergonha até hoje para qualquer um que tenha o mínimo de bom senso.

Para ajudar as pessoas negras que eram vítimas de injustiças praticadas em todo o país, havia, nesta época, a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP, sua sigla em inglês). Repare que hoje em dia esse nome seria visto como politicamente incorreto. A organização sem fins lucrativos sediada em Nova York enviava bons advogados para defender gratuitamente homens e mulheres negros quando entendia que eles estavam sendo acusados injustamente pela polícia e pela comunidade local. Sem essa atuação mais firme da NAACP junto aos tribunais, muitos inocentes poderiam acabar sendo declarados culpados pelos juízes brancos e, como consequência, seriam vítimas do preconceito racial.

Para defender uma causa que estava provocando muito burburinho na imprensa da nação, a NAACP enviou, em 1941, o advogado negro Thurgood Marshall (interpretado por Chadwick Boseman) para Connecticut. O objetivo dele era inocentar Joseph Spell (Sterling K. Brown), um trabalhador negro e pobre que estava sendo acusado de atacar e estuprar uma mulher branca e rica. Eleanor Strubing (Kate Hudson), uma figura ilustre da cidade, dizia ter sido vítima de Spell. Segundo a versão da moça, o rapaz entrou em seu quarto, na ausência do marido que estava viajando a trabalho, violentou-a e depois tentou matá-la. A Sra. Strubing, por sorte, conseguiu escapar e chamou a polícia.

O episódio provocou a ira da população branca dos Estados Unidos, que passou a enxergar os negros de maneira ainda mais negativa. Thurgood Marshall deveria, assim, provar a inocência de Spell como também mostrar para o país inteiro o valor das pessoas com a sua cor de pele. Os negros eram mais vítimas de uma sociedade racista do que indivíduos violentos e imorais.

Contudo, o trabalho de Marshall acabou dificultado pela intolerância racial do promotor do caso. Por ser negro, o advogado foi proibido de defender Spell. Assim, coube ao seu assistente branco, Sam Friedman (Josh Gad), a tarefa de conduzir a defesa no tribunal. O problema é que Friedman era totalmente inexperiente em direito criminal e, ainda por cima, também era vítima de preconceito. Judeu em pleno período da Segunda Guerra Mundial, o rapaz tímido e bonachão rapidamente ganhou o desprezo de todos pelo trabalho em uma causa considerada indigna pela maioria da população da cidade.

Assim, Thurgood Marshall (esperto, malandro, corajoso, eloquente e muito ativo) e Sam Friedman (inexperiente, medroso, tímido, calado e passivo) passam a trabalhar juntos para salvar Joseph Spell da prisão perpétua. A cada dia, o caso parece mais difícil para a defesa. Tudo indica que o trabalhador negro estuprou realmente a mulher branca. A tarefa da dupla de advogados da NAACP é quase impossível.

"Marshall" é um filme espetacular. O que o faz ser tão bom, para começo de conversa, é saber que os fatos narrados são reais. Thurgood Marshall é figura conhecida em seu país por ter sido o primeiro negro a se tornar juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos. Ele também foi uma das vozes mais atuantes no combate ao racismo entre as décadas de 1950 e 1980. Seu trabalho nos tribunais superiores foi decisivo para o banimento de várias práticas vistas hoje em dia como absurdas, mas que eram até poucas décadas atrás disseminadas na rotina da sociedade norte-americana.

As enrascadas que Thurgood Marshall se mete (e consegue superar) no caso de Spell são empolgantes porque o espectador sabe que elas aconteceram de verdade. Do contrário, o trabalho do advogado em Connecticut poderia parecer inverosímel aos olhos das pessoas mais descrentes. Afinal, um homem sozinho conseguir mudar a visão de uma sociedade inteira parece uma tarefa um tanto utópica. Daí, a força desta trama!

Outros pontos positivos do longa-metragem são a caracterização da época (cenário e figurino), a boa trilha sonora, a ótima fotografia e a impecável atuação dos atores. Tanto os protagonistas quanto os coadjuvantes estão sublimes. O roteiro também foi muito bem escrito. Os diálogos são bons e são os responsáveis por conduzir a trama ao seu clímax. Há várias reviravoltas na história, o que a torna eletrizante.

E, para completar, os principais personagens são hilários. Apesar do clima de tensão e do tom de drama sério (o tema do filme é delicadíssimo), o jeito engraçado da dupla de advogados da NAACP (eles são totalmente opostos um do outro) rende boas cenas de humor. Thurgood Marshall é retratado quase como uma versão jurídica do detetive Axel Foley, personagem interpretado com maestria por Eddie Murphy no clássico "Um Tira da Pesada" (Beverly Hills Cop: 1984). Já Sam Friedman é quase um Sasá Mutema, personagem de Lima Duarte na telenovela "O Salvador da Pátria".

Irá gostar de "Marshall" quem aprecia filmes de tribunal. Neste tipo de produção, a ação se faz através dos diálogos e das discussões, algo que pode aborrecer os espectadores mais ansiosos e impacientes. Como gosto de longas-metragens deste gênero - "Doze Homens e Uma Sentença" (Welve Angry Men: 1957) é seu melhor representante até hoje -, adorei o que vi.

"Marshall" é um drama forte com boas doses de humor. Contudo, seu principal mérito está em debater o racismo embrenhado nas instituições judiciais. Como as aplicações das leis (assim como as suas promulgações) são feitas por homens e mulheres falíveis e defeituosos, a Justiça acaba sempre enviesada pelos preconceitos sociais e pelos julgamentos pessoais. Portanto, uma sociedade preconceituosa jamais conseguirá ser justa e correta, por mais que tente emular esses ideais. Entendido isso, será mesmo que a Justiça do Brasil hoje em dia é muito diferente daquela praticada nos Estados Unidos durante a década de 1940?! Confesso que terminei o filme com essa ingrata dúvida...

Veja o trailer de "Marshall - Igualdade e Justiça":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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