• Ricardo Bonacorci

Contos: Paranoias Modernas - Culatra


Já era começo de manhã quando ela regressou à sua casa depois de mais um longo expediente. A claridade do sol ainda não havia chegado àquela residência triste, afastada de tudo e de todos. O silêncio do horário só era cortado pelos fortes ventos que teimavam em uivar no lado de fora.

Na cozinha, a mulher preparou um café preto e forte e o tomou sentada na única cadeira do cômodo. Enquanto degustava a bebida quente, pensou nos homens daquela noite. Eram de todas as idades, inclusive garotos recém-saídos da puberdade. Eles trabalhavam em um cargueiro que navegava há meses pelas águas turbulentas do oceano nada pacífico. Eram quase trinta pessoas na embarcação. Por mais que as esposas e as mães dos marujos fossem odiá-la quando soubessem o que a indigna dama tinha feito, ela precisava realizar tais tarefas. Alguém precisava...

Era por isso que ninguém gostava dela. Ela sabia o ódio que despertava. Não existia mulher no mundo mais malvista. Sempre que aparecia, fosse em público ou de maneira privada, as pessoas gritavam, xingavam e suplicavam para que ela desaparecesse imediatamente. Contudo, aquela dama não podia atender a esses pedidos. Precisava fazer seu trabalho, por mais nojento e doloroso que fosse. O que poucos imaginavam é que ela também sofria por desempenhar aquela profissão. A vida sem amigos e sem carinho genuíno era o preço que pagava diariamente por ser quem era e, principalmente, por fazer o que fazia.

Independentemente da época, da cultura e da sociedade, não havia atividade mais amaldiçoada. Por muitos, muitos anos, ela se prestava àquela incumbência com a mesma dignidade e com a mesma excelência de sempre. Jamais havia falhado, nenhuma vez sequer. Era boa naquilo, apesar da idade avançada. Provavelmente, o tempo a havia tornado ainda melhor em seu ofício. Talvez, fosse ainda mais detestada por isso. Ninguém admitia alguém tão perfeita em sua área de atuação.

Para seu alívio, aquela havia sido a última noite de trabalho. Ela recebera no mês anterior uma carta informando de sua aposentadoria. Depois de tanto tempo escrava da profissão maldita, a senhora, enfim, poderia se dedicar às outras atividades. Quem sabe não seria perdoada pela multidão que a desprezara até então. Conseguiria constituir agora uma família? Poderia ter uma vida normal e respeitada? Iria adquirir um hobby ou passaria a viajar a lazer pelos quatro cantos do mundo? Sonhava com isso mais do que tudo.

As semanas passaram rapidamente e, enfim, o último dia de serviço tinha sido concluído com êxito. A mulher, sentada na pacata cozinha, já não pensava mais nos homens daquela noite. Sua mente agora viajava para bem longe. Ela traçava os planos para sua nova vida quando alguém bateu em sua porta. Ela não se deu ao trabalho de ver quem era. Na verdade, nem acreditou que alguém pudesse visitá-la. Talvez fosse a ventania a responsável pelo impacto na madeira, pensou. Somente quando o barulho se repetiu pela terceira vez, a senhora resolveu ver quem era. Para sua surpresa, era uma visita. Uma visita! Jamais alguém havia feito isso nesses anos todos.

Na entrada da escura casa havia uma jovem vestida de preto. Mesmo usando um casaco longo com capuz, era possível notar seu cabelo curto e negro. Seu rosto muito branco era bonito e transmitia um ar de ingenuidade. O que mais chamou a atenção da senhora foi a maquiagem pesada e sombria da moça. Pela aparência geral, ela devia ser uma roqueira maluca e destrambelhada dessas que são vistas atiradas nas sarjetas das ruas das grandes cidades aos finais de semana.

Sem entender muito bem o que estava acontecendo, a moradora viu sua visitante entrar na casa de forma autoritária. Após tirar os óculos escuros e colocar o comprido casaco em um suporte de roupas, a moça revelou estar armada. Um revólver de baixo calibre estava pendurado em sua cintura. Uma enorme tatuagem era visível em um dos braços.

A jovem, que tinha um corpo esguio, demonstrava certa impaciência e pressa. Assim, comunicou secamente:

- Vim buscá-la!

A senhora ficou indignada, derrubando a xícara de café que a acompanhava. Como assim?! Aquela jovem não podia fazer aquilo com ela. Primeiro porque aquele trabalho era originalmente dela. Como alguém tão jovem e desqualificada poderia ter a audácia de querer substituí-la? Além do mais, a visitante vestia um traje muito moderno e possuía um comportamento totalmente incompatível com a função. Onde já se viu renegar a boa foice e optar por uma arma de fogo? Para que os óculos escuros se o capuz negro já era suficiente para encobrir o rosto pálido?

A repulsa da senhora só aumentou quando refletiu sobre a injustiça daquela decisão. Exatamente agora que ela tinha se aposentado, vinha alguém para levá-la embora. Havia algo de muito errado ali. Não era possível!

A senhora gritou, xingou e esperneou. Suplicou por piedade. Tudo em vão. A novata não quis saber: permaneceu em silêncio, só aguardando que a antecessora se acalmasse e assimilasse a notícia. A moça, apesar de nova no posto, sabia que todos teriam aquela reação quando ela viesse efetuar o serviço.

Passada a tensão inicial, a senhora compreendeu que não adiantava lutar contra o inevitável. A decisão já tinha sido tomada e precisava ser cumprida. Assim, a novata pôde executar seu ofício com excelência, iniciando à altura a substituição da dama da escuridão.

Há coisas nessa vida das quais ninguém escapa. Ninguém!

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Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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