• Ricardo Bonacorci

Livros: Terminália – O romance de estreia de Roberto Taddei


Terminália é o nome de um festival da Roma antiga que cultuava o deus Término, divindade responsável pela proteção das intermináveis fronteiras daquele que foi o mais extenso império da antiguidade. Este foi também o mote usado por Roberto Taddei para nomear sua obra de estreia na ficção. “Terminália” (Prumo) é o primeiro romance deste paulistano que, além de poeta e prosador, é um dos principais nomes de sua geração quando o assunto é teoria literária. A história do livro de Taddei se passa essencialmente no município do Oiapoque, região da Amazônia brasileira que faz fronteira com a Guiana Francesa. O título do romance é, portanto, uma clara associação tanto ao festival do antigo deus romano quanto aos dramas contemporâneos vividos pela população residente no limite norte do território nacional.


A trama principal de “Terminália” é protagonizada pelo major do exército brasileiro, Marcelo, e sua esposa, Elena. A conflituosa história de amor e ódio do casal é narrada simultaneamente por dois jornalistas: um paulista de meia-idade que vive há muitos anos no exterior e que visita com um grupo de estudantes brasileiros a vila de Clevelândia do Norte, próximo ao Oiapoque, no Amapá; e um jovem nativo que diz conhecer em detalhes o intrigante caso do polêmico matrimônio que virou assunto da diplomacia brasileira e francesa.


A conversa dos jornalistas se dá enquanto o barco onde a dupla está faz um passeio pelo rio Oiapoque. Ao mesmo tempo em que os narradores do romance entram na selva amazônica pelas águas do rio, nós, os leitores, mergulhamos no sinuoso drama matrimonial de Marcelo e Elena pelas páginas da publicação.

Escrito entre julho de 2008 e agosto de 2009, “Terminália” foi publicado em 2013. A obra fez parte do trabalho de conclusão de curso de Roberto Taddei no mestrado de Criação Literária realizado na Columbia University. Exatamente por isso, o romance foi escrito originalmente em inglês e, depois, foi traduzido para o português pelo próprio autor. Esse processo de produção criativa é similar ao exercitado por escritores como Haruki Murakami e Vladimir Nabokov, que primeiro escreviam em inglês e só depois transformavam seu texto para o idioma natal. Nascido em 1975, na capital paulista, Roberto Taddei é jornalista, professor de literatura e de escrita criativa, tradutor e coordenador do curso de pós-graduação em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz.


“Terminália” foi concebido a partir de uma viagem do autor pela região amazônica onde a trama se passa. Não é à toa que um dos narradores da história é um jornalista brasileiro que vivia há muitos anos nos Estados Unidos (uma espécie de alter ego de Taddei). Segundo o escritor paulistano, seu romance nasceu a partir de um conto em que ele narrava de maneira criativa a experiência daquela jornada. À medida que a história ganhava em extensão e riqueza, Taddei percebeu a mudança de gênero narrativo. “Terminália” possui 160 páginas, podendo ser classificado como um pequeno romance. Eu li a obra inteira em um único dia (em minha mais recente viagem de ônibus para Minas Gerais). Ao chegar ao destino, só faltava a leitura do epílogo (feita à noite, no conforto do hotel).


A história do livro é basicamente a conversa dos dois jornalistas sobre o casamento do major Marcelo, responsável por um batalhão do Exército na fronteira amapaense, e sua esposa, uma mulher que desejava viver nos grandes centros urbanos e odiava o isolamento da floresta equatorial. O entrevero conjugal provocou centenas de comentários entre os habitantes da vila de Clevelândia e chegou a virar tema diplomático, tratado pelos presidentes do Brasil e da França (país que comanda a Guiana Francesa).

A curiosidade do jornalista visitante, que pretendia entender aquela região do país a partir dos conflitos pessoais dos protagonistas da história ouvida, e o interesse do jornalista local, que queria contar a qualquer custo aquela trama que o rondava incessantemente há tanto tempo, confluem para a felicidade do bisbilhoteiro leitor, ávido por mais e mais detalhes.


“Terminália” é um livro realmente peculiar. O leitor é atraído para dentro desse romance com intensidade. A sensação é que a publicação puxe o leitor para suas páginas. Assim, a curiosidade dos narradores da obra é compartilhada por quem a lê. Esse recurso narrativo confere veracidade à história. Além de atiçar algo que os leitores entendem bem em seu cotidiano, a curiosidade para saber mais sobre a vida de alguém (atire a primeira pedra quem nunca fofocou ou ficou ouvindo a fofoca alheia!), Taddei é primoroso quanto ao trabalho do foco narrativo. O romance é muitíssimo bem construído, não deixando nenhuma pedra solta no meio do caminho.


Outro ponto que gostei deste livro foi da escolha temática. Abordar uma região muitas vezes esquecida do país, a fronteira norte do Brasil, se mostrou acertada. A cultura, a história, a realidade e os problemas locais são interessantes e merecem ser mais abordados na literatura brasileira contemporânea.

As personagens de Roberto Taddei também são bem construídas. Tanto os protagonistas da história quanto seus narradores apresentam características contraditórias. Por isso, é difícil apontar, ao final da narrativa, quem estava certo ou quem estava errado. Legal notar como o escritor deixou o final do romance em aberto, jogando os julgamentos e as avaliações derradeiras no colo do leitor. Os debates sobre o jornalismo e a literatura deixam a obra ainda mais rica. Afinal de contas, o que os diferencia e o que os une? Quem pode narrar de maneira verídica uma história com mais propriedade: o jornalista ou o escritor ficcional? Ótimo debate!


No meu ponto de vista, o único elemento negativo de “Terminália” está no conteúdo da sua trama principal. A relação entre Marcelo e Elena é um tanto banal, igual a de milhares de casais por aí. Apesar de os narradores do romance ficarem muito curiosos para saber o desfecho do casamento dos protagonistas (algo estendido para os leitores), a impressão é que estamos diante de uma mera fofoca, algo que poderia ter sido extraído de uma reportagem de uma revista sensacionalista ou de uma conversa de pessoas fúteis. Nada mais do que isso.


Assim sendo, o grande mérito do romance de estreia de Roberto Taddei está muito mais na trajetória da construção ficcional feita pelo autor (em relação à narrativa, “Terminália” é um livro impecável) do que pela temática de sua obra (de certa forma, fraquinha). Este é um ótimo exemplo de como a técnica apurada se sobressai ao conteúdo narrado. É a famosa analogia: a viagem é muito mais interessante do que o local visitado.

Quer ler “Terminália”? O que posso dizer é que se trata de uma ótima escolha. Aperte os cintos e faça uma viagem por uma literatura requintada e muito bem construída. Roberto Taddei domina a teoria e o processo da escrita criativa (literária) como poucos. É muito bom ver alguém com tanto conhecimento aventurando-se (e porque não se arriscando) neste difícil ofício que é escrever ficção.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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