• Ricardo Bonacorci

Livros: Resta Um - O romance de estreia de Isabela Noronha


No último Carnaval, li "Resta Um" (Companhia das Letras), o romance de estreia de Isabela Noronha na ficção adulta. Antes dessa obra, a escritora mineira radicada há anos em São Paulo só tinha publicado um livro infantil, "Adeus é para Super-Heróis" (Edições SM), vencedor do Prêmio Barco a Vapor em 2013. Nesse seu novo trabalho, Isabela construiu um thriller angustiante sobre uma mulher obcecada por encontrar sua filha desaparecida. Depois de muitos anos do sumiço da criança, a protagonista continua acreditando que achará a menina. A trama é multifacetada abordando simultaneamente as diferentes fases da vida da personagem principal. Esse recurso narrativo potencializa o suspense da história e o seu drama.


Publicado em 2015, "Resta Um" ganhou o Curtis Brown Prize, na Inglaterra, e foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2016, uma das mais badaladas premiações literárias do país. O livro concorreu na categoria de melhor autor estreante jovem (com menos de 40 anos). Nada mal para uma obra de estreia, hein?


Eu conheci Isabela Noronha nas oficinas literárias do curso de pós-graduação de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz. Ela era minha professora. Nascida em Belo Horizonte, Isabela Noronha é jornalista e mestre em criação literária pela Universidade Brunel, em Londres. Atualmente, além de escritora, ela também é professora em oficinas literárias e de escrita criativa. Assim, posso garantir na prática que além de ótima escritora, Isabela também é uma excelente professora.

"Resta Um" nasceu a partir de uma reportagem que a escritora mineira, então jornalista, fez há mais de dez anos para o jornal O Estado de São Paulo. As entrevistas com as várias mães que tiveram filhos desaparecidos marcaram muito Isabela. Ao terminar sua matéria, ela diz ter chorado pela tristeza daquelas mães. Quando chegou em casa naquele dia, ela colocou para fora o turbilhão emocional que estava segurando. Pela primeira e única vez na carreira, a jornalista sucumbia à tragédia do que apresentava aos leitores.


Alguns anos depois de publicar a reportagem, mas com as lembranças das agonias daquelas mães ainda vivas em sua memória, Isabela Noronha iniciou a produção de um conto com essa temática. Assim, aproveitou algo real para embarcar em uma trama ficcional. Entretanto, só quando realizou seu curso de Escrita Criativa em Londres, a escritora mineira transformou sua narrativa curta em um romance. O livro demorou cerca de três anos para ser concluído. O tempo de maturação e o processo de construção da narrativa valeram a pena.


Nesse romance, temos o relato em primeira pessoa de Lúcia, uma professora de matemática na faixa dos trinta anos. Ela tem uma carreira promissora na Universidade de São Paulo e uma família aparentemente feliz. Obcecada pelo trabalho, a protagonista é casada e possui uma filha pequena, Amélia. A vida de Lúcia vira do avesso quando certa noite Amélia não retorna para casa após ir a uma festinha de uma colega de escola. A menina desapareceu! Inicia-se, assim, a procura pela garota. Marido e mulher passam a viver em função da busca interminável pelo paradeiro de Lúcia.

O que deixa "Resta Um" mais atraente é que sua história é contada por Lúcia em dois momentos diferentes. O primeiro capítulo do livro, por exemplo, se passa em fevereiro de 2011, quando a menina já está desaparecida há seis anos e meio. O segundo capítulo, por sua vez, é narrado em setembro de 2004, na noite do sumiço de Amélia. O romance segue a partir desses dois pontos (logo após o desaparecimento e muitos anos depois da trágica noite daquela família), alternando sistematicamente a ordem da narrativa. Com esse distanciamento temporal, o leitor pode acompanhar com mais força as transformações da fatalidade na vida da narradora. Como não poderia ser diferente, Lúcia é uma mulher em 2004 e outra completamente distinta em 2011.


Além da narração dessas duas fases da vida da narradora-protagonista, há alguns capítulos em que o leitor não sabe quando a história se passa. A datação é meramente semanal ("Domingo", "Segunda-feira", "Quarta-feira"....). Também contada em primeira pessoa por uma mulher misteriosa, solitária e meio amalucada, essa nova parte da trama insere mais elementos ao drama e ao suspense do romance. Afinal, quem é essa nova personagem que surge em alguns capítulos e por que ela age de maneira tão transtornada?!


Parece óbvio que a descoberta desse enigma é o que elucidará o drama de Lúcia. Porém, mesmo assim, o desfecho do livro de Isabela Noronha é surpreendente. Eu passei longe de desvendar o mistério. Prepare-se para ser jogado(a) com violência contra a parede pela autora. Não espere um final fechado, lógico e tranquilo. A agonia das personagens e, por que não, do leitor tende a prosseguir mesmo após a conclusão da leitura. Simplesmente incrível!

"Resta Um" é um livro para leitores fortes. Seu clima de tensão e o suspense da história permeiam todas as 304 páginas da obra. Temos aqui uma trama de mistério com um tom pesado. Em muitos momentos, os leitores e as personagens são levados à fadiga emocional. É um terror psicológico ao extremo. Esse é o principal mérito desse romance. A agonia da protagonista extrapola as páginas do romance e chega a quem está acompanhando os dramas do livro. É impossível não se emocionar com o relato de uma mulher desesperada por respostas sobre a filha desaparecida.


Também gostei muito da maneira como Isabela Noronha construiu suas personagens. As complexidades de Lúcia e do marido vão além do estereótipo do casal perfeito abatido por um "acidente doméstico". Não! Lúcia possui muitos defeitos e seu marido também. A própria Amélia não é uma garotinha calma e inocente, o que só aumenta o ar de mistério da história.


Admito ter ficado positivamente impressionado com essa leitura. Se no começo pensei que iria ler mais uma trama de suspense ao estilo de Harlan Coben, ao final de "Resta Um" estava com o queixo caído pela força dramática desse texto de Isabela Noronha. Como é bom conhecer uma obra rica, inteligente, profunda e muito bem construída. Não é à toa que esse romance foi premiado nacional e internacionalmente. Se essa é a obra de estreia de Isabela na ficção adulta, eu fico desde já imaginando o que a escritora mineira nos apresentará daqui para frente, hein? Que venham mais romances como este, por favor!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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