• Ricardo Bonacorci

Contos: Paranoias Modernas - O Estagiário


Augusto chegou ao imponente prédio. Era uma segunda-feira e ele estava vestido de terno e gravata. Era seu primeiro dia no estágio. Depois de ter estudado na melhor escola e na mais renomada universidade do país, chegava, enfim, o momento de colocar tudo o que havia aprendido em prática.

O rapaz estava, ao mesmo tempo, nervoso e confiante. Sabia que poderia realizar um bom trabalho naquele conceituado banco. Sua ansiedade era tanta que chegou mais de duas horas antes do previsto. A reunião com a moça do RH estava marcada para as nove horas, mas ele ultrapassou a porta principal do edifício antes das sete.

Naquele horário da manhã, apenas o pessoal da faxina e da segurança estava trabalhando. O clima era animado, com muitas risadas. Sentado no confortável sofá de couro da recepção, Augusto podia sentir a alegria daqueles funcionários. Todos demonstravam muito prazer em realizar suas funções. Dedicavam-se como se suas atividades fossem as mais importantes do mundo. O novato sentiu orgulho por fazer parte daquela companhia. Que bom que fora aprovado no rigoroso processo seletivo.

A equipe da limpeza, ao notar o jovem, veio conversar com ele. Estavam curiosos para saber quem era aquele engravatado que chegara tão cedo. Quando souberam que se tratava do novo estagiário de Crédito e Cobrança, felicitaram o recém-contratado. Comentaram que aquele cargo devia ser importante, afinal, todos que usavam terno e gravata eram funcionários gabaritados.

Como aquele era o primeiro dia do rapaz, os faxineiros o levaram para conhecer o prédio. Os seguranças também o felicitaram pela conquista do emprego e autorizaram sua entrada como se ele fosse um velho conhecido. Inicialmente, foram à cozinha. Lá, serviram-lhe café. Enquanto apreciava a bebida, Augusto conheceu boa parte dos funcionários da limpeza: Dona Sueli, Cidinha, Rapunzel, Cleide Maria, Seu Jorge, Marlene, Idílio e Adamastor. Todos eram trabalhadores de uma empresa terceirizada.

O estagiário passou pelo menos quarenta minutos proseando. Os faxineiros se revessavam na conversa, pois não podiam ficar muito tempo longe do serviço. Havia muita coisa a ser feita. Para encerrar o tour pelas dependências do banco, deram depois uma passada rápida por alguns andares do edifício. Nesse passeio informal, apresentaram ao novato do Crédito e Cobrança alguns setores da empresa.

Quando Augusto retornou à recepção, ainda não eram oito horas. Naquele instante, começaram a chegar os diretores e os gerentes da instituição. O jovem reparou que eram homens do alto comando (não havia uma mulher entre eles) pelo traje impecável e pelo tipo de carro que estacionaram nas vagas exclusivas. O estagiário foi ignorado por todos. Ninguém disse um “bom dia” ou perguntou o que ele estava fazendo ali tão cedo. Todos adentraram ao prédio com cara amarrada e com passos acelerados. Alguns discutiam ao celular. Definitivamente, não pareciam muito felizes. O final de semana desta gente deveria ter sido bem triste para a segunda-feira começar daquela maneira, pensou.

Pouco antes das nove, chegou a cavalaria. Os demais funcionários desembarcaram na porta do prédio quase que simultaneamente. As conversas e as risadas voltaram com alguma timidez. O estagiário recebeu dois ou três tímidos cumprimentos. Ele retribuiu a gentileza, enquanto a multidão ruidosa se dirigia ao ponto eletrônico.

Somente as nove e vinte, uma loira de olhos azuis, linda, veio lhe perguntar quem ele era. Quando disse que veio para a reunião com a Vanessa do RH e que era o novo estagiário, a moça pareceu ficar mais calma. Ela era a recepcionista do edifício e havia chegado atrasada naquele dia. Depois de alguns telefonemas internos, ela o mandou subir ao quinto andar.

Augusto já conhecia mais ou menos aquele lugar. Fora naquele piso que tinha feito as entrevistas com a supervisora, com o gerente e com o diretor de Crédito e Cobrança. De certa forma, reconhecia de vista a maioria dos funcionários, por mais que ninguém soubesse quem ele era.

Ao se identificar, pediram-lhe para aguardar em uma sala de reunião. A sala era envidraçada, sendo possível ver o que acontecia no lado de fora. Enquanto esperava pela tal da Vanessa, o novato pôde notar um pouco o dia a dia daqueles que seriam seus colegas. Todos pareciam tensos. Não se via nenhum sorriso nos rostos daquela multidão nem satisfação em seus olhares. Ninguém parecia se divertir com o trabalho realizado. Poucos ousavam olhar para o lado e interagir com os colegas. Augusto duvidou que houvesse alguém feliz ali. Como alguém podia trabalhar em algo que não conferisse prazer?!

As coisas só pioraram quando o diretor saiu da ampla sala que ficava aos fundos. Com alguns papéis na mão, ele gritava enfurecidamente, enquanto gesticulava freneticamente. "Incompetentes", "vagabundos" e "relapsos" foram alguns dos termos que o novato conseguiu captar. Quando o chefão retornou à sua sala, foi à vez dos gerentes repetirem a cena. Ou aquela era a pior equipe do mundo ou as coisas estavam indo muito mal. Engraçado isso, refletiu. Pelas notícias recentes do jornal, o banco apresentara, no último trimestre, um lucro recorde.

Enquanto questionava consigo mesmo essa incongruência, o estagiário ouviu um assobio. Depois de muito esticar o pescoço, percebeu que o som vinha do banheiro. Era Adamastor cantarolando um sambinha alegre. O rapaz foi até lá para ver melhor a cena. Notou que o faxineiro estava lavando um vaso sanitário. A animação dele era contagiante.

Um ser extraterrestre que chegasse à Terra naquele instante não iria acreditar que aquele empregado era o funcionário de menor salário e que desempenhava o trabalho mais pesado. Como alguém podia se divertir tanto lavando uma privada tão encardida em uma segunda-feira de manhã?

Assim que o estagiário retornou à sala de reunião, Vanessa chegou. Sem perder tempo, ela colocou alguns papéis sobre a mesa.

- Seu primeiro dia, hein? Qual o seu nome?

Assim que ouviu a resposta, a moça disse um protocolar “Seja bem-vindo” e um autoritário “Você começa agora mesmo”.

Augusto balançou a cabeça em tom afirmativo. Estava preparado para iniciar.

- Vou acompanhá-lo agora ao seu posto de trabalho. Qual é mesmo a função que você irá exercer? – quis saber a moça que parecia perdida no meio de tanta papelada.

Neste momento, um pensamento passou pela cabeça de Augusto. Ele havia estudado muito e por bastante tempo para se sujeitar a certas coisas que não concordava. Queria ser bem-sucedido e, apesar de muito jovem, já sabia bem o que fazer para alcançar seus planos. Sonhava com uma vida profissional próspera. Para tal, precisava atuar em algo nobre, útil e ao mesmo tempo prazeroso. Não aceitaria ser apenas mais um naquele banco gigantesco ou fazer algo que não fosse realmente importante para sua carreira e para seu empregador.

- Faxineiro - respondeu com toda a convicção do mundo.

Augusto trabalhou por dois anos e meio naquele banco. Nunca foi tão feliz e jamais aprendeu tanto como naquele período. Ainda bem que ele soube se inspirar nas pessoas certas.

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Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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