• Ricardo Bonacorci

Contos: Paranoias Modernas - Princípios


- Eu mesma vou cuidar disso. Não se preocupe, querido – A esposa tentava não demonstrar a alegria que sentia com a notícia que acabava de receber.

- Tem certeza?

- Claro. Acho até que será bom. Poderei me aproximar mais dele. Às vezes, sinto que ele é mais seu filho do que meu.

- E será só por uma semaninha. Volto logo – Ele deu um beijo carinhoso na boca dela como se pedisse desculpas pelo imprevisto que os separaria.

O marido era o responsável por levar e buscar, todos os dias, o filho na escola. Sempre fora assim, desde que o pequeno Michel fora matriculado no colégio particular mais renomado da cidade. A rotina do leva-e-traz era exercida com assiduidade pelo pai. Ele gostava de não apenas tomar as principais decisões a respeito da educação do filho como também fazia questão de acompanhar de perto todos os passos do garoto na escola. Não havia nada mais importante do que o estudo, vivia repetindo para quem estivesse por perto.

A mãe de Michelzinho admirava o empenho do marido. Era ele também quem frequentava as reuniões escolares, fazia a lição de casa com o filho e se encarregava de trocar bilhetes com os professores. Mesmo sendo um dos maiores empreiteiros do país, o pai sempre encontrava tempo em sua agenda para ficar com a criança. Além de achar nobre a postura do marido, a esposa achava cômoda aquela situação. Afinal, ela podia passar mais tempo no shopping fazendo compras, na academia esculpindo seu corpo atlético, nas visitas animadas às casas das amigas e em encontros sociais que rendiam ótimas fotos na coluna social.

Contudo, naquele sábado, o marido avisou que precisava viajar às pressas para o exterior. Eram probleminhas nos negócios, disse com as mãos molhadas e o olhar distante. Depois de muitos anos, ele ficaria, pela primeira vez, longe da família por tanto tempo. Sua ausência seria de exatos oito dias. Caberia, então, à mulher a responsabilidade de cuidar da rotina escolar do filho. A expectativa por realizar uma atividade tão nobre a deixava excitada.

- Boa viagem, amor – Ela retribuiu o beijo colocando as mãos na nuca dele. Os lábios do casal ficaram grudados como há muito não se via.

O final de semana ganhou um colorido especial para ela. Quem iria supor que a ausência do marido iria deixá-la tão empolgada. Já pensando na semana seguinte, a mãe cancelou as aulas particulares de tênis no clube e dispensou o motorista da família para os próximos dias. Ela mesma queria vivenciar a tarefa de levar e de buscar o garoto na escola por toda a semana.

No primeiro dia, uma segunda-feira, Michelzinho entrou no carro, na volta para casa, muito feliz. Ele deu um beijo barulhento e um abraço apertado na mãe. Deve ser por causa disso que o pai faz questão de buscá-lo, pensou ela. Com o clima animado durante o caminho de volta ao lar, a motorista perguntou como fora o dia do filho. Ele automaticamente fechou a cara, como se aquele fosse um assunto proibido no carro. A mãe insistiu e o menino, um pouco tímido, começou a narrar alguns acontecimentos banais. No final do relato, porém, ele perguntou:

- Mamãe, o dinheiro que o papai ganha é sujo?

Ela se surpreendeu com aquele questionamento descabido.

- Claro que sim, meu amor. Todo dinheiro é sujo. Por isso, sempre falo para você lavar bem as mãos depois de mexer nas cédulas. Mas por que você está me perguntando isso?

- É porque os meninos do colégio vivem dizendo que o dinheiro do papai é sujo.

- Todo dinheiro do mundo é sujo, meu filho. Todo!

No dia seguinte, novamente a mãe-motorista abriu a porta do carro blindado e o menino pulou dentro. Outra vez, ele estava feliz com o fato de a mãe ter ido buscá-lo e não ter enviado alguém para fazer aquilo, como imaginou que ocorreria. Após o beijo e o abraço, ela perguntou como foram as aulas da terça-feira.

- Foi tudo bem - depois de um minuto de silêncio, o garoto continuou - Mamãe, tenho uma dúvida: será que dá para deixar o dinheiro limpinho?

- Como assim?

- Se lavarmos bem, será que ele deixa de ser sujo?

- Que ideia é essa agora, menino?

- Os garotos lá na escola falaram que o papai lava dinheiro. Será que é para as notas ficarem limpinhas? Com isso, ele não precisa ter que lavar a mão toda vez que se senta à mesa com a gente.

- Pode ser, meu filho - a mãe falou enquanto pensava - Reparei mesmo que seu pai não tem lavado as mãos quando vai comer. Ele é um homem muito esperto, né?

- É sim, mamãe!

Na quarta-feira, a mãe não precisou perguntar nada. O filho já entrou no carro falando sem parar. Ele parecia estar gostando de conversar com ela sobre a escola.

- Hoje, os meninos falaram que o papai lavou as mãos do governador e do ministro. Parece que a empresa do papai construiu uma obra grande. Você está sabendo disso?

- Não sei de nada, mas isso pode ser verdade, meu amor. Você conhece as manias de higiene do seu pai. No mínimo, o governador e o ministro não quiseram lavar as mãos depois de visitar uma das obras da empreiteira, que é normalmente um lugar com muita poeira. Aí, seu pai foi obrigado a jogar água nas mãos deles.

- Como é bom conversar com você, mamãe. Você me explica tudo de uma maneira tão fácil de entender. Do jeito que meus amiguinhos falam, parece que o papai é um homem mau.

- Imagine só! Seu papai é a pessoa mais doce e correta deste mundo. Eu me apaixonei por ele logo que o vi.

Na quinta-feira, a dúvida do garoto era outra:

- Mamãe, porque a camisa do papai é sempre branca?

- Porque ele é um homem que deseja passar uma boa impressão aos outros. A camisa branca deixa a pessoa com uma imagem mais conservadora e formal. Como ele é um empresário, precisa estar sempre muito bem vestido.

- Por que, então, os garotos falaram que o papai fez algo com o colarinho branco? Não entendi direito.

- Seu pai faz tudo com o colarinho, com a manga e com a camisa toda branca. Ele é um homem de estilo!

- O que são laranjas? – Michel quis saber na sexta-feira.

- Laranja é um tipo de fruta. Que pergunta mais estranha! Você toma suco de laranja todo dia de manhã. E laranja é também uma cor. Como você não sabe isso?

- Meus coleguinhas falaram que o meu pai só não está preso porque ele tem muitos laranjas. Acho que foi mais ou menos isso o que eles falaram.

- A laranja, meu amor, é uma importante fonte de vitamina C. Talvez ela faça bem para a prisão de ventre. Acho que os meninos falaram que seu pai não sofre deste problema porque toma suco de laranja no café da manhã.

No sábado de manhã, a mãe precisou levar Michelzinho em um campeonato de futebol de salão na escola. Dessa vez, ela não apenas levou o filho ao colégio como o acompanhou. Queria assistir ao jogo para contar depois para o marido todos os detalhes da partida. Ao chegar à parte das quadras, ela recebeu uma sonora vaia e vários xingamentos dos presentes. A manifestação parecia partir dos alunos e dos pais. A princípio, nenhum funcionário do colégio a hostilizou.

- Não é para você ficar assustada, mamãe. Essa deve ser a torcida do time adversário. Futebol é assim mesmo. Eu sou jogador e estou acostumado com isso.

O jogo foi bem disputado. Ao final, a mãe não soube determinar quem tinha vencido a disputa. Ela não conseguiu prestar muita atenção no que acontecia em quadra. Tudo porque ela tentava compreender o motivo dos jogadores do time do seu filho terem uma numeração na camisa que ia de 1 a 10. E só o Michel usava o número 171 nas costas.

- Esse é meu apelido, mamãe - explicou o garoto já no carro, no retorno à casa.

Naquela noite, a mãe não conseguiu dormir nada. As preocupações rondavam sua mente. Ela precisava conversar seriamente com o marido assim que ele chegasse. Ele regressaria à cidade durante a madrugada daquele domingo.

Ela o esperou na sala da mansão. Assim que ele adentrou a residência, lá estava ela de pé e com os braços cruzados demonstrando sua raiva.

- Oi, querida. Está tudo bem? O que faz você acordada às quatro horas da manhã com essas olheiras no rosto?

- Eu não consegui pegar no sono a noite toda. Precisava falar com você urgentemente. Do jeito que está não dá mais! Precisamos tomar uma atitude drástica. A partir de agora....

Ela começou a chorar e sua voz enfraqueceu, não conseguindo concluir a frase. Depois de respirar fundo e tomar fôlego, ela ganhou a coragem necessária para falar o que tinha pensado nas últimas horas.

- Precisamos mudar o Michelzinho de escola - sentenciou com a convicção de uma mãe zelosa.

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Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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