• Ricardo Bonacorci

Contos: Paranoias Modernas - O Pior Inimigo do Feminismo


- Mande-o entrar! - ordenou Janete ao secretário.

Atrás da mesa ampla e entulhada de papéis, a presidente da companhia maltratava as teclas inocentes do seu notebook. A força com que digitava a resposta de um e-mail parecia franzir ainda mais sua testa. As olheiras da mulher tinham outra causa: a última noite passada em claro trabalhando naquele escritório.

- Antes, feche as persianas da sala. Quero privacidade total durante esta reunião - ela falava alto, quase gritando. Em nenhum momento Janete tirou os olhos da tela nem os dedos frenéticos do teclado. Ela queria terminar a mensagem antes de se concentrar na próxima tarefa que a aguardava - Não quero ser incomodada por nada e por ninguém. Não transfira nenhuma ligação para mim e não deixe ninguém entrar aqui nos próximos dez minutos. Entendeu, Stefano?!

- Sim, senhora.

O rapaz de cerca de vinte e cinco anos não estranhava mais o jeito autoritário e um tanto rude da chefe. Somente nos dois primeiros meses de expediente, a braveza e a distribuição indiscriminada de broncas o assustaram. Agora, as ofensas e os xingamentos dela tornaram-se parte natural de sua rotina. Mais familiarizado com o dia a dia do escritório, Stefano até notara um padrão de comportamento em Janete. Quanto maior o cargo hierárquico do sujeito com quem ela interagia, fosse ele um funcionário da empresa, um fornecedor ou mesmo um cliente, mais ríspida ela parecia ser. Era berrando, brigando, intimidando, ameaçando, blefando e, se preciso, até batendo em alguém que ela comandava a empresa com mãos-de-ferro.

O que mais angustiava Stefano, algo que ele jamais se habituaria, era o aparente prazer dela em ser desagradável com todos a sua volta. Ninguém escapava das grosserias daquela mulher. Por mais que o secretário fosse solícito e preciso em suas atividades, muitos insultos também sobravam gratuitamente para ele. "Fazer o quê?", pensava o rapaz. "Ela é a presidente da empresa e eu preciso deste emprego", conformava-se à noite quando ia se deitar em sua cama, em uma pequena casa na periferia da cidade.

A personalidade forte de Janete, por outro lado, trazia algumas vantagens para ela e para sua organização. Stefano sabia disso. E todo mundo, no fundo, precisava reconhecer o lado positivo desse fato. O secretário jamais conhecera uma mulher tão destemida como aquela. Dona Bellona, como todos seus subordinados a chamavam, havia construído aquela companhia do zero. Ela não havia, portanto, herdado a empresa da família nem assumido seu comando depois do progresso. Não! Ela havia erguido tudo sozinha, tijolo por tijolo do seu pequeno império empresarial. Ao longo das últimas duas décadas, seu ardo trabalho fora o responsável por criar uma das líderes do mercado nacional de autopeças. Em um setor marcado pelo machismo histórico e pelo predomínio de lideranças masculinas, quem dava as cartas agora era uma mulher durona. Não dava para não a admirar.

- Mandou me chamar, Dona Bellona?

- Sim, Pacheco. Feche a porta e sente-se aqui - A presidente apontou em tom impositivo para a cadeira à sua frente. - Precisamos conversar – Aparentemente, ela havia enviado o e-mail e já podia olhar seu interlocutor nos olhos.

Antes de entrar sozinho na sala, o diretor de logística fez um aceno de cabeça para Stefano, como quem agradece por ter compartilhado os últimos instantes de vida. A porta, então, foi fechada pelo secretário, deixando a pobre ovelhinha pronta para ser abatida pelo lobo mau.

Pacheco sabia o motivo de sua convocação. O principal cliente da empresa estava insatisfeito. Na última semana, duas entregas chegaram atrasadas ao destino. Com isso, a montadora teve de paralisar sua produção por algumas horas, o que causou um prejuízo milionário na cadeia produtiva.

- Gostaria de explicar à senhora que os atrasos foram provocados pelos bloqueios nas estradas - Ele não esperou que ela falasse. Achou melhor já apresentar suas justificativas - Os jornais noticiaram a greve dos caminhoneiros. Eles fecharam os principais acessos...

- Cale a boca! Não o chamei aqui para ouvir suas desculpas.

Janete não admitia qualquer tipo de erro, ainda mais aquele que resultava na depreciação da imagem da sua marca. Além disso, quando ela chamava alguém à sua sala para conversar, isso não indicava que ela queria ouvir a outra parte. Ela simplesmente queria falar. Este era o tipo de diálogo que estava acostumada: ela falava e o outro ouvia. Ela mandava e todos tinham de obedecer cegamente. Essas eram as regras tácitas naquela organização que ninguém em sã consciência ousava desobedecer.

- Achei melhor explicar, porque alguém que não soubesse da greve nas estradas poderia pensar que foi um erro nosso...

- Já mandei calar a boca! - Ela gritou dando um tapa na mesa. Nada a tirava mais do sério do que ser contrariada - Além de incompetente é surdo agora?! Estou cansada dos seus erros. Vou, então, direto ao ponto, Pacheco. Você está demitido.

- Não é justo... Não fui o culpado pelo atraso nas entregas das peças.

- Não quero saber. Você está demitido. Agora pode ir embora. Não quero vê-lo nunca mais na minha frente. Entendeu bem?!

O diretor ficou desesperado. Ele implorou por uma segunda chance à patroa. Apelou para o fato de ter três filhos pequenos em casa. Como faria para sustentá-los? Com a grave crise que o país estava atravessando, na certa demoraria muito tempo para conseguir uma nova ocupação. Como faria para pagar suas contas? Ele também argumentou que já havia feito muito pela empresa naqueles três anos em que estava ali. Hoje, o sistema logístico da organização era invejado por todas as companhias do setor.

- Então, vá trabalhar em um dos nossos concorrentes. Se eles gostam tanto do seu trabalho, você rapidamente conseguirá uma nova ocupação. Agora, saia da minha sala porque não tenho tempo para ficar perdendo com pessoas desempregadas.

Pacheco insistiu. Chegou a chorar. Não era a primeira vez que Janete via um marmanjo derramar lágrimas na sua frente. Enquanto diziam que a mulher era o sexo frágil, os homens daquela companhia expunham sem pudor toda sua fragilidade emocional. Janete jamais havia se humilhado daquela maneira. Ela sempre soube agir friamente. Sua força podia ser comparada a de uma rocha. Por isso, sentia-se mais preparada para encarar as adversidades do que qualquer um dos incompetentes que a rodeavam. Em compensação, tinha que aturar cenas lamentáveis protagonizadas pelos subordinados.

Ciente que não tinha mais como rever a decisão da presidente, Pacheco se levantou. Enquanto caminhava para a saída da sala, ele ouviu um grito:

- Aaaaaaaaaah! Uma barata! Socorro. Aaaaaaaaaah! Uma barata está me atacando. Pelo amor de Deus, socorro!!!

Era Janete berrando em cima de sua mesa. O inseto invadira o recinto indevidamente e andava à vontade pelo chão da sala. Janete tinha um pavor danado por este tipo de bicho. Ela podia encarar os maiores desafios do mundo empresarial, mas não tinha qualquer controle sobre sua fobia por baratas. Ela gritou desesperadamente. Clamava pela presença do secretário. Stefano, contudo, não apareceu na sala.

- Pelo amor de Deus, Pacheco, me ajude. O monstro foi por ali - vendo que não teria o socorro do fiel secretário, a proprietária da empresa recorreu à única pessoa diante de si - Você precisa detê-lo. Você precisa matá-lo. Salve-me, por favor!

O diretor ficou estupefato. Como assim uma mulher como aquela tinha medo de um inseto minúsculo? Ele não acreditava no que seus olhos estavam vendo. Era como presenciar um elefante fugindo apavorado de um ratinho. Depois da perplexidade inicial, Pacheco passou a correr atrás da barata com o sapato na mão. Ciente de que era perseguido, o inseto fugiu bravamente, se escondendo em cada cantinho da sala.

- A barata foi por ali! - Janete, ainda em cima da mesa e com as mãos apertando suas têmporas, gritava com insistência - Pacheco, olhe lá! Ela correu para aquela direção.

O executivo com três diplomas no currículo, sendo um de MBA cursado em uma universidade de primeiro nível nos Estados Unidos, atendeu mais uma vez às ordens da chefe. Após um minuto de correria, conseguiu, enfim, matar o invasor demoníaco. Uma vez morta, a barata foi levada para fora da sala por seu assassino. Quando Pacheco saiu do ambiente em direção ao primeiro banheiro, queria jogar o inseto em um vaso sanitário, Stefano entrou.

- Por onde você andou neste tempo todo, criatura?! - reclamou Janete como se houvesse ficado semanas sozinha - Você não me ouviu gritar por você como uma louca?!

- Sim, Dona Bellona, mas a senhora havia dito que não queria ser incomodada por ninguém durante a reunião. Por isso, relutei o quanto pude para vir atendê-la.

Ela estava tão aliviada pela captura do inseto que concordou com a atitude do secretário. Depois de tomar um copo de água com açúcar, trazido pelo funcionário direto, e de se acalmar um pouco, Janete quis saber:

- Stefano, o que você acha do Pacheco?

O rapaz pareceu não se surpreender com a pergunta. De certa maneira, ele já a aguardava.

- Ele é um funcionário excelente, Dona Bellona. Um dos melhores do nosso quadro. O sistema logístico que ele implementou aqui nos últimos anos tornou-se referência no mercado de autopeças. Os concorrentes estão agora correndo para ver se conseguem algo ao menos parecido. Além disso, ele parece ser muito fiel à instituição. Nunca o vi reclamar de nada e raramente falta ou chega atrasado.

Janete refletiu. Não era a primeira vez que ouvia elogios tão acintosos ao diretor. Ele parecia ser mesmo muito competente. Os atrasos nas entregas à montadora na semana passada deveriam ter sido causados realmente pela greve nas estradas. Afinal, era o primeiro problema deste tipo em anos.

- Você pode ter razão, Stefano. Chame-o imediatamente. Quero conversar novamente com ele.

Quando Pacheco entrou pela segunda vez naquele dia na sala da presidente, o secretário sabia que aquela demissão seria reconsiderada. O jovem abriu um sorriso de satisfação. Uma injustiça a menos seria cometida no mundo.

- Agora está tudo bem, Marcinho - Stefano virou-se para o office-boy que o encarava sem compreender exatamente o que se passara ali - Pode voltar para o seu andar. Quando eu precisar novamente de você e da kriptonita, eu o chamo. E muito obrigado pela ajuda e por manter nosso segredinho.

- Não tem de que.

O office-boy, um menino extremamente magro e que ainda não tinha completado dezesseis anos, caminhou em direção ao elevador. Sua sala ficava no subsolo do prédio. Em suas mãos, ele levava um recipiente de vidro. Dentro do frasco, havia dezenas de insetos que eram cultivados com zelo. Aquele arsenal secreto era usado por Stefano apenas em casos emergenciais.

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Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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