• Ricardo Bonacorci

Teoria Literária: Análise Literária - 5 - Modelo Padrão


Quando comecei a trabalhar com pesquisa acadêmica na área da literatura, um assunto me deixou intrigado: será que existe um modelo padrão de análise literária que pudéssemos utilizar com os olhos fechados em nossos estudos científicos? Gostaria de trazer, hoje, esse assunto para as nossas discussões da coluna Teoria Literária. Quem tem acompanhado o Bonas Histórias neste ano saberá que estamos debatendo aspectos da Análise Literária.

Nos posts anteriores, foi possível notar que há vários tipos de análise literária (assunto do mês de abril). As combinações são muitas quando relacionamos a abrangência do estudo (microestrutura literária e macroestrutura literária) com o objeto de pesquisa (estudo da sintaxe narrativa, o estudo temático e o estudo retórico). Além disso, existem diferentes fundamentos e extensões da análise literária - teoria literária, crítica literária e historiografia literária, por exemplo (tema do post de junho) -, aumentando ainda mais as possibilidades de caminho que o analista literário pode seguir.

Se já não fossem poucas as alternativas até aqui, a multiplicação de correntes teóricas (formalismo russo, estruturalismo de Praga, new criticism norte-americano, fenomenologia alemã, psicologia genebresa, marxismo internacional, estruturalismo e pós-estruturalismo franceses, hermenêutica, psicanálise, neomarxismo, feminismo, entre outras tantas) eleva exponencialmente as possibilidades analíticas, quando considerada, por exemplo, apenas a teoria literária. Cada uma dessas correntes apresenta ao menos uma visão conceitual distinta sobre os sete componentes da literatura (texto, autor, mundo, leitor, estilo, história e valor), intensificando ainda mais a pluralidade conceitual (COMPAGNON, 2014: 25).

Portanto, não é surpresa nenhuma constatar, através de uma vasta pesquisa bibliográfica, que não existe um modelo de análise literária que seja majoritário, preponderante, definitivo ou até mesmo mais utilizado pelos analistas (MOISÉS, 2014, p. 11). Diante de tantas possibilidades do campo de estudo, seria estranho se houvesse um padrão fixo de estrutura conceitual que pudesse ser usado para tantos casos distintos. Um mesmo modelo não poderia ser usado por um analista literário que quisesse estudar a retórica de um texto a partir da visão psicanalítica e, ao mesmo tempo, ser utilizado por um que investigasse a estrutura narrativa segundo a concepção teórica dos estruturalistas. O mesmo modelo para ambos os casos iria prejudicar a pesquisa de um dos analistas ou, até mesmo, de ambos.

Por isso, Massaud Moisés, um dos principais analistas literários de nosso país, afirma em relação à falta de um modelo norteador a todos os estudos:

"Primeiro: entendo que não há, nem pode haver, modelos fixos de análise literária. Ao contrário, a meu ver cada estudante deve desenvolver suas próprias aptidões a partir de um exemplo de comportamento diante do texto, não de uma análise já realizada. É que esta, por melhor que seja, sempre limita o progresso dos interessados nesse assunto. Daí que [...] não encontrará análises feitas, mas em processamento, análogas às que pode empreender: oferecer-lhe a técnica, o método, não esquemas preconcebidos ou rígidos" (2004, p.11).

O fato de não existir um único padrão de análise literária traz, em um primeiro momento, algumas vantagens. As possibilidades de personalização ou de adequação do modelo ao tipo de estudo e à temática do trabalho realizado tornam a vida do analista mais fácil neste sentido. Ao invés de precisar se adequar a um modelo engessado e inflexível, o estudioso da literatura simplesmente escolhe aquele que melhor o auxilia no trabalho investigativo que se propôs a fazer.

Algo importante que precisa ser esclarecido é que a falta de um modelo preponderante não indica a inexistência de múltiplos modelos. Pelo contrário. Há muitos e variados modelos à disposição dos analistas. Praticamente, cada corrente literária tem a sua e, muitas vezes, cada autor possui seu próprio modelo. Por exemplo, os teóricos do formalismo russos tinham seu método de análise, que era totalmente distinto dos teóricos da recepção alemã, que por sua vez era diferente dos teóricos do new criticism norte-americano. Dentro da mesma corrente, podem-se encontrar várias divergências formais (EAGLETON, 2006, 113-.136). O crítico norte-americano William Empson (crítico nesse sentido por ser teórico da corrente do new criticism, ou nova crítica, uma das correntes da teoria literária) combatia as ideias e métodos de seu contemporâneo e conterrâneo o também crítico William K. Wimsatt (crítico também por ser do new criticism). Suas formas de trabalho e o jeito como encaravam a literatura não eram parecidas, apesar de serem da mesma corrente teórica.

A falta de um sistema único também pode atrapalhar o desenvolvimento dos estudos literários. Quando o analista não encontra um modelo totalmente adequado para o tipo de estudo proposto, ele precisa construir sua própria plataforma de trabalho. Esta busca pelo modelo mais pertinente para cada caso pode demandar mais tempo do que o próprio trabalho analítico.

Além disso, a existência de muitas possibilidades pode passar a impressão que a teoria literária é um campo de estudo que caminha entre a subjetividade avaliativa e a densidade inacessível da teoria. Terence Francis Eagleton, mais conhecido como Terry Eagleton, influente teórico da literatura da segunda metade do século XX, alertou para o perigo dessa visão equivocada:

"Alguns se queixam de que a teoria literária é inconcebivelmente esotérica - julgam-na uma categoria à parte, elitista e misteriosa, de certa forma semelhante à física nuclear. Uma educação literária certamente não é o caminho mais indicado para estimular o pensamento analítico, mas a teoria literária de fato não é a mais difícil do que muitas outras formas teóricas de investigação, sendo muito mais fácil do que algumas delas" (2006, XII).

O principal problema ocorre quando os teóricos da literatura acham que, na ausência de um modelo definitivo, eles não precisam de nenhum para realizar seu trabalho. Sem qualquer referência estrutural, são guiados pelas impressões particulares, pelas opiniões pessoais e pela subjetividade analítica. Com isso, acabam transformando o estudo literário que deveria ser calcado essencialmente na teoria literária em algo muito parecido à crítica literária, com pouquíssimo embasamento metodológico-conceitual.

Ou seja, a falta de um modelo padronizado de análise literária não implica no não uso das estruturas analíticas. Se não houver um modelo ideal dentro das várias possibilidades existentes da teoria literária, o analista tem a obrigação de criar o seu próprio método de estudo. Evidentemente, esse modelo original ou adaptado deve seguir os preceitos norteadores da teoria considerada, não ferindo o rigor metodológico e, por consequência, científico.

Em agosto, o post da coluna Teoria Literária será sobre estilo literário. As discussões que vou propor serão: Por que estudar o estilo literário de um autor? e Quais as definições de estilo para a literatura? Não perca os próximos debates do Bonas Histórias sobre os conceitos da Teoria Literária. Até lá!

Bibliografia:

COMPAGNON, Antoine. O Demônio da Teoria - Literatura e Senso Comum. 2a ed. Belo Horizonte: UFMF, 2014.

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura - Uma Introdução. 6a ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

MOISÉS, Massaud. A Análise Literária. 19a ed. São Paulo: Cultrix, 2014.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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