• Ricardo Bonacorci

Livros: As Boas Mulheres da China – A estreia de Xinran na literatura


Neste sábado, li “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso), o livro de estreia de Xinran. Esta é a primeira obra que será analisada no Desafio Literário de agosto. Quem ainda não estiver por dentro da novidade, se ligue porque o Bonas Histórias irá, neste mês, estudar a literatura da principal escritora chinesa da atualidade.

Xinran deixou a China, em 1997, e foi morar na Inglaterra. Na Europa, ela se sentiu mais à vontade para escrever um livro que muito possivelmente seria censurado se ela ainda vivesse em seu país natal. Afinal de contas, as autoridades comunistas não permitem que imagens negativas de sua nação sejam divulgadas por manifestações artísticas. Em “As Boas Mulheres da China”, a escritora apresenta a realidade desoladora de suas conterrâneas. As histórias apresentadas nesta publicação são reais e envolvem chinesas de todas as classes sociais e idades. O retrato da China na perspectiva feminina é assustador.

Para produzir este livro, Xinran aproveitou-se de extenso material coletado ao longo dos anos. Entre 1989 e 1997, ela foi apresentadora de um programa de rádio em Nanquim, cidade localizada no Sudeste da China e que possui aproximadamente 10 milhões de habitantes. Em "Palavras na Brisa Noturna", programa que era transmitido diariamente entre as dez da noite e a meia-noite, a jornalista falava principalmente sobre a rotina, os desafios, os sonhos e as preocupações das mulheres. Apesar de estar sob a vigilância cerrada das autoridades comunistas, Xinran pôde criar um canal de comunicação direto e sincero com as mulheres de seu país. Assim, tornou-se popular, querida e muitíssimo respeitada pela população e pelos colegas jornalistas.

Os relatos que Xinran tinha a sua disposição, na época de "Palavras na Brisa Noturna", lhe eram transmitidos por cartas, por ligações telefônicas e em conversas pessoais. Ela também fez muitas viagens pelo país em coberturas jornalísticas. Nessas oportunidades, conheceu de perto a vida ainda mais difícil das moradoras de localidades afastadas dos grandes centros urbanos. De certa maneira, as ouvintes femininas encontraram na radialista uma porta-voz de seus dramas mais sérios e íntimos.

Com esse material vasto e rico em mãos, Xinran pôde colocar tudo o que viu e ouviu nas páginas do livro. Sua maior preocupação, contudo, foi alterar os nomes dos citados. Assim, ninguém seria identificado ou prejudicado com o que ela narrasse.

“Boas Mulheres da China” é, até o momento, o maior sucesso da carreira literária de Xinran. Publicado em 2002, o livro tornou-se um best-seller mundial. Através de 15 crônicas, cada uma relatando a vida de uma mulher chinesa, a obra escancara o quão difícil é viver em um país machista, violento, repressor e injusto. É preciso ter sangue-frio para ler os sofrimentos das personagens apresentadas por Xinran. Não é incomum o leitor ficar com os olhos marejados. Sinceramente, não sei qual é a narrativa mais triste daquelas contadas nas 256 páginas do livro.

Ao longo dos capítulos, conhecemos a menina que fazia tudo para ficar doente. Ela adorava passar os dias e as noites no hospital. Ali, podia viver tranquilamente, longe do pai que a estuprava sistematicamente em casa. Também ficamos conhecendo a mulher que foi separada, em sua juventude, do homem que era o amor de sua vida. Ela o esperou virgem por 45 anos. Entretanto, ao revê-lo, ela foi acometida por uma surpresa amarga. Há também o caso da empresária bem-sucedida que demonstra grande frieza emocional em público. Na vida particular, por outro lado, ela é refém do homem que ama, mas que não parece nutrir um amor sincero por ela.

Uma jornalista homossexual relata como passou a sentir atração por mulheres depois de ser estuprada por um grupo de homens na adolescência. Há a jovem que se tornou mentalmente incapacitada depois de revelar a identidade dos seus pais biológicos aos soldados, o que decretou a prisão de seus demais familiares e amigos. Para piorar, ela ainda passou dez anos sendo abusada em um povoado interiorano. Outro caso marcante é da família japonesa que vivia na China quando a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung estourou. Acusados de serem imperialistas e espiões estrangeiros, o pai e a mãe foram presos. As filhas deles passaram, então, a ser um alvo fácil da maldade dos jovens soldados do Exército Vermelho.

As histórias são tristes, é verdade, mas excelentes também. O mais interessante é que Xinran conta os dramas alheios embalando-os com a sua própria narrativa de vida. A escritora escreve com sutileza e grande beleza, tecendo brilhantemente cada uma de suas crônicas. Impossível não gostar do seu estilo e da maneira como ela narra cada uma dessas histórias.

“As Boas Mulheres da China” é um dos livros mais contundentes que já li sobre as consequências nefastas do machismo, da repressão ideológica e do autoritarismo governamental em uma sociedade. Nesse sentido, Xinran está para a China assim como Åsne Seierstad e Khaled Hosseini estão para o Afeganistão e Blaine Harden está para a Coreia do Norte. Todos esses escritores transmitem ao leitor estrangeiro o sofrimento de quem mora em regiões do planeta onde o valor à vida humana, principalmente a das mulheres, é muitas vezes artigo de luxo. Infelizmente, nós brasileiros, campeões mundiais em assassinatos e em feminicídios, não temos muito o que criticar os chineses, os afegãos e os norte-coreanos.

Das histórias contadas no livro aquela que talvez seja a mais emblemática é a primeira, contada no Prólogo e ocorrida com a própria Xinran na Inglaterra. Veja:

Às nove horas de 3 de novembro de 1999, eu estava a caminho de casa, depois de dar uma aula no curso noturno da School of Oriental and African Studies (SOAS) da Universidade de Londres. Ao sair da estação de metrô de Stamford Brook para a escura noite de outono, ouvi um som rápido atrás de mim. Não tive tempo de reagir e alguém me bateu com força na cabeça e me jogou no chão. Instintivamente, segurei firme a bolsa, onde estava a única cópia de um manuscrito que eu acabara de escrever. Mas o meu agressor não se deixou demover.

“Dá a bolsa”, gritava sem parar.

Resisti com uma força que não sabia que tinha. No escuro, não conseguia enxergar um rosto. Só estava ciente de que lutava com um par de mãos fortes, mas invisíveis. Tentei me proteger e, ao mesmo tempo, dar-lhe um pontapé no ponto onde achei que ficasse a virilha. Ele chutou de volta e senti uma dor aguda explodindo nas costas e nas pernas, e o gosto salgado de sangue na boca.

Passantes começaram a acorrer aos gritos. Em pouco tempo o homem foi cercado por um grupo enfurecido. Quando me pus de pé, cambaleando, vi que ele tinha mais de um metro e noventa de altura.

Mais tarde a polícia quis saber por que eu tinha arriscado a vida por uma bolsa.

Tremendo e dolorida, expliquei: “É que o meu livro estava dentro dela”. “Um livro?”, admirou-se o policial.

“Um livro é mais importante do que a sua vida?”

Claro que a vida é mais importante do que um livro. Mas, em muitos sentidos, o meu livro era a minha vida. Era o meu depoimento sobre a vida de mulheres chinesas, o resultado de um trabalho de muitos anos como jornalista. Eu sabia que tinha sido imprudente: se tivesse perdido o manuscrito, poderia ter tentado reescrevê-lo. Mas não tinha certeza se seria capaz de enfrentar novamente as emoções extremas provocadas pela redação do livro. Fora doloroso reviver as histórias das mulheres que eu tinha conhecido, e ainda mais difícil pôr as minhas lembranças em ordem e encontrar uma linguagem adequada para expressá-las. Ao lutar pela bolsa, eu estava defendendo meus sentimentos e os das mulheres chinesas. O livro era o resultado de muitas coisas que, caso se perdessem, jamais poderiam ser reencontradas. Quando alguém mergulha nas próprias recordações, abre uma porta para o passado; a estrada lá dentro tem muitas ramificações e a cada vez o trajeto é diferente.

Incrível, né? Mesmo na Europa, os relatos das mulheres que confidenciaram seus segredos mais íntimos à Xinran eram, ainda sim, vítimas de nova violência masculina. Depois de tanto esforço e coragem da autora chinesa para escrever e lutar por seu manuscrito, não seria justo não lermos este livro. “As Boas Mulheres da China” é uma das melhores obras que li neste ano. Em uma época em que muitos brasileiros bradam pela volta do autoritarismo e não se importam em apoiar quem despreze as mulheres, ler Xinran é, ao mesmo tempo, um prazer literário e um enriquecimento sociocultural.

O Desafio Literário de agosto tem sequência no próximo sábado, dia 11, com a análise de “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), o segundo livro de Xinran. Não perca as novidades do Bonas Histórias!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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