• Ricardo Bonacorci

Livros: Enterro Celestial – O romance hiperdramático de Xinran


Li, nesta semana, “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), o segundo livro da carreira de Xinran. Não por acaso, esta foi também a segunda obra selecionada para o Desafio Literário de agosto. Neste mês, o Bonas Histórias está estudando a literatura da principal escritora chinesa da atualidade.

Diferentemente da publicação de estreia de Xinran, “As Boas Mulheres da China” (Companhia de Bolso), que reúne uma série de histórias reais de conterrâneas da autora, “Enterro Celestial” apresenta uma única trama. Por isso, o livro é classificado como romance ao invés de uma coletânea de crônicas. Sei que parece estranha essa classificação em um primeiro momento. Afinal, há uma linha tênue entre ficção e não ficção em “Enterro Celestial”.

Xinran diz que esta é uma história verídica, transmitida pela própria protagonista em uma entrevista concedida à escritora em 1994. Sob esse ponto de vista, não poderíamos chamar o livro de romance. Ele se enquadraria mais na categoria de não ficção (por exemplo, biografia). Por outro lado, uma vez que a autora chinesa transformou os relatos ouvidos em uma narrativa, tendo total liberdade criativa para sua construção, esse processo pode ser definido como ficção. Além de “Enterro Celestial”, Xinran tem mais uma obra classificada como romance. Trata-se de “As Filhas Sem Nome” (Companhia das Letras), publicação de 2008. Todos os demais títulos da autora são coletâneas de crônicas.

Lançado em 2004, dois anos depois do best-seller “As Boas Mulheres da China”, “Enterro Celestial” foi bem recebido pela crítica literária. O Los Angeles Times, por exemplo, apontou-o como um dos melhores livros do ano de 2005.

A construção deste romance foi similar ao desenvolvimento do livro anterior. Por apresentar "Palavras na Brisa Noturna", um programa de rádio popular na China entre 1989 e 1997, Xinran pôde conhecer o drama de milhares de chinesas. As ouvintes enviavam cartas, telefonavam e conversavam pessoalmente com a apresentadora sobre suas rotinas, os desafios que precisavam enfrentar diariamente, seus sonhos, as violências que sofriam e suas preocupações mais íntimas. Assim, Xinran conheceu como ninguém os dramas vividos por suas conterrâneas.

Parte dos relatos coletados na época de "Palavras na Brisa Noturna" foi usada para a construção de “As Boas Mulheres da China”. Para “Enterro Celestial”, a impressão que tive é que a escritora deixou para abordar a história mais dramática que conheceu de suas ouvintes. Por isso, se você ficou chocado com o que leu nas páginas de “As Boas Mulheres da China”, prepare-se para mergulhar em uma trama de sofrimento sem precedente.

O romance de Xinran tem em seu prefácio a explicação de como a escritora conheceu Shu Wen, a personagem principal do livro. Segundo as palavras da autora, que tomo a liberdade de repassar aqui, ela entrevistou Wen e ficou perplexa com o que ouviu.

“Em 1994, eu trabalhava como jornalista em Nanquim. Durante a semana apresentava um programa noturno de rádio que discutia vários aspectos da vida da mulher chinesa. Um dos ouvintes telefonou de Suzhou para me dizer que conhecera uma mulher estranha na rua. Ambos compravam sopa de arroz de um vendedor ambulante e começaram a conversar. Ela acabara de chegar do Tibet. O ouvinte supôs que eu poderia achar interessante entrevistá-la e me deu o nome do pequeno hotel onde ela estava hospedada. Ela se chamava Shu Wen”.

Xinran prossegue:

“Com a curiosidade despertada, fiz a viagem de quatro horas de ônibus de Nanquim até a movimentada cidade de Suzhou, que, a despeito das reformas, mantém sua beleza (...). Lá, na casa de chá ao lado do hotel, encontrei uma mulher idosa vestida com roupas tibetanas e cheirando fortemente a couro velho, leite rançoso e esterco de animal. Os cabelos grisalhos estavam presos em duas tranças malfeitas, e a pele era enrugada e curtida pelo tempo. Mas, embora parecesse tão tibetana, seu rosto tinha as características do rosto de uma chinesa (...). Quando ela começou a falar, seu sotaque logo confirmou que era, de fato, chinesa (...). Por dois dias, ouvi sua história. Quando voltei para Nanquim, minha cabeça girava. (...) Percebi (...) que acabara de conhecer uma das mulheres mais excepcionais que jamais conheceria”.

Esse é o trecho inicial de “Enterro Celestial”. Com a curiosidade aguçada, o leitor mergulha nesta leitura. A vida de Shu Wen é descortinada ao longo das páginas do romance. Na década de 1950, Shu Wen era uma recém-formada médica da cidade de Suzhou. A moça chinesa de 26 anos casara com Kejun, um colega mais velho de faculdade. Kenjun era médico do Exército comunista da China e foi enviado para o Tibet três semanas depois de casar, deixando Wen sozinha em Suzhou. O marido partia para a guerra que a China travava com o Tibet.

Alguns dias depois da viagem de Kenjun, Wen recebe a notícia que seu esposo morreu no campo de batalha. Desesperada com a notícia, a jovem não acredita no comunicado do Exército. “Como um médico poderia ter morrido tão rapidamente?”, pensa incrédula. Acreditando que Kenjun ainda estivesse vivo, Shu Wen alista-se no Exército como médica e parte para o Tibet. Assim, começa a saga da protagonista de “Enterro Celestial” em busca do homem que ela amava.

Uma vez no Tibet, Wen conhece Zhuoma, uma jovem tibetana corajosa e idealista. Como Wen, Zhuoma acabara de perder contato com o amor da sua vida, Tiananmen. Amigas na dor de buscar os homens que amam, Wen e Zhuoma partem juntas para localizar Kenjun e Tiananmen. A localização dos homens não será fácil. As duas mulheres precisarão atravessar as intermináveis cadeias montanhosas do Tibet e enfrentar a Guerra Chino-tibetana para descobrir o que aconteceu com Kenjun e Tiananmen. A viagem delas poderá levar dias, semanas, meses, anos, décadas... E, até mesmo, uma vida inteira.

“Enterro Celestial” é um romance do tipo super-romântico. Essa característica é o que dá força à sua narrativa. Shu Wen fará o que for necessário para achar o grande amor da sua vida. Assim, ela não se importa de viver de maneira precária e passar pelos maiores perrengues imagináveis e inimagináveis ao longo de toda a sua vida. Seu ideal é nobre e sua força de vontade é admirável. Se ela fosse uma personagem ficcional, diria que seu principal defeito era parecer inverossímil. Contudo, essa mulher existiu e realizou tudo o que Xinran descreve. É realmente uma história incrível!

Ao mesmo tempo que o aspecto do hiper-romantismo serve de mola propulsora à trama, ele também torna o romance exageradamente piegas. Se em “As Boas Mulheres da China” as protagonistas das narrativas são vítimas da sociedade e das circunstâncias, Shu Wen é vítima de sua própria teimosia e de sua loucura. Como consequência, não consegui me solidarizar com ela como fiz com as personagens anteriores de Xinran. Para mim, Shu Wen não é uma mulher apaixonada e valente, e sim uma pessoa traumatizada com a viuvez precoce. Ela vive imersa em uma obsessão desmedida. Suas atitudes não são elogiáveis, mas dignas de pena. Do meu ponto de vista, Zhuoma é uma personagem mais interessante e admirável do que a própria Wen.

Curiosamente, apesar de todos os dramas e sofrimentos vivenciados por Shu Wen, “Enterro Celestial” não é um livro que leve seus leitores às lágrimas. Esse talvez seja seu pior defeito. Se a autora queria sensibilizar os leitores com uma história triste e trágica, ela não consegue partir os corações de quem lê seu romance. Como Xinran poderia ter feito isso? Sinceramente, não sei. Só sei que ela não consegue transmitir com a força necessária as desilusões e o desespero da protagonista. A escritora acabou focando muito mais na narrativa em si do que no que a história poderia passar aos leitores.

O que mais gostei deste livro foi a descrição da cultura, das crenças, da história e dos hábitos tibetanos. A sensação é que o leitor de “Enterro Celestial” é jogado no Tibet junto com a protagonista da obra. Tudo o que ela vivencia nos afeta diretamente. Querendo ou não, nós aprendemos, durante a leitura desta obra, sobre a história e os valores desta região tão particular do mundo. O choque cultural é realmente muito forte. Se o Tibet já é um local cercado de mistério e charme, neste romance de Xinran ele era adquire um tom ainda mais encantador.

Outro ponto que adorei foi a maneira como Xinran construiu o romance. A escritora chinesa intercala de forma admirável os encontros no hotel com Shu Wen e os relatos da mulher idosa. Dessa maneira, o leitor fica o tempo inteiro dividido entre ficção e não ficção.

“Enterro Celestial” é interessante para ver como Xinran se sai como romancista. Neste aspecto, a autora chinesa merece muitos elogios. Sua trama é objetiva, sensível e muito forte. A autora não gosta de enrolação e vai direto ao ponto, descrevendo com precisão os pontos mais importantes da narrativa. Apesar de não gostar nenhum pouco de romances com tanto sentimentalismo (eles parecem um tanto infantis e bobos para mim), admito que fui surpreendido positivamente com esse livro. Mesmo não me identificando nem me solidarizando com Shu Wen, é inegável que ela seja uma mulher com uma história fenomenal. Se Xinran diz que ela é “uma das mulheres mais excepcionais que jamais conheceria”, quem sou eu para contestar, hein?

O Desafio Literário de agosto continuará na próxima quarta-feira, dia 15. O terceiro livro que será investigado neste mês no Bonas Histórias é “O que os Chineses Não Comem” (Companhia das Letras”), uma coletânea de crônicas de 2006 da escritora chinesa mais bem-sucedida do momento. Não perca os próximos passos da análise literária de Xinran.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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