• Ricardo Bonacorci

Filmes: Mentes Sombrias - Ficção científica dos adolescentes com superpoderes


Não tenho preconceitos com filmes direcionados ao público adolescente. Nos últimos anos, várias produções desse gênero apresentaram bons enredos e conseguiram levar multidões às salas de cinema. Alguns longas-metragens foram além e fizeram um casamento interessante entre aventura juvenil e ficção científica. "Jogos Vorazes" (The Hunger Games: 2012) e "Divergente" (Divergent: 2014) são, provavelmente, os melhores exemplos recentes de sucesso nessa linha. Suas histórias são tão boas que viraram séries cinematográficas (além de terem vendido milhões de livros nos quatro cantos do planeta). Há outros casos de sucesso em menor escala: "Maze Runner: Correr ou Morrer" (The Maze Runner: 2014), "Guardiões da Galáxia" (Guardians Of The Galaxy: 2014) e "A Hospedeira" (The Host: 2013). No ano passado, recordo que gostei muito de "O Círculo" (The Circle: 2017) e, em 2016, curti bastante "Never - Um Jogo sem Regras" (Nerve: 2016), ambos comentados aqui no Blog Bonas Histórias.

Com essa retrospectiva em minha memória, entrei na sala de cinema ontem à noite para ver "Mentes Sombrias" (The Darkest Minds: 2018). E que decepção! Sem erro de avaliação, este foi o pior filme que vi em 2018. Sua história não tem pé nem cabeça. Apesar de ser uma trama com uma boa dose de ação e conter algum romantismo, o longa-metragem peca em sua lógica interna. Ele não explica suas divagações narrativas nem qualquer acontecimento disruptivo do enredo (um grave problema para uma ficção científica). Para completar o quadro desolador, "Mentes Sombrias" parece uma cópia (de baixa qualidade) de "X Men" (2000).

Assim, o espectador fica a mercê dos acontecimentos, sem compreendê-los totalmente. E, ainda por cima, acaba se lembrando de ter visto várias cenas e passagens deste filme em outras produções passadas. Impossível não se recordar de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" (Eternal Sunshine of the Spotless Mind: 2004) na parte final de "Mentes Sombrias". Aí é duro de engolir. Se você, como eu, espera ou esperava uma produção com o mesmo grau de excelência e inovação de "Jogos Vorazes" ou "Divergente", tire seu cavalinho da chuva. O que temos aqui é um filme muito, muito fraco.

Orçado em pouco mais de US$ 30 milhões, "Mentes Sombrias" é uma adaptação do romance homônimo escrito por Alexandra Bracken. O livro foi lançado nos Estados Unidos no final de 2012 e virou best-seller. Nos anos seguintes, ele ganhou continuações. Mais quatro livros integram a série criada por Bracken. Por aqui, a primeira obra da coleção foi publicada pela Intrínseca e chegou às livrarias brasileiras só no mês passado.

Dirigido pela sul-coreana Jennifer Yuh Nelson, de "Kung Fu Panda 2" (2011) e "Kung Fu Panda 3" (2016), o longa-metragem foi produzido por Dan Cohen e Shawn Levy, da série "Stranger Things" (2016), e por Dan Levine, do excelente "A Chegada" (Arrival: 2016). A adaptação da história do livro para o cinema ficou a cargo do roteirista Chad Hodge, de "O Jogo do Amor" (I Want to Marry Ryan Banks: 2004). No elenco de "Mentes Sombrias", Amandla Stenberg, Harris Dickinson, Miya Cech e Skylan Brooks formam o quarteto de protagonistas. Completam o quadro de atores principais Mark O'Brien, Mandy Moore, Brandley Whitford e Patrick Gibson.

O filme começa com os Estados Unidos sofrendo de uma grave epidemia viral. A doença misteriosa ataca exclusivamente as crianças e os adolescentes do país. Infelizmente, 90% dos jovens acabam morrendo. Os meninos e as meninas que sobrevivem adquirem poderes especiais. Com medo desses superpoderes, o Presidente da República (interpretado por Brandley Whitford) decreta uma lei em que as Forças Armadas devem retirar a criançada da guarda dos pais. Para a sociedade, ele diz que os jovens serão levados para tratamento médico. Contudo, os meninos e as meninas são enviados para campos de trabalho forçado. Nesses campos, quem possui poderes telepáticos é exterminado friamente (afinal, representam um grande perigo aos demais indivíduos). Os que têm outras habilidades (superinteligente, habilidade telecinética e poder de conduzir eletricidade) são escravizados, transformando-se em trabalhadores de alto desempenho.

Nesse cenário apocalíptico, Ruby Daly (Amandla Stenberg), uma menina que acabou de completar dez anos de idade, se vê obrigada a deixar a casa dos seus pais e é transferida para uma das bases das Forças Armadas. Ali, ela é avaliada como tendo poderes telepáticos. Ao perceber que tal diagnóstico a levará à morte, a garota consegue entrar na mente do médico e reverter o julgamento dele. Assim, Ruby é liberada para fazer trabalhos forçados no acampamento de jovens com habilidades aceitáveis.

Seis anos mais tarde, uma nova avaliação é feita e Ruby é novamente diagnosticada como tendo habilidades telepáticas. Antes que a menina fosse assassinada pelos soldados, uma médica (Mandy Moore) consegue fugir do campo com Ruby. A médica diz ser integrante de um grupo chamado de A Liga. A Liga trabalha em prol das crianças com superpoderes. Com medo da doutora, Ruby acaba fugindo com um trio de adolescentes que ela conhece por acaso: Liam (Harris Dickinson), Zu (Miya Cech) e Bolota (Skylan Brooks). A trupe juvenil passa a viajar de carro pelas estradas do país, fugindo de todos os adultos que encontra pelo caminho. As Forças Armadas, a Liga e mercenários à procura de crianças irão fazer de tudo para capturá-las ou matá-las.

Qual o principal problema de "Mentes Sombrias"? Em minha opinião, o filme peca pela falta de sentido. Sua história é absurda, falha e sem qualquer lógica interna. Por exemplo: Que doença provocou os superpoderes nas crianças? Como o governo ficou sabendo tão rapidamente que os meninos e as meninas tinham novas habilidades se nem mesmo os pais deles nem as próprias crianças tinham notado isso? Para que um país como os Estados Unidos, onde a lei do livre mercado e do liberalismo econômico vigora tão fortemente, ia estabelecer campos de trabalhos forçados para jovens? E por que as cidades interioranas foram abandonadas pelos adultos depois que as crianças foram levadas pelo Exército? São tantas perguntas não esclarecidas que eu poderia passar um dia inteiro listando-as. Ou o enredo do livro de Alexandra Bracken tem graves problemas e/ou o roteiro de Chad Hodge foi muitíssimo malfeito.

Além disso, os superpoderes das crianças se parecem muito com os dos personagens de "X Men". Onde está a criatividade desta trama?! Sinceramente, achei o enredo de "Mentes Sombrias" sem qualquer originalidade (um erro capital para um filme nos dias de hoje). Por que não inventaram, ao menos, poderes diferentes de outras histórias de super-heróis, hein? Juro que não sei.

Os dramas do quarteto de protagonista também não empolgam. O romance entre Ruby e Liam é bobo e não cativa o público. Zu é uma personagem apagada e Bolota não tem vida própria fora do seu grupo de amigos.

Diria até que a escolha dos atores foi equivocada. Onde já se viu escalar para papéis de adolescentes atores com aparência de adultos ou de crianças?! A mistura de adultos e crianças juntos interpretando adolescentes fica muito esquisita. Amandla Stenberg parece, em muitos momentos, uma garotinha de 12 ou 13 anos. Já Harris Dickinson, par romântico de Stenberg no filme, aparenta ter ao menos 20 anos. E Patrick Gibson, outro pretendente da personagem de Stenberg, em algumas cenas parece ter 30 anos. Difícil acreditar nisso!

Se o início e o desenvolvimento de "Mentes Sombrias" são sofríveis, o final do longa-metragem consegue ser ainda pior. As reviravoltas da trama são previsíveis e muito forçadas. E quando o espectador acha que já viu de tudo, copia-se descaradamente uma passagem de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças", um ótimo filme de ficção científica da década passada. Por melhor que tenham sido trabalhados os recursos visuais nas cenas finais, a beleza estética ficou prejudicada pela falta de originalidade da narrativa.

Sinceramente, fiquei decepcionado com "Mentes Sombrias". E imaginar que já cogitam a produção das sequências dessa história. Eu não perderei meu tempo conferindo-as.

Veja, a seguir, o trailer deste longa-metragem:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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