• Ricardo Bonacorci

Livros: As Filhas Sem Nome – O segundo romance de Xinran


Xinran, a autora analisada no Desafio Literário de agosto, ficou conhecida internacionalmente por retratar os dramas das mulheres chinesas em suas coletâneas de crônicas. “As Boas Mulheres da China” (Companhia das Letras) e “Mensagem de uma Mãe Chinesa Desconhecida” (Companhia das Letras) são os melhores exemplos desse trabalho. A escritora aproveitou-se das entrevistas e das conversas tidas com suas conterrâneas ao longo dos anos para reunir uma infinidade de histórias reais do que é viver na China. A realidade para quem é do sexo feminino é, muitas vezes, dura, trágica e, até mesmo, aterrorizante no país mais populoso do mundo. Admito que virei fã das crônicas desta autora.

Contudo, o portfólio literário de Xinran não se resume às narrativas não ficcionais. A escritora já lançou dois romances. O mais famoso deles é “Enterro Celestial” (Companhia das Letras), comentado na semana passada no Bonas Histórias. No post de hoje, vou falar sobre o segundo romance da autora, “As Filhas Sem Nome” (Companhia das Letras). Esta obra é tão boa quanto a primeira narrativa ficcional de Xinran, apesar de ser menos famosa. Para ser sincero, achei este livro até mesmo melhor do que “Enterro Celestial”.

“As Filhas Sem Nome” é uma publicação de 2008. Ele é o quarto livro da carreira da chinesa. Como todos os títulos de Xinran, este foi escrito em mandarim e depois foi traduzido para o inglês (e a partir daí para as demais línguas).

Esta obra é classificada como romance, porém, ela possui um pezinho no universo das crônicas. A proposta de Xinran foi unir ficção e não ficção em um mesmo livro. Para tal, a autora escolheu três episódios verídicos ocorridos com mulheres pobres do interior da China. Em busca de dinheiro e de melhor qualidade de vida, o trio precisou migrar para a cidade grande na primeira década do século XXI. Com base nos relatos dessas moças, a escritora romanceou suas narrativas, além de ter integrado as histórias (as mulheres eram desconhecidas uma das outras) em uma única trama. O resultado é maravilhoso!

No romance, somos apresentados ao drama de Li Zhongguo e sua mulher. O casal pobre mora em uma pequena aldeia rural de Anhui. A vida difícil e o pouco dinheiro não são os principais problemas da família. O que manchou a honra de Li Zhongguo e de sua esposa foi o fato de eles nunca terem tido um filho homem, algo imperdoável para a cultura tradicional (e machista) chinesa. O casal Li teve seis filhas.

Vale lembrar, para quem se assustou com a quantidade de filhos desta família, que a Política de Filho Único implementada pelo governo comunista nunca “pegou” nas regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos. Assim como acontece com frequência no Brasil, na China algumas leis são cumpridas em algumas regiões (normalmente nos grandes centros urbanos) e não em outras (povoados rurais e localidades afastadas das metrópoles). Por lá, também há regras que “pegam” e outras que não “pegam”.

O desprezo pelas garotas do casal Li pode ser resumido em uma evidência: nenhuma delas ganhou nome próprio. Elas foram numeradas por ordem de nascimento. Temos, assim, Um, Dois, Três, Quatro, Cinco e Seis. Apesar do menosprezo geral recebido desde o nascimento por serem mulheres, as seis irmãs contaram com a sorte de não terem sido mortas logo após o parto. Esse é o triste destino de muitas meninas que nascem no interior da China. A decepção dos pais por não verem um garotinho acabou tornando o infanticídio uma prática muito comum.

Ao crescerem sem educação, sem respeito e sem afeto, Um, Dois, Três, Quatro, Cinco e Seis são vistas meramente como “moedas de troca”. Se Zhongguo tiver sorte, ele poderá vendê-las para candidatos a maridos por uma boa quantia de dinheiro ou para famílias de prestígio na região. Esses “encaminhamentos” das filhas não minimizam a desonra de não ter tido um filho homem, mas poderão aplacar um pouco a dura realidade da família. Esse acaba sendo o caminho de Um, a mais velha. Ela se torna esposa de um importante dirigente local.

Quando Dois é informada que será esposa de um homem velho e paralítico, a moça não suporta a decisão do pai e se mata. Sem graça com a atitude destemperada da segunda filha, Zhongguo volta seu olhar para Três. Ela será vendida no lugar da irmã morta. Três também não quer ser mulher de um homem velho e paralítico, apesar da riqueza e da importância da família do candidato. Com a ajuda de um tio, Três acaba fugindo de Anhui.

Três vai morar sozinha em Nanjing, uma das maiores cidades chinesas. Nanjing vivia naquele momento uma acelerada industrialização. Rapidamente, a moça consegue um emprego em um restaurante e passa a ser valorizada pelos patrões. Pela primeira vez na vida, Três entendia que uma mulher poderia ser uma pessoa importante e produtiva socialmente. As diferenças entre a cultura tradicional do interior da China e a cultura moderna da cidade grande chinesa não pararam por aí. A migrante precisou entender várias diferenças culturais, idiomáticas e comportamentais do novo lugar. Só assim conseguiu se adaptar à Nanjing.

Ao voltar para Anhui no Festival da Primavera, o feriado mais importante do país quando os chineses comemoram seu Ano-Novo, Três é recebida com respeito pelos familiares e pelos vizinhos. O dinheiro que ela trouxe para os pais, fruto do seu trabalho e de suas economias na cidade grande, é uma pequena fortuna do ponto de vista dos interioranos. Por consequência, Três adquire o status de uma pequena celebridade local.

Inspiradas pela irmã bem-sucedida, Cinco, a irmã feia e considerada a mais burra de todas, e Seis, a única que frequentou a escola e que é tida como a mais inteligente, decidem morar também em Nanjing. Quatro, por ser surda, não pode seguir o caminho das irmãs. Ela fica encarregada de cuidar dos pais no interior.

Com o final do Festival da Primavera, Três, Cinco e Seis partem para a cidade grande de ônibus. A partir daí o livro narra as dificuldades de Cinco e Seis para se adaptarem ao novo lugar. Além disso, a obra mostra os sofrimentos de Três para continuar vivendo em Nanjing.

“As Filhas Sem Nome” é um romance de tamanho mediano. O livro possui 290 páginas. Por ter uma linguagem simples e ser uma trama de baixa complexidade narrativa, sua leitura é rápida. Concluí a publicação em duas noites.

O romance trata da adaptação das moças pobres do interior na cidade grande. Esse é o fio narrativo que une as histórias das três irmãs Li. Com isso, o leitor consegue compreender o choque cultural da passagem de muitas pessoas da Antiga China (agrária, conservadora, machista e desumana) para a Nova China (cosmopolita, moderna, globalizada e industrial). É possível também conhecer várias particularidades da sociedade chinesa. A literatura de Xinran propicia uma viagem rica culturalmente e de uma beleza estética impressionante.

Quanto à temática do livro, é legal notar que o Ocidente costuma olhar quase que exclusivamente para as dificuldades de adaptação de africanos e asiáticos na Europa ou de latino-americanos nos Estados Unidos. Esses são os choques culturais em voga nas últimas décadas para a mídia, para o cinema e para a literatura. Entretanto, em quantidade de fluxo migratório, a saída de milhões de pessoas do interior da China para as grandes cidades chinesas foi muito maior. Mesmo sendo uma migração interna, as mudanças de estilo de vida, crenças, valores e hábitos são também absurdas nesse caso. É como se o chinês interiorano saísse de um lugar medieval e entrasse em uma localidade alguns séculos à frente no tempo. É isso o que Xinran mostra. Do ponto de vista feminino, essas mudanças são ainda mais significativas.

Conseguirão as três irmãs se habituarem nessa Nova China? A resposta pode frustrar um pouco os leitores que esperam um desfecho mais romântico e objetivo. Mais importante do que o final da história é o caminho narrativo proposto por Xinran. O que vale aqui é a apresentação do conflito e não o seu desenlace.

Quem estiver acostumado apenas com as crônicas de Xinran, há em “As Filhas Sem Nome” muito mais detalhes narrativos. Isso é algo natural. As histórias narradas no romance são mais completas quando comparadas às obras não ficcionais. O interessante é que Xinran pontua para seus leitores antes (no prefácio) e depois (no posfácio) do romance onde a realidade começa e onde ela termina. Com essa revelação, conhecemos um pouquinho das verdadeiras personagens desta trama, que inspiraram o livro.

“As Filhas Sem Nome” é uma obra bonita, sensível, forte e extremamente reveladora. Suas histórias são excelentes e o estilo de literatura de Xinran valoriza ainda mais os dramas das protagonistas. É preciso também elogiar o belo trabalho de tradução feito no romance. O leitor consegue capturar a realidade chinesa sem grandes complicações.

O Desafio Literário de Xinran prossegue na próxima quinta-feira, dia 23, com a análise crítica de “Mensagem de Uma Mãe Chinesa Desconhecida” (Companhia das Letras), coletânea de crônicas de 2010. Vejo vocês nos próximos posts do Bonas Histórias. Até lá!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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