• Ricardo Bonacorci

Livros: Compre-me o Céu – As crônicas de Xinran sobre a Política de Filho Único da China


O sexto e último livro que li para o Desafio Literário de agosto foi “Compre-me o Céu” (Companhia das Letras), a mais recente obra de Xinran. Nesta coletânea de crônicas, a escritora chinesa aborda as consequências da implantação da Política de Filho Único em seu país natal. A partir do ponto de vista de famílias e de indivíduos verídicos, Xinran mostra relatos do que é viver em lares sem irmãos, com pais superprotetores, em uma sociedade hipercompetitiva e com grande disparidade econômica entre a vida na cidade e no campo. Assim, temos um belo e sensível panorama do que acontece hoje em dia na nação mais populosa do mundo.

Publicado em 2015, “Compre-me o Céu” nasceu das dúvidas de Xinran sobre como era o cotidiano da nova geração de chineses adultos. Próxima de atingir 60 anos de idade, a escritora queria entender como homens e mulheres nascidos entre 1979 e 1984, a primeira leva de crianças afetadas pela Política de Filho Único imposta pelo governo federal, e os jovens nascidos de 1985 a 1990, a segunda geração, pensavam e agiam. Para se conectar com essa galerinha que tinha a idade do seu filho, Xinran usou tanto entrevistas coletadas em suas viagens à China quanto de suas experiências pessoais na Inglaterra, país onde vive desde 1997.

O resultado é um livro de quase 350 páginas, o segundo mais volumoso da carreira da escritora - o primeiro é “Testemunhas da China” (Companhia das Letras), com quase 500 páginas. Vale a pena lembrar que as publicações da chinesa têm um tamanho médio de 280 páginas. Por isso, esta foi a única obra de Xinran que não consegui ler em um único dia. Precisei do final de semana inteiro para concluí-la. Comecei a leitura no sábado e só a terminei no domingo à noite.

“Compre-me o Céu” possui dez crônicas. Cada uma delas enfoca uma personagem verídica. São homens e mulheres chineses que tinham, na época do lançamento do livro, entre 25 e 36 anos. Para não expor a privacidade de ninguém, a autora aplicou um recurso usado em todos os seus livros anteriores: alterou os nomes dos citados. Assim, não haveria constrangimentos nem reclamações posteriores.

Na introdução, Xinran explica o motivo do título da obra. Em uma viagem ao seu país natal em 2010, ela se deparou, enquanto passeava pelas ruas de Harbin, uma das cidades mais internacionais da China, com uma cena insólita. Uma menininha de cinco ou seis anos de idade era cortejada por uma comitiva de pessoas de três gerações da sua família. A garotinha era o centro das atenções dos seus familiares e, evidentemente, estava sendo muito mimada por todos. A surpresa maior ocorreu quando ao se aproximar do grupo, Xinran ouviu a menina pedir: “Mamãe, quero o rio, me compre o rio!”. Sua voz era de imposição de quem nunca ouvira um não na vida. Os adultos presentes ficaram em dúvida. Como dizer àquela preciosa menina que não era possível adquirir um rio só para ela? No meio do debate acalorado dos familiares sobre o que fazer, a menina voltou a falar. Todos se abaixaram para ouvi-la. “Então, quero comprar uma estrela no céu!”. Ela já se cansara do rio e agora almejava possui algo no céu. De maneira sucinta, essa historinha resume como se comporta boa parte da geração chinesa de filho único.

No primeiro capítulo, conhecemos Du Zhuang. O rapaz é filho de um dos maiores industriais do país, um grande amigo de Xinran. Quando o pai de Du Zhuang passou a enfrentar problemas políticos na China (algo corriqueiro em se tratando de uma nação pouco democrática), ele pediu que a escritora abrigasse em sua casa em Londres o filho, então com vinte e poucos anos. Assim, Du Zhuang deixa às pressas a casa dos pais, onde sempre viveu, e foi morar com a amiga da família na Europa. Quando o rapaz chegou, Xinran se assustou. Mesmo formado em economia e sendo um adulto, Du Zhuang se comportava como uma criança muitíssimo mimada. Ele não sabia fazer absolutamente nada. Ele não imaginava como se abria a mala de viagem, não sabia arrumar suas roupas nos cabides, não entendia como ir à geladeira para pegar os alimentos que desejasse, etc. De tão paparicado pela mãe, o rapaz jamais havia feito qualquer coisa que não fosse estudar. Este é o relato mais impressionante do livro.

Nos capítulos seguintes, conhecemos outros jovens adultos dessa geração: Andorinha Dourada, Asa, Lírio, Lua, Brilhante, Lenha, Cintilante, Peixe Voador e Guihua. Andorinha Dourada foi uma moça que Xinran conheceu, em 2002, em um hotel na Nova Zelândia. De tão oprimida pela família na China, a moça aproveitou um intercâmbio no exterior para cortar relações com seus pais. Estagiando no hotel, Andorinha Dourada estava sofrendo por não conseguir fazer nada o que lhe era pedido. Ela era uma negação como funcionária, pois não sabia fazer as tarefas mais simples do cotidiano. Assim, ela vivia um drama pessoal: não queria voltar para a casa dos pais onde seria excessivamente paparicada e também não estava contente por ser tão maltratada no exterior.

O sofrimento dessa geração de chineses não se restringe à inabilidade das tarefas corriqueiras. Eles têm dificuldade para se relacionar com pessoas fora de casa, de namorar, de administrar seu dinheiro e de compreender os elementos mais simples das emoções humanas. Talvez o caso mais emblemático seja o de Yao Jiaxin. Na noite de 20 de outubro de 2010, Yao Jiaxin, um estudante de 21 anos de Xian, saiu de casa com o carro para visitar sua namorada. No caminho, acabou atropelando uma trabalhadora de 26 anos. Na hora, o rapaz fugiu apavorado. Depois de refletir um pouco, ele retornou ao local do atropelamento. Sua preocupação era que a mulher identificasse o número da placa do seu carro, o que iria gerar uma multa elevada para a família do estudante. Com esse temor em mente, Yao Jiaxin pegou a faca que usava para descascar frutas e deu oito punhaladas no peito da trabalhadora que ainda estava caída no chão. Pronto, o problema dele estava aparentemente resolvido. A mulher morta jamais poderia acusá-lo de atropelamento.

“Compre-me o Céu” é um bom livro. Suas histórias são comoventes, dramáticas e surpreendentes. Contudo, se comparado a “Boas Mulheres da China” (Companhia das Letras) e a “Mensagem de uma Mãe Chinesa Desconhecida” (Companhia das Letras), por exemplo, ele é inferior. Seu principal defeito é tornar-se um pouco repetitivo. Depois de lida três ou quatro crônicas (capítulos), já é possível prever o tipo de vida e de complicações dos jovens adultos chineses. Nesse sentido, o livro só tem uma guinada radical. Ela acontece no último capítulo, quando a autora aborda a realidade dos chineses vindos do interior do país. Talvez o que tenha faltado aqui foi uma síntese maior. O livro é aparentemente mais extenso do que o necessário.

Outro ponto que não gostei foi a insistência de Xinran de debater o crime e o julgamento de Yao Jiaxin com todos os protagonistas das crônicas. Se no final de 2010 e no início de 2011, a China inteira debatia o caso do estudante que matara friamente uma trabalhadora na rua de Xian, hoje em dia essa questão não é relevante para os leitores internacionais (muito provavelmente, nem para os chineses). Porém, todos os capítulos do livro terminam com as opiniões das personagens principais das crônicas sobre Yao Jiaxin. Além de não fazer mais sentido, esse debate é cansativo e um tanto vazio (Yao Jiaxin é mais um psicopata do que um exemplar típico da juventude chinesa).

Se por um lado temos esses pequenos probleminhas de ordem narrativa, por outro, temos vários pontos positivos. A maneira de Xinran escrever é magnífica. Ela conta cada história com muita sensibilidade, lirismo e força dramática. A contextualização de cada crônica é maravilhosa. A impressão é que estamos ouvindo a autora contar um pouco de sua vida e sobre as pessoas que conheceu ao longo desses anos todos. O trabalho de escolha das histórias narradas foi muito bem-feito.

A escolha temática também foi acertada. Se nos livros anteriores, a autora passou rapidamente pela questão dos filhos únicos na China, aqui ela mergulha com tudo nesse assunto. Ao final da coletânea de crônicas, o leitor estrangeiro tem uma nítida noção da realidade vivenciada por esses jovens adultos desde a infância. O problema que aparentemente era de ordem individual e familiar ganhou maiores proporções nos últimos anos, se transformando em um drama coletivo da sociedade chinesa.

Ler Xinran é sempre uma tarefa agradável e enriquecedora. Até mesmo quando ela não apresenta o seu melhor trabalho, ainda sim saímos boquiabertos com a beleza e a força de suas narrativas. Agora é esperar para ver qual será o novo livro da escritora. Admito que estou aguardando ansioso o seu próximo lançamento.

O encerramento do Desafio Literário de agosto será feito na próxima sexta-feira. Retorno ao Bonas Histórias no último dia do mês para apresentar a conclusão sobre a literatura de Xinran, a principal escritora chinesa da atualidade. Não perca!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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