• Ricardo Bonacorci

Livros: O Estrangeiro – A novela mais famosa de Albert Camus


O Desafio Literário de setembro começa justamente com a análise da obra ficcional mais famosa de Albert Camus, o autor que será estudado pelo Bonas Histórias nas próximas quatro semanas. “O Estrangeiro” (Record) não é apenas o livro mais importante da carreira do escritor francês nascido, em 1913, na Argélia. Ele também é considerado pela maioria dos críticos literários como um dos principais títulos da literatura universal. O jornal francês Le Monde, por exemplo, o colocou na posição número 1 de obra mais influente do século XX, à frente de clássicos como “Em Busca do Tempo Perdido” (Globo), de Marcel Proust, “O Processo” (Companhia das Letras), de Franz Kafka, “O Pequeno Príncipe” (Agir), de Antoine de Saint-Exupéry, “As Vinhas da Ira” (BestBolso), de John Steinbeck, “O Nome da Rosa” (Record), de Umberto Eco, etc. A revista brasileira Bravo, em 2007, foi mais sensata e listou “O Estrangeiro” como a vigésima sexta trama ficcional mais relevante da história. Independentemente de sua posição nessas listas, fica nítida a importância desta publicação para a literatura ocidental.

“O Estrangeiro” é a novela filosófica de Camus produzida em meio ao horror da Segunda Guerra Mundial. Neste livro, o escritor franco-argelino mistura críticas sociais e análises negativistas sobre o caráter humano a uma trama psicológica densa. Assim, temos a exposição do lado sombrio da alma dos homens e do mundo construído por eles. O protagonista desta narrativa é um rapaz inerte e insensível. Nada parece capaz de emocioná-lo, seja positiva ou negativamente. A morte da mãe, o casamento com uma linda namorada, o espancamento de uma mulher pelo amante, a liberdade de um cachorro, o assassinato banal de um jovem, a promoção no emprego e a condenação à morte são encarados como eventos banais por sua mente anestesiada.

Publicado em 1942, “O Estrangeiro” integra a trilogia de Albert Camus sobre o absurdo. Composta também por “O Mito de Sísifo” (Record), ensaio de 1942, e “Calígula” (Alianza), peça teatral de 1941, essa coletânea discute questões existencialistas através da exposição do absurdo. Ficam nítidos nesses trabalhos camusianos a crítica ao totalitarismo, o pessimismo exagerado, o vazio da condição humana, a brutalidade do mundo, a desilusão com a religião e a precariedade da alma humana. Esses elementos são, obviamente, influências diretas de um dos períodos mais sombrios da história humana, o do Entre Guerras. Em 1967, esta história ganhou uma adaptação cinematográfica. O longa-metragem foi dirigido pelo italiano Luchino Visconti (não confundir com um filme homônimo lançado em 2017, este baseado em um romance do britânico Stephen Leather).

De certa maneira, naquele momento, Albert Camus se alinhava aos conceitos existencialistas de Jean-Paul Sartre, por mais que negasse isso depois. Os dois autores franceses se tornaram amigos por causa da publicação de “O Estrangeiro”. Sartre escreveu uma crítica muito elogiosa sobre a novela de Camus em um jornal parisiense, dizendo desejar conhecer o autor desta incrível narrativa. Assim, quando os dois se encontraram em uma festa, Camus fez questão de se apresentar ao autor de “O Ser e o Nada” (Vozes). Era o início de uma grande amizade que seria rompida na década seguinte por desavenças conceituais e ideológicas.

O motivo da briga entre eles foi o lançamento de “O Homem Revoltado” (Record), livro de Camus de 1951. Nesse ensaio, Albert afirmava que a única saída ao absurdo da condição humana era a revolta individual e não a coletiva, como proposto anteriormente por Sartre, partidário das crenças socialistas. Depois disso, os dois escritores nunca mais quiseram se falar. E há quem ache que as discussões políticas e ideológicas protagonizadas atualmente pelos brasileiros nas redes sociais, capazes de abalar amizades antigas, sejam eventos exclusivos do nosso tempo. Infelizmente, a intransigência à opinião discordante é um fenômeno muito antigo e presente em diferentes sociedades.

“O Estrangeiro” foi traduzido para meia centena de idiomas e continua sendo, ainda hoje, vendido em boa parte das livrarias dos países ocidentais. Quando Albert Camus recebeu o Nobel de Literatura, em 1957, ele foi apresentado pela Academia Sueca como o autor que produziu “O Estrangeiro”, desde aquele momento uma obra pertencente aos cânones. Ou seja, esta obra foi um divisor de águas na carreira do escritor franco-argelino. Fica difícil dizer se Camus seria condecorado com o prêmio máximo da literatura se não tivesse escrito esta novela. Porém, é inegável a sua elevação ao patamar dos grandes nomes da literatura a partir desta produção.

O enredo de “O Estrangeiro” se passa na Argélia, nesta época uma das principais colônias francesas da África. Meursault é o protagonista e narrador desta trama. O rapaz é um escriturário pacato e bastante calado. Ele leva uma vidinha sem qualquer emoção em Argel, a capital do seu país. Seu relato começa com o recebimento de um telegrama informando que sua mãe morreu. A senhora morava em um asilo em Marengo, cidade a oitenta quilômetros de Argel. Ela fora colocada neste lugar afastado pelo filho, que achava um fardo muito grande ter que cuidar de uma mulher idosa.

A mensagem do falecimento da mãe não tira Meursault do seu marasmo típico. Mesmo assim, o jovem decide participar do velório e do enterro em Marengo. Para isso, viaja de ônibus para o interior do país. Lá, ele surpreende a todos, do porteiro ao diretor do asilo, por não chorar e, principalmente, por não ficar triste com o ocorrido. Sua desculpa é o cansaço pela viagem, que o deixou paralisado emocionalmente. De maneira fria, ele age como se nada de especial tivesse ocorrido.

De volta a Argel, Meursault retoma rapidamente sua vida regular. Em questão de horas, o rapaz esquece completamente da mãe. Ele inicia um relacionamento amoroso com Maria Cardona, uma antiga colega de trabalho. O casal vai ao cinema assistir a uma comédia já no dia seguinte ao enterro da mãe de Meursault. O protagonista da novela também faz amizades com dois vizinhos, Raimundo Sintès, um cafetão violento e desequilibrado emocionalmente, e Salamano, um senhor idoso que maltrata seu cão.

Algumas semanas mais tarde, a rotina de Meursault é quebrada por uma viagem de final de semana à praia. O rapaz viaja de ônibus com Maria e com Raimundo. A ideia do trio é passar uma tarde tranquila à beira-mar. Entretanto, Raimundo acaba envolvendo-se em uma briga feia com antigos inimigos de Argel, que o seguiram. Depois da confusão, Meursault decide caminhar sozinho pela praia. Durante o passeio, o jovem entra em delírio causado por uma insolação e acaba assassinando a tiros o desafeto de Raimundo. Preso em flagrante, Meursault é enviado para uma penitenciária até o julgamento do seu caso.

Na prisão, ele se comporta naturalmente, como se nada de especial tivesse sucedido. Sua frieza chama novamente a atenção de todos. O narrador da novela não entende o desespero do seu advogado nem a preocupação do promotor. Rapidamente ambientado à rotina do cárcere, ele passa os dias alegremente, sem temer seu futuro e sem se arrepender dos seus atos passados.

“O Estrangeiro” é um livro curtinho. Ele tem pouco mais de 120 páginas. É possível lê-lo de uma vez só. Não gastei mais do que três horas para concluí-lo de ponta a ponta nesta antevéspera de feriado. A obra mais famosa de Albert Camus tem duas partes. Na primeira, acompanhamos a rotina de Meursault até o assassinato perpetrado na praia. Na segunda parte, o narrador-protagonista relata os dias passados na prisão e a espera pelo julgamento. Se a banalidade do cotidiano de Meursault deixa a primeira metade do livro um pouco lenta e com um tom enfadonho, os capítulos da metade final mergulham na complexidade psicológica da personagem principal. Aí temos, enfim, toda a profundidade dos conceitos de Albert Camus, o que deixa a novela mais interessante para o leitor.

Em “O Estrangeiro”, temos a teoria do Absurdo apresentada por meio de uma prosa ficcional. Nela, a existência humana é desprovida de sentido, de lógica e de propósito. A vida do homem é, na verdade, um grande vazio existencial, por mais curiosas que sejam as interpretações que se possam dar a ela. Daí surge a angústia, um sentimento inevitável do ser humano crente da sua inutilidade e da busca em vão por um motivo para viver. Segundo Albert Camus, o absurdo nasce do paradoxo de procurar uma razão em algo que não possui qualquer sentido.

Outra questão que chama a atenção nesta novela é o caráter inconsciente do crime praticado por Meursault. Ele matou um homem sem um motivo lógico. Agindo por impulso, como se a vida humana não valesse muita coisa, ele assassina friamente o inimigo de Raimundo. Tão impressionante quanto a frieza do ato em si é a maneira como o protagonista sempre encarou sua vida. A existência de Meursault é pautada pela apatia e pelo imobilismo. Nada é capaz de emocioná-lo, nem positiva nem negativamente. Sua vida é um fardo que ele carrega independentemente dos acontecimentos e do ambiente externo. Isso fica evidente em vários momentos da narrativa. Tanto a morte da mãe como a possibilidade de ser condenado à morte não o entristecem. Por outro lado, quando patrão o convida para se mudar para Paris ou quando Maria cogita se casar com ele, Meursault não esboça qualquer alegria.

A construção da personagem principal de “O Estrangeiro” é espetacular. Meursault (não sabemos seu nome, apenas seu sobrenome) é uma figura contraditória e bastante polêmica. A narrativa em primeira pessoa lhe é nitidamente favorável. O leitor acaba sentindo uma empatia natural pelo rapaz, por mais absurdos que sejam seus comportamentos e reflexões. Muito provavelmente isso não seria capaz de acontecer em um texto em terceira pessoa.

Meursault nos faz recordar duas personagens de Fiódor Dostoiévski: Rodion Raskólnikov de “Crime e Castigo” (Editora 34) e o narrador anônimo de “Memórias do Subsolo” (Editora 34). A diferença é que o protagonista de “O Estrangeiro” não sofre de dor de consciência como Raskólnikov nem é retratado com tintas tão negativas como a personagem principal de “Memórias do Subsolo” (curiosamente, uma narrativa também em primeira pessoa).

De forma geral, Meursault simboliza a crise do homem da metade do século XX, uma pessoa apática, sem um propósito claro de vida, descrente em relação às instituições políticas, religiosas e sociais, sem sentimentos claros aos humanos (como compaixão e empatia, por exemplo) e desiludido quanto ao futuro. Mesmo assim, no final das contas, o protagonista da novela desponta como uma figura positiva aos olhos do incrédulo leitor, capaz de se purificar frente a cólera da vida e de ver alguma beleza em sua existência rudimentar. Essa questão fica mais nítida no desfecho da trama.

Apreciei também o humor que tangencia todo o livro de Albert Camus. São vários os momentos hilários em “O Estrangeiro”: o julgamento não se atém aos fatos do crime e sim ao comportamento social do acusado; a indignação do promotor ao saber que o preso não acreditava em Deus é maior do que a falta de um motivo para o assassinato; e a ausência de sexo na cadeia incomoda mais Meursault do que a falta de liberdade. Camus consegue construir um texto profundo e inteligente com sagacidade, quebrando com bom humor parte do drama da sua história (algo que faltou, por exemplo, nos livros de Dostoiévski citados no parágrafo acima).

A reflexão entre a liberdade e a condição humana marcou o pensamento existencialista europeu na primeira metade do século passado. Por isso, a importância de “O Estrangeiro”, ainda hoje um título clássico da literatura francesa e universal. O texto desta novela, assim como o conteúdo de quase todas as obras de Camus (principalmente seus romances e novelas), mistura trechos de uma narrativa ficcional com as observações filosóficas sobre a essência e o caráter dos homens. Dessa forma, é aconselhável realizar esta leitura com a atenção redobrada. Apesar de não ter um texto difícil à primeira vista, este livro possui muitas nuances que, muitas vezes, só são perceptíveis ao leitor em uma segunda ou terceira leitura.

O Desafio Literário deste mês começou com tudo, hein? Acredito que não poderíamos ter uma obra melhor do que “O Estrangeiro” para iniciar a análise da literatura de Albert Camus. O segundo livro do autor francês que será comentado em setembro no Bonas Histórias é “O Mito de Sísifo” (Record), ensaio lançado no mesmo ano que “O Estrangeiro”. As duas publicações integram a trilogia do Absurdo. O post sobre “O Mito de Sísifo” estará disponível na próxima segunda-feira, dia 10. Não perca!

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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