• Ricardo Bonacorci

Contos: Paranoias Modernas - Em Pele de Onça


Era início de noite de lua cheia quando a doce e tímida Leonarda se recolheu aos seus aposentos. Ela precisava de um bom banho. O dia tinha sido agitado na fazenda: os trabalhadores colhendo a cana no campo, os feitores preparando a produção do caldo no engenho e o senhor tratando das preliminares da venda do açúcar. Cabia às funcionárias domésticas organizar a casa-grande para a recepção daquela noite. Todas estavam sob a supervisão da esposa do proprietário do latifúndio. Por isso, Leonarda estivera tão ocupada o dia inteiro. Os negociantes da metrópole eram os convidados do Sr. Ramires para o jantar que selaria a transação da última safra.

Ao se despir em sua suíte, Leonarda sentiu algo cair por entre suas roupas. Na hora, ela não viu o que era. Preferiu mexer nos cabelos loiros para soltá-los um pouco antes do banho. Somente quando chegou à porta do banheiro, notou que a carta que recebera de manhã estava no chão. Com as várias tarefas sob sua responsabilidade, Leonarda não pôde se ater à correspondência entregue pelo negro Pastorinho. Não havia mensageiro mais confiável do que seu velho amigo, sempre disposto a atender aos caprichos da moça de beleza felina. Os dois estavam juntos desde o nascimento dela em um isolado povoado do interior da província. Desde então, eram inseparáveis. O negro era uma mistura de servo e de tio adotivo da jovem, sempre disposto a orientá-la e a auxiliá-la no que fosse possível.

Quando Leonarda nasceu, coube a Pastorinho proteger aquele bebê misterioso e especial dos preconceitos dos colonos. Até aqueles dias, ele sempre desempenhou aquele papel com orgulho e disposição. Havia sido ele quem cuidara da pequena órfã nos seus primeiros anos de vida. Fora ele quem se esforçara para afastar a menina pobre e potencialmente perigosa dos olhares inquisitores dos habitantes do povoado. Ele sabia que ninguém a aceitaria se soubessem o que acontecia com ela durante as noites mais iluminadas do mês. Aquilo, com certeza, não devia ser obra divina. Os únicos que ofereceram algum abrigo e carinho à jovem foi um casal mameluco, conhecedor profundo das particularidades da mãe-natureza.

Quando os colonos descobriram a ferocidade de Leonarda, Pastorinho se encarregara de levar a moça, já adolescente, para bem longe do povoado natal. A vida da dupla se transformara, a partir daí, em uma constante migração de cidade em cidade. Isso até o casamento da loira com o Sr. Ramires. O matrimônio trouxe certa estabilidade para Leonarda e para seu fiel amigo. Os últimos cinco anos passados na fazenda canavieira eram, sem dúvida nenhuma, os melhores das vidas dos dois.

Ao abrir o envelope que passara o dia alojado em seu espartilho, a jovem esposa do Sr. Ramires ficou desesperada. Onde estavam os brincos de brilhante que lhe foram enviados?! Aquela joia era o único recurso que Leonarda tinha para ocultar sua verdadeira identidade. Os brincos foram mandados sigilosamente do seu humilde povoado natal e possuíam propriedades especiais. Ao colocá-los na orelha, a dama poderia se apresentar normalmente aos convidados do marido. Ela precisava usá-lo quando os relógios registrassem meia-noite. Entretanto, eles tinham sumido! No envelope, havia ficado apenas o bilhete: “Pra minha piquena jaguaretê, os brinco pra vosmecê ficar a mais bunita da festança. Com eles nas oreia, não precisa se preocupar com a iscuridão. Tia Sissê”.

Sr. Ramires estranhou a demora da sua jovem esposa. Ela lhe assegurara que compareceria ao jantar de negócios daquela noite, mas ainda não tinha deixado o quarto. Depois de tanto tempo casada, enfim ela concordara em aparecer a um evento noturno. As ausências da Sra. Ramires neste tipo de encontro já estavam provocando certo falatório na comunidade local. A questão só não havia se tornado mais crítica porque o casal era amável e muito cortês com todos, tendo adquirido um grande respeito das outras famílias ricas da província. Além disso, Sr. Ramires sempre se curvava às exigências da sua querida mulher, por mais esquisitas que elas pudessem parecer.

Aquela noite, contudo, seria diferente. Com a demora de Leonarda, coube ao marido ir buscá-la à força. Ela tinha que se apresentar aos convidados em sua própria casa. Sr. Ramires não iria aceitar, dessa vez, as extravagâncias da amada. Assim, Leonarda chegou à sala com as orelhas nuas e visivelmente incomodada com algo. Ela até tentou ser paciente e polida com os visitantes. Porém, à medida que a noite transcorria, a senhora se comportava de maneira muito estranha e nervosa. Era evidente que ela não queria estar ali. Parecia desejar fugir de uma tocaia preparada especialmente para abatê-la.

Às onze e meia da noite, Leonarda retornou apressada ao quarto, escapando da presença de todos. Sua saída gerou certo desconforto, pois a dama não se despediu nem pediu licença aos visitantes. A maioria achou que tivesse sido uma saída rápida da moça, que logo mais ela iria voltar para a sala.

Ao chegar ao seu quarto, a jovem senhora encontrou sua ama Mundé desfilando com os brincos diante do espelho. Surpreendida com o aparecimento da patroa, a empregada alegou que havia achado, naquela tarde, a joia no chão, caída em um canto da varanda principal da casa. Afirmou também que não iria devolver algo que lhe pertencia por justiça e sorte. Um brinco achado não podia ser tachado de roubado. A funcionária não se curvou aos apelos insistentes de Leonarda, desaparecendo da vista da patroa com as orelhas devidamente decoradas.

Na manhã seguinte, o negro Pastorinho correu até a casa-grande para dar a notícia: Mundé estava morta nos alojamentos dos empregados da fazenda. Uma onça havia atacado a ama de Leonarda e lhe arrancado as orelhas. Enquanto lavava as mãos de sangue, o fiel servo da Sra. Ramires explicava que ninguém havia encontrado o animal assassino.

Debruçada sobre o corpo do marido, Leonarda agradeceu mais uma vez ao velho e prestativo amigo pelos serviços executados. Ela aproveitou e prometeu ao Sr. Ramires que da próxima vez iria ficar até o final da noite junto aos convidados, sem desaparecer inexplicavelmente. Paciente, ele concordou.

De tão feliz que estava com o valor da safra vendida na véspera, o proprietário não se importou que a esposa ficasse mexendo sem parar no telefone celular durante o restante da manhã.

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Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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