• Ricardo Bonacorci

Livros: A Queda – A última novela de Albert Camus


Nessa semana, li “A Queda” (Record), o quinto livro de Albert Camus analisado no Desafio Literário de setembro. Última novela produzida pelo escritor e filósofo franco-argelino vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, “A Queda” foi concebido para ser um conto. A proposta é que sua história integrasse a coletânea de pequenas narrativas “O Exílio e o Reino” (Record). Contudo, o texto, inicialmente chamado de “Juízo Final”, foi crescendo, crescendo e crescendo. Esta trama foi escrita entre fevereiro e março de 1956. Ao atingir o tamanho de uma novela, já com um novo nome, “Ordem do Dia”, ficava claro para seu autor e para seu editor que esta história deveria ganhar uma publicação independente. E, assim, aconteceu. Em maio daquele ano, chegava às livrarias francesas “A Queda”, o título definitivo do livro. Curiosamente, a obra acabou sendo publicada um ano antes de “O Exílio e o Reino”, que estava sendo preparado há mais tempo.

Considerado pelos críticos literários como um desabafo de Albert Camus, “A Queda” é um monólogo em que seu narrador-protagonista apresenta uma retrospectiva de sua vida. Seu interlocutor é um desconhecido sentado na mesa do bar. Em meio aos relatos e aos devaneios da personagem principal, temos um debate filosófico com caráter autobiográfico. Curiosamente, a produção deste livro é vista como uma resposta de Camus aos críticos que foram impiedosos com sua publicação anterior, “O Homem Revoltado” (Record). A coletânea de ensaios de 1951 foi duramente atacada pelos filósofos e intelectuais franceses. As discussões saíram do campo ideológicos e avançaram para o campo pessoal. Segundo Camus, muitas pessoas passaram a desprezá-lo e renegá-lo depois deste livro. A briga mais famosa foi com Jean-Paul Sartre. Os dois, então amigos, nunca mais se falaram por discordância a respeito de “O Homem Revoltado”. Por isso, a necessidade consciente ou inconsciente de resposta do autor. Jean-Baptiste Clamence, o protagonista de “A Queda”, lembra em muitos momentos o próprio Albert Camus. Há quem diga que essa é a personagem mais autobiográfica do escritor francês.

Publicado em 1956, “A Queda” antecedeu em um ano a entrega do Nobel a Camus. Se o lançamento da novela o ajudou a amenizar as críticas, foi a honraria máxima da literatura a grande responsável por calar definitivamente as vozes opositoras. De repente, o trabalho do escritor deixou de ser contestado de maneira tão dura e injusta. Este livro também foi a última narrativa longa produzida por Albert Camus, que viria a falecer em 1960. Em uma viagem pelo interior da França, o automóvel em que estava saiu da pista e se chocou com uma árvore. O escritor tinha 46 anos.

“A Queda” é narrada em primeira pessoa por Jean-Baptiste Clamence, um advogado francês que passou a morar em Amsterdã após sofrer um colapso nervoso. Sua crise mental é de origem existencialista. Em outras palavras, um evento corriqueiro do passado despertou no rapaz uma profunda reflexão sobre sua vida. A partir de então, ele se transformou em um assíduo frequentador do Mexico-City, um bar localizado na região portuária e um tanto degradada da capital holandesa. Os clientes habituais do estabelecimento são marinheiros e pessoas humildes. Por isso, Jean-Baptiste se surpreende com a presença de um sujeito bem-apessoado e sozinho em uma das mesas. Imediatamente, ele se aproxima do novo visitante e puxa conversa. É o início de uma amizade que durará alguns dias.

O homem no bar é um advogado francês que está de passagem por Amsterdã. Nos demais dias em que o visitante permanece na principal cidade da Holanda, ele se encontrará diariamente com Jean-Baptiste. Nesses encontros, a dupla aproveita para conversar sobre suas vidas e para filosofar sobre a existência humana. Conversar, na verdade, é uma força de expressão, já que o único que parece falar é o Sr. Clamence. Pelo menos a novela de Camus registra apenas o que essa personagem diz, ocultando as poucas interrupções da outra personagem. Assim, o que temos de fato é um monólogo de Jean-Baptiste.

O narrador-protagonista irá, ao longo dos dias, contar um pouco de sua vida para o novo amigo. Ele diz como se tornou um conceituado e altruísta advogado em Paris. Fala da sua vontade patológica de ser bondoso com os necessitados. Confessa a dificuldade de se apaixonar por uma única mulher. Jean-Baptiste mergulha em suas experiências sexuais, relatando o período de orgias e de bebedeiras em que participou na capital francesa. Seus comportamentos erráticos e impetuosos acabaram levando-o a uma decadência moral e social. Era o início da crise profissional que o até então bem-sucedido advogado jamais havia imaginado que pudesse ocorrer com ele. Entre vários acontecimentos posteriores, ele é preso na Argélia, passa a evitar o contato com os homens (vivendo apenas entre as mulheres) e começa a morar na Holanda. Agora, diz atuar simplesmente como um juiz-penitente. O que seria um juiz-penitente? Jean-Baptiste passa a novela inteira tentando explicar esse conceito para o conterrâneo que o ouve atentamente.

Em meio aos relatos do protagonista, temos a apresentação dos conceitos filosóficos de Albert Camus. Essa é uma das marcas de sua literatura. O autor francês insere em meio à sua prosa vários princípios da sua teoria existencialista (que ele insistia em dizer que não eram existencialistas).

“A Queda” possui cinco capítulos e 110 páginas. Apesar de ser uma leitura difícil, é possível ler esta obra em uma única tarde. Foi o que fiz na última quinta-feira. Concluí a novela em pouco mais de quatro horas. O correto, para ser franco, seria ler mais uma ou duas vezes esta publicação. Acredito que uma única leitura não seja suficiente (pelo menos para mim não foi) para compreender a totalidade da filosofia proposta pelo autor.

E, por falar em filosofia, o texto de “A Queda” é, em parte, um resumo de tudo aquilo que Albert Camus abordou conceitualmente em seus ensaios anteriores, principalmente em “O Mito de Sísifo” (Record) e “O Homem Revoltado” (Record). Portanto, não espere encontrar grandes novidades teóricas aqui. O conceito do Absurdo e o da Revolta são os pontos culminantes dos debates existencialistas protagonizados por Jean-Baptiste Clamence, uma espécie de alter ego do escritor.

A principal diferença, nesse sentido, é a maior dose de melancolia e de pessimismo de Albert Camus na sua exposição teórica. O autor demonstra um grande desprezo pela sociedade e pelas relações humanas. Em sua concepção, a felicidade só pode ser alcançada quando o homem vive sozinho, longe dos seus semelhantes. É quase impossível concordar com seus pontos de vista. Por isso, o protagonista de “A Queda” me fez lembrar bastante o narrador enfezado e profundamente deprimido de “Memórias de um Subsolo” (Editora 34), obra pioneira de Fiódor Dostoièvski sobre o debate existencialista.

Para muitos biógrafos de Albert Camus, o texto de “A Queda” é o mais pessoal do autor. Nesta novela, ele apresentou de maneira mais direta seus dramas íntimos. Ou seja, o escritor não pensou duas vezes antes de canalizar toda a raiva e frustração para o seu texto. Vale a pena recordar que esta foi a época mais crítica da carreira de Camus. Contudo, sua ira não foi direcionada apenas para algumas pessoas (aquelas que o criticavam pesadamente), mas foi disparada contra toda a sociedade, em uma vingança coletiva. Assim, esta leitura ajuda a elucidar alguns dos mistérios da personalidade e do comportamento do filósofo francês. Olhar para Jean-Baptiste é, em certo ponto, ver o próprio Albert Camus.

Se esse lado autobiográfico instiga mais o leitor a prosseguir na leitura da narrativa, por outro lado, o texto de “A Queda” é o mais difícil de Camus (ao menos entre as cinco obras que li dele até aqui). Em algumas passagens, ele chega a ser quase que incompreensível. As questões mais difíceis de serem entendidas não são de ordem narrativa (a história em si é simples), mas sim a respeito dos debates filosóficos propostos por Jean-Baptiste Clamence. Não sei se o teor extremamente polêmico e pessimista das crenças da personagem principal tenha me feito não querer acreditar em suas palavras. Pode ser isso.

Três elementos desta novela de Camus me deixaram positivamente impressionado. O primeiro foi a dinâmica do monólogo. Diferentemente do que acontece nesse tipo de texto, “A Queda” não possui uma história parada nem monótona (muitas vezes, o sinônimo de monólogo pode ser entendido como monótono). Sua narrativa é até bastante dinâmica. Credito esse feito a maneira como o livro foi dividido. Em cada capítulo, o Sr. Clamence e seu amigo conversam em um ambiente diferente (no bar, na rua, na casa do protagonista, em passeios à beira-mar, etc.). Quem leu outros monólogos, por exemplo, “A Paixão Segundo G.H.” (Rocco), de Clarice Lispector, “Memórias de um Subsolo” (Editora 34), de Fiódor Dostoièvski, e “Os Cus de Judas” (Alfaguara), de António Lobo Antunes, em que esses textos permanecem fixos em um determinado ponto das narrativas, entenderá a minha felicidade pela agilidade produzida por Camus.

A segunda questão foi a brincadeira entre o que é verdadeiro e o que é falso no discurso do protagonista. O leitor fica em dúvida o tempo inteiro se Jean-Baptiste é tão medonho quanto está pintando ou se ele quer apenas impressionar negativamente seu interlocutor. Minha avaliação pessoal pende mais à segunda hipótese, apesar do desenlace da novela indicar, reconheço, mais para a primeira opção.

E, por fim, temos o humor inteligente. Camus é daquele tipo de escritor que mistura humor e drama, potencializando os dois. Adoro seu humor negro. Ele consegue fazer o leitor rir mesmo apontando o dedo para as feridas mais sensíveis da alma humana.

De maneira geral, “A Queda” é uma obra espetacular. Se não é possível entender todas as divagações filosófico-existencialistas trazidas ao texto por Albert Camus, ao menos mergulhamos em uma narrativa criativa e ousada. O leitor fica curioso para saber o que originou o surto psicótico em Jean-Baptiste e o que é esse tal de juiz-penitente que ele afirma ser agora. Além disso, achei o desfecho da novela incrível. O escritor conseguiu nos surpreender no último parágrafo. Gosto quando um texto aposta na inteligência do seu leitor e usa isso em prol da estética narrativa.

Em suma, a resposta para a pergunta se vale a pena ler este livro de Camus é um sonoro sim. Das narrativas ficcionais do autor francês, achei “O Estrangeiro” (Record) superior a “A Queda”. Porém, para mim, “A Queda” é um pouco superior (ou no pior dos casos está no mesmo patamar de) a “A Peste” (Record).

O Desafio Literário de Albert Camus continuará na próxima semana. Na quarta-feira, dia 26, vou analisar, no Bonas Histórias, “A Morte Feliz” (Record), o romance póstumo do escritor francês. Essa obra é considerada como o texto preparatório de “O Estrangeiro”, a publicação mais famosa de Camus. Não perca as etapas finais do Desafio Literário de setembro.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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