• Ricardo Bonacorci

Livros: A Morte Feliz – O romance póstumo de Albert Camus


Hoje, vamos analisar, no Bonas Histórias, a sexta e última obra de Albert Camus do Desafio Literário de setembro. O livro em questão é “A Morte Feliz” (Record), o único romance póstumo do escritor e filósofo franco-argelino. Escrita entre 1936 e 1938, esta publicação é uma espécie de esboço de “O Estrangeiro” (Record), o título mais famoso de Camus. Talvez a palavra mais adequada, nesse caso, não seja esboço e sim material preparatório. Foi a partir do desenvolvimento e da melhora do texto de “A Morte Feliz” (maturação é a palavra que me vem à mente) que nasceu, anos depois, a novela que consagraria definitivamente seu autor.

A relação entre “A Morte Feliz” e “O Estrangeiro” fica evidente nas incontáveis semelhanças de seus protagonistas, de suas personagens secundárias, de muitas de suas cenas, de vários dos ambientes retratados, de suas temáticas e de suas estruturas narrativas. Grande parte desses elementos se repete na trama dos dois livros. Não se trata aqui de mera coincidência. A impressão que se tem é que Albert Camus não quis publicar “A Morte Feliz” por considerá-lo uma obra inicial e não um romance pronto e acabado. Essa mesma avaliação tem o leitor que já leu os principais títulos do escritor. Este romance é sem dúvida nenhuma a obra mais fraca do portfólio literário de Camus. Foi essa a sensação que tive ao término desta leitura no último final de semana. Apesar da boa discussão filosófica proposta ao longo dos capítulos (como se atinge a felicidade?), a narrativa de “A Morte Feliz” é falha, monótona e limitada.

Exatamente por isso, a decisão de lançar este livro, em 1971, onze anos após o falecimento do autor, foi polêmica. Essa escolha foi da segunda esposa de Albert Camus, Francine. Ela encontrou, em 1961, duas versões diferentes de “A Morte Feliz” datilografadas entre os papéis do marido. Cada uma delas continha anotações, observações e acréscimos escritos à mão por Albert. A viúva pediu, então, que um terceiro texto fosse produzido por um editor. Na sua concepção, esse terceiro exemplar deveria reunir o melhor dos dois materiais anteriores deixados pelo seu marido. Assim, surgiu a versão que temos hoje do romance. Ou seja, o texto final desta obra não teve a anuência de Albert Camus. Na certa, ele jamais permitiria essa publicação. Afinal de contas, quem aceitaria a divulgação de uma trama inacabada e que foi usada como alicerce para a produção de outra narrativa?

Se “A Morte Feliz” não vale a leitura como romance, ao menos seu material é interessante para o estudo do fazer literário. É muito legal ver como Albert Camus iniciou esse texto e, anos depois, estruturou “O Estrangeiro”, essa sim a versão final e acabada desta trama. Ficam nítidas durante a leitura de “A Morte Feliz” as opções narrativas feitas pelo seu autor no livro posterior: melhor desenvolvimento das personagens, estruturação definitiva do protagonista, alteração do foco narrativo (da terceira para a primeira pessoa), exclusão de ideias que não funcionaram, inversões da ordem cronológica da história, manutenção de cenas que deram certo, etc. Portanto, é bem provável que o livro interesse mais aos escritores ficcionais do que ao público leitor.

O enredo deste livro começa em Argel, a capital da Argélia. Patrice Mersault (repare que aqui o protagonista tem um primeiro nome; em “O Estrangeiro”, ele é apresentado apenas pelo sobrenome) é um funcionário administrativo de uma empresa encarregada dos trâmites burocráticos no porto da cidade. Forte, bonito e saudável, Mersault leva uma vida humilde e melancólica. Mesmo tendo uma namorada bonita, Marthe, e não passando grandes necessidades materiais, o rapaz se recente da falta de tempo. Seu trabalho diário no escritório o consome excessivamente, não o deixando viver plenamente. Por isso, ele reclama da banalidade e da superficialidade de sua existência. Em sua concepção, sua rotina pobre e sem emoção é fruto da falta de dinheiro (que provoca a escassez de tempo).

A rotina de Patrice se transforma quando ele rouba e mata Zagreus, um ex-amante de Marthe com quem ele estabeleceu uma forte amizade. Zagreus sofreu um grave acidente há alguns anos e teve suas duas pernas amputadas. Por isso, vive recluso em sua casa, lendo muito e procurando sair o menos possível do lar. Os poucos que o visitam são Marthe e Patrice. Em uma conversa corriqueira, Mersault descobre que o deficiente físico tinha uma fortuna guardada no cofre de sua casa. Além da bolada em dinheiro, no cofre havia uma arma de fogo e uma carta informando o motivo do possível suicídio do seu proprietário. Zagreus escreveu a carta, mas jamais teve coragem para seguir em frente no plano de tirar sua própria vida. Afinal de contas, para que se matar se ele se sentia feliz?

Curiosamente, Zagreus é uma personagem totalmente oposta a Mersault. Com muito tempo disponível e sem problemas financeiros, ele vive plenamente, apesar das limitações físicas e do isolamento residencial. Mersault atribui essa situação à riqueza de Zagreus. Em sua crença, um homem rico tem mais chances de ser feliz, mesmo sem as pernas, do que um homem pobre e com o corpo íntegro. Paradoxalmente, apesar da fortuna, Zagreus parece viver de maneira simples.

Ao saber da existência e do conteúdo do cofre na casa do amigo, Mersault entra no lar de Zagreus, dias depois da conversa reveladora, para roubá-lo. Ele abre o cofre, pega a arma e mata Zagreus à sangue frio com um tiro no rosto. Antes de sair dali com o dinheiro em uma mala, o assassino ainda se preocupa em simular um suicídio, montando um cenário no qual o deficiente físico teria se matado.

A polícia acaba caindo no truque e, em algumas semanas, ninguém mais pensa naquela morte. O crime praticado não causa qualquer transtorno na consciência de Patrice. Prova disso é que no retorno à sua residência, o assassino dorme tranquilamente. O único contratempo é um forte resfriado que ele pega, que o incomodará por várias semanas.

A partir do assassinato/roubo, Patrice Mersault se torna efetivamente um homem rico. Seus problemas de falta de tempo estão terminados. Ele deixa de trabalhar, termina o namoro com Marthe e passa a viajar pela Europa. Seu objetivo é se tornar, assim, um homem feliz. Para tal, acredita que não poderá criar vínculos sociais com ninguém. A felicidade está em uma vida solitária e sem amarras. Pela primeira vez na vida, o protagonista do romance se sente livre. A liberdade plena é o caminho de sua realização pessoal.

À medida que o tempo passa, Patrice Mersault começa a sentir falta dos antigos amigos e de sua terra natal. Ao voltar para a ensolarada Argel, ele vai morar com um trio de amigas: Rose, Claire e Catherine. O grupo mora em uma residência apelidada sugestivamente de Casa Diante do Mundo. Quando se interessa por Lucienne Raynal, uma bonita moça que ele conheceu por acaso, Patrice terá de escolher: viver sozinho novamente ou morar junto com a nova namorada? Uma decisão aparentemente simples se torna uma questão complexa para um homem atormentado pela necessidade patológica de ser feliz. Conseguiria ele ser plenamente realizado ao lado de uma única mulher para o restante de sua vida?

“A Morte Feliz” é um romance curto. Ele tem pouco mais de 150 páginas. É possível lê-lo em uma única tarde. A obra é dividida em duas partes, cada uma com cinco capítulos. Se a primeira metade do livro é instigante (afinal, procuramos descobrir os motivos do crime praticado por Mersault; o assassinato ocorre já no capítulo de abertura da publicação), a segunda metade é mais arrastada. Nessa segunda parte, as angústias existenciais da personagem principal depois de rica e o seu dia a dia pouco emocionante passam a imperar. Paradoxalmente, isso é o contrário do que ocorre em “O Estrangeiro”. Na novela mais famosa de Camus, o início aborrece um pouco por causa da banalidade do cotidiano e o final encanta o leitor pelo drama psicológico do protagonista.

Do ponto de vista narrativo, o principal problema de “A Morte Feliz” é a colocação do assassinato de Zagreus no primeiro capítulo. Com essa disposição fatual, o leitor passa a se preocupar mais com as causas da violência (como ocorre, por exemplo, em “Crime e Castigo”, clássico de Fiódor Dostoiévski) do que com as consequências do enriquecimento da personagem principal (objetivo central do debate filosófico proposto por Camus neste livro). Por isso, vemos com desinteresse toda a segunda parte do romance.

Além disso, há muitos saltos temporais ao longo da trama provocados pela antecipação do crime praticado por Patrine Mersault. Os quatro capítulos seguintes da parte I são constituídos de flashbacks. E na parte II, a ordem normal é retomada (ou seja, acompanhamos o desenrolar do assassinato). É um vai-e-volta desnecessário, que poderia ser resolvido com a colocação dos fatos na ordem cronológica dos acontecimentos (o assassinato no último capítulo da primeira parte). Albert Camus estava tão ciente disso que efetuou essa mudança em “O Estrangeiro”, dando uma dinâmica mais interessante à nova narrativa.

Por falar em “O Estrangeiro”, vale a pena o leitor reparar na quantidade absurda de semelhanças dessa novela com “A Morte Feliz”. O protagonista tem as mesmas características e o mesmo nome em ambos os livros. O mesmo ocorre com algumas personagens secundárias. Céleste é o dono do restaurante frequentado por Mersault nas duas histórias. Além disso, Marthe, “de A Morte Feliz”, e Maria Cardona, de “O Estrangeiro”, exercem o mesmo papel (antigas colegas de trabalho de Mersault que passam a namorá-lo). É possível também encontrar vários pontos em comum entre Cardona, “de A Morte Feliz”, e Salamano, de “O Estrangeiro”. Ambas personagens moram no mesmo prédio de Mersault, são idosos solitários e possuem uma forte ligação com seus cachorrinhos de estimação.

É engraçado ver que há cenas que são, se não idênticas, muito parecidas nas duas obras de Albert Camus. Isso fica evidente logo no segundo capítulo de “A Morte Feliz”, quando Mersault passa o domingo passeando pela cidade. Temos, assim, os comentários dos frequentadores da sessão domingueira de cinema, a comemoração dos jogadores/torcedores do time de futebol e os jovens se paquerando na praça. Para completar, o protagonista vai ao cinema com a nova e bonita namorada. Essa narrativa é encontrada nos capítulos iniciais de “O Estrangeiro”, exatamente como aqui descrito.

Os estilos dos textos dos dois livros também são muito parecidos: Camus opta por descrever as banalidades dos cotidianos dos protagonistas para expor, depois, as complexidades de suas angústias psicológicas. Ele também aborda cada aspecto da narrativa e cada diálogo travado pelas personagens por um viés profundamente filosófico. Assim, em muitos momentos, não é fácil acompanhar esta leitura. Ler Camus não é algo simples nem uma tarefa recreativa. É necessário atenção e esforço por parte do leitor para compreender até onde o escritor quer chegar com suas exposições e divagações existencialistas.

As principais diferenças entre as obras são quanto à temática do debate filosófico proposto pelo autor e em relação ao tipo de narrador. Se em “O Estrangeiro” temos uma discussão do pensamento e do homem absurdo, em “A Morte Feliz” temos a reflexão do que traz felicidade ao homem moderno. Apesar de sutil, é uma diferença considerável. Quanto ao narrador, o texto em primeira pessoa de “O Estrangeiro” torna a narrativa mais dramática e forte do que o ponto de vista em terceira pessoa de “A Morte Feliz”.

Por fim, vamos comparar os mundos de Patrice Mersault. Na parte I, ele vive melancólico por se sentir em uma prisão existencial. Mesmo tendo saúde, trabalho e uma mulher, ele se recente de não ter tempo e dinheiro. Na parte II, é o contrário. Mersault se sente aliviado e livre. Isso porque agora tem tempo e dinheiro. A falta de saúde, trabalho e mulher parecem não o incomodar. Assim, sua felicidade é, enfim, alcançada.

De maneira geral, não recomendaria a leitura de “A Morte Feliz” para quem não se interessa por estudar a evolução narrativa dessa trama. Se você quer ler Albert Camus, vá direto para “O Estrangeiro” e se divirta com a versão definitiva dessa história. É bem melhor do que ficar patinando em um texto experimental e inconcluso (que o próprio autor achou por bem não publicar).

Com o término das análises individuais dos livros de Albert Camus, é chegado o momento de montarmos o perfil estilístico do escritor franco-argelino. Por isso, no próximo domingo, dia 30, retorno ao Bonas Histórias para divulgar o último post deste Desafio Literário. Depois de conhecermos profundamente seis das principais obras de Camus, será possível apontarmos as principais características da literatura camusiana. Não perca a última etapa deste estudo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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