• Ricardo Bonacorci

Livros: Pacto Sinistro – O romance de estreia de Patricia Highsmith


Em março de 1950, Patricia Highsmith estreava nas narrativas longas com “Pacto Sinistro” (Nova Fronteira), um romance policial noir. Até então, a escritora norte-americana só havia publicado alguns contos em revistas literárias. A maioria dessas pequenas histórias era constituída de tramas criminais, um gênero que se transformaria ao longo da carreira de Highsmith em sua especialidade.

A recepção de “Pacto Sinistro”, em um primeiro momento, foi modesta nas livrarias da América do Norte. Contudo, um leitor em particular acabou adorando o livro da jovem romancista. Este leitor era ninguém mais, ninguém menos do que Alfred Hitchcock. O cineasta britânico comprou os direitos da obra alguns meses após o lançamento do romance e iniciou quase que imediatamente as gravações do filme.

O longa-metragem “Pacto Sinistro” (Strangers on a Train: 1951) chegou às telonas um ano depois do lançamento do livro e se tornou um dos maiores sucessos da carreira de Hitchcock. A partir do êxito desta história no cinema, o público passou a ver com outros olhos a obra de Patricia Highsmith. Em pouco tempo, o livro não apenas tinha sua primeira edição esgotada nas livrarias como se tornaria, alguns anos depois, um clássico dos romances policiais norte-americanos.

A trama deste romance começa com o encontro casual de Guy Daniel Haines e Charles Anthony Bruno em um vagão de trem. Guy é um arquiteto do Texas que vive um momento favorável na carreira. Contudo, na vida pessoal, o rapaz de 29 anos tem alguns dissabores. Miriam, sua esposa (esposa no papel, pois eles não vivem juntos há um bom tempo), não quer assinar o divórcio. A moça de 22 anos espera que o marido cresça ainda mais na profissão e ganhe muito dinheiro. Só assim, ela aceitará a separação, o que lhe renderá uma rescisão matrimonial polpuda. Para desespero de Guy, ele já está noivo de Anne Faulkner, enquanto Miriam está grávida do seu atual namorado.

Charles Bruno, por sua vez, é o filho único de um rico empresário de Nova York, Samuel Bruno. Alcóolatra, mimado pela mãe e bipolar, Charles é um rapaz que nunca trabalhou na vida e que vive às custas do pai. O rapaz de 25 anos odeia seu pai por ele ser contra esse estilo de vida fútil e adora a mãe pois ela permite que ele faça o que bem deseja.

No trem, Bruno é extremamente indelicado e força uma aproximação com Guy. Assim, os dois homens que eram até então desconhecidos começam a conversar sobre suas vidas. Bruno afirma que deseja matar seu pai. O herdeiro dos Bruno não aguenta mais viver com o pai renegando dinheiro para ele. Já Guy lamenta a decisão de Miriam em não lhe conceder o divórcio. O arquiteto imagina que a ex-esposa só irá assinar os papéis se receber uma boa grana.

Diante desse cenário, Bruno tem uma ideia aparentemente genial. E se eles assassinassem o desafeto um do outro? Como eles são, a princípio, desconhecidos, ninguém iria conseguir relacionar os crimes. Trata-se de um crime perfeito. Assim, Bruno se livraria do pai e Guy não teria mais Miriam no seu caminho. O filho do milionário de Nova York faz a proposta para o arquiteto texano, mas Guy se revolta com o que ouve. Ele jamais faria uma atrocidade dessa. Indignado com o colega de trem, Guy passa a ignorar Bruno até desembarcar em sua estação.

Alguns dias depois da viagem, Guy Daniel Haines começa a receber cartas e telefonemas de Charles Bruno insistindo na proposta. O arquiteto recusa todas as investidas do maluco. Mesmo assim, em certa noite, Bruno viaja a Metcalf e mata friamente Miriam. A polícia suspeita inicialmente de Guy, mas não há nada que possa incriminá-lo. No começo, Guy fica preocupado se aquela ação fora praticada por Bruno. Depois, ele tenta se convencer que talvez a morte de Miriam tenha sido provocada por um maníaco ou pelo namorado da jovem.

Algumas semanas mais tarde, Bruno visita Haines e confessa ter sido ele o assassino. Guy ameaça relatar o fato à polícia, mas Bruno não deixa. Se o nova-iorquino for incriminado, ele irá dizer que Guy fora o mandante do crime. Além do mais, se o arquiteto não fizesse a segunda parte do plano, matar Samuel Bruno, Charles iria dificultar o casamento do “amigo” com Anne Faulker, além de arruinar a próspera carreira do arquiteto.

Guy Daniel Haines fica em dúvida. O que fazer?! Assassinar o pai de Charles Bruno e viver sua vida como sempre sonhou ou se recusar a cometer tamanha atrocidade e perder a mulher e o trabalho que sempre almejou? A indecisão torna a rotina de Guy um inferno. Charles Bruno não irá descansar até que o “amigo” cumpra sua parte no plano traçado dentro do trem.

“Pacto Sinistro” tem aproximadamente 300 páginas. Seus capítulos são normalmente curtos, possuindo seis páginas em média. O ritmo do romance pode ser dividido em duas partes distintas. Na primeira metade da obra temos um thriller com muita ação e mistério. O que Guy fará? É essa a pergunta que ronda a cabeça do leitor curioso. Depois que o protagonista toma sua decisão, temos então um suspense psicológico. Essa é a característica da segunda parte do livro. O arquiteto passa a sofrer com sua escolha e a ser perseguido por um cada vez mais desequilibrado Charles Bruno.

Patricia Highsmith construiu uma obra-prima dos romances negros. “Pacto Sinistro” é um livro excelente, com alto nível de tensão e de suspense. É impressionante notar que este é o romance de estreia da norte-americana. Estreia! Se Patricia Highsmith já começou escrevendo assim, até onde ela poderia chegar? Deve ter sido essa a pergunta que os críticos literários da época se fizeram. Hoje em dia sabemos a resposta. “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), obra lançada cinco anos mais tarde, representou o ápice da carreira de Highsmith, um dos melhores romances noir de todos os tempos.

É verdade que não temos em “Pacto Sinistro” uma narrativa perfeita. A trama tem alguns pontos altos (principalmente na primeira metade) e alguns pontos baixos (a maioria na metade final). Curiosamente, essa oscilação é algo que se nota em outras obras de Patricia Highsmith.

Além disso, o ritmo do romance cai um pouco no terço final da trama. Nesse momento, a narrativa torna-se um pouco arrastada. Há também alguns erros de nomeação das personagens. Onde era para aparecer a palavra Guy vem escrito Bruno e onde era para estar escrito Bruno no texto vem a palavra Guy. Sinceramente, não sei se este é um erro da autora ou da equipe de tradução. Pela recorrência, achei que fosse um problema do texto original. Para completar, considerei o desfecho do filme de Alfred Hitchcock muito melhor do que o do livro de Patricia Highsmith (eles são diferentes).

Contudo, esses tropeços são quase que irrelevantes diante da força da história de “Pacto Sinistro”. O conflito que Guy Daniel Haines acaba vivenciando é maravilhoso do ponto de vista narrativo. Impossível o leitor não se solidarizar com o drama do texano. Em muitos momentos, a agonia do Sr. Haines é muito parecida a vivenciada por Rodion Românovitch, um dos mais famosos personagens de Fiódor Dostoiévski, protagonista de “Crime e Castigo” (Editora 34).

Se Guy é um excelente protagonista, Charles Anthony Bruno é um dos mais incríveis vilões dos romances policiais modernos. Não é possível gostar dessa personagem. O que faz “Pacto Sinistro” ser um livro tão bom é a aversão que Bruno causa nos leitores. Ele é arrogante, mimado, infantilizado e desprovido de compaixão ao próximo. Na maior parte do tempo, ele está bêbado e/ou age de maneira desequilibrada. Os únicos sentimentos positivos que ele nutre é o amor pela mãe e a admiração genuína por Guy, este sim um homem correto, trabalhador e honrado. Até mesmo essas paixões podem ser vistas de uma forma desvirtuada. O amor de Bruno pela mãe possui sim tons edipianos. Isso fica claro em algumas passagens sutis do romance. E a admiração de Charles Bruno por Guy poderia sim ter alguma conotação homossexual.

A própria sexualidade de Bruno é algo que pode gerar acalorados debates. O rapaz é apresentado muitas vezes como um homem assexuado. Ele afirma não gostar das mulheres (com exceção da mãe, por quem tem muito ciúmes) e não parece ter atração sexual por homens (apenas uma exagerada admiração por Guy). Nesses momentos, Charles Bruno lembra muito Tom Ripley, o protagonista de “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso). Ambos parecem não possuir qualquer desejo libidinoso.

Gostei muito de “Pacto Sinistro”. Este é o típico exemplar do romance negro em que torcemos para os assassinos se safarem. Por consequência, a polícia e os investigadores particulares responsáveis por elucidar as mortes são encarados pelos leitores como adversários do protagonista. Incrível essa mudança de valores que a literatura é capaz de fazer. Não por acaso, esta é uma das marcas estilísticas de Patricia Highsmith: seus heróis são normalmente os criminosos (e é por eles que torcemos).

Acredito que o Desafio Literário de outubro começou em altíssimo nível. O segundo livro que será analisado neste mês no Bonas Histórias é “Carol” (L&PM Pocket), romance de Patricia Highsmith publicado em 1953. Não perca os próximos passos deste Desafio Literário!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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