• Ricardo Bonacorci

Livros: Carol – A obra mais polêmica de Patricia Highsmith


Neste final de semana, li o livro mais polêmico da carreira de Patricia Highsmith. “Carol” (L&PM Pocket) é o romance lésbico da autora norte-americana. Nesta trama, uma jovem pobre de dezenove anos e uma socialite experiente se apaixonam depois de se conhecerem por acaso em uma loja de departamentos de Nova York. O relacionamento irá causar sérios problemas para as duas mulheres. Se hoje em dia uma história assim é vista com banalidade, no início da década de 1950, quando a obra foi lançada, a sociedade e o mercado editorial eram muito mais conservadores quando o tema era a homossexualidade feminina. Assim, a proposta de Highsmith de construir uma narrativa lésbica com um final feliz não deixava de ser inovadora e ousada.

Curiosamente, a escritora norte-americana sabia que estava produzindo um romance polêmico. Por isso, Patricia Highsmith não reconheceu, por muitos anos, a autoria desta obra. “Carol” foi publicado inicialmente com o título de “O Preço do Sal” em 1952. O nome da autora que estampava a capa do livro era de Claire Morgan, obviamente um pseudônimo. Demoraram-se quase quatro décadas para Highsmith admitir ser Claire Morgan. Quando isso, enfim, aconteceu, no final dos anos de 1980, a escritora já estava no final da carreira e era uma artista internacionalmente reconhecida. Ou seja, ela não tinha muito o que perder com a revelação. Foi apenas neste momento em que “O Preço do Sal” de Claire Morgan passou a ser publicado com o título de “Carol” e tendo a autoria de Highsmith.

Por que Patricia Highsmith levou tanto tempo para confessar ser a autora deste romance?! Uma possível explicação para essa demora está no grande teor autobiográfico da obra. Se admitisse que tinha escrito o livro, ela estaria automaticamente divulgando publicamente seu homossexualismo. Highsmith teve relacionamentos tanto com homens quanto com mulheres ao longo dos anos. Nas páginas de seus diários, a autora admitiu que os grandes amores de sua vida foram pessoas do seu sexo. Apesar de ir para cama com homens, ela nunca gostou verdadeiramente dos parceiros sexuais masculinos. Se no âmbito privado a preferência por relacionamentos lésbicos nunca pareceu ser um problema para Highsmith, divulgar isso aos quatro ventos na década de 1950 pareceu excessivo para uma escritora iniciante.

“O Preço do Sal” começou a ser escrito logo depois da publicação de “Pacto Sinistro” (Nova Fronteira), em 1950. Nesta época, Patricia Highsmith morava de maneira precária em Nova York. Seu romance de estreia ainda não tinha feito sucesso e a jovem de 28 anos estava tendo dificuldades financeiras. Para conseguir um dinheiro extra no final de ano, Patricia foi trabalhar como vendedora temporária em uma loja de departamentos no setor de brinquedos. A ideia para o enredo do livro surgiu em uma manhã, quando uma rica senhora solicitou a ajuda da jovem vendedora. A própria Patricia Highsmith descreveu, anos mais tarde, como aconteceu seu insight.

“Certa manhã, nessa confusão de comércio e barulho, eis que entra uma mulher meio loira em um casaco de pele. Meio à deriva, ela se aproximou do balcão das bonecas com um aspecto inseguro – deveria ela comprar uma boneca ou outra coisa? – e acho que ela batia distraidamente um par de luvas em uma das mãos. Talvez eu a tenha notado porque ela estava sozinha, ou porque um casaco de mink era uma coisa rara e porque ela era meio loira e parecia emanar luz. Com o mesmo ar pensativo, ela comprou uma boneca, uma das duas ou três que eu lhe mostrara, e escrevi seu nome e endereço no recibo, porque a boneca era para ser entregue em um estado vizinho. Era uma transação de rotina, a mulher pagou e foi embora. Mas eu me senti estranha, com a cabeça esvoaçante, perto de desmaiar, ao mesmo tempo enlevada, como se tivesse tido uma visão. Como sempre, depois do trabalho fui para casa, para o apartamento onde morava sozinha. Naquela noite escrevi uma ideia, um roteiro, uma história sobre a mulher meio loira no casaco de pele. Escrevi cerca de oito páginas à mão no meu livro de anotações ou cahier de então. E a história de “O Preço do Sal”, como originalmente se chamava “Carol”, fluiu de minha caneta como se saísse do nada – começo, meio e fim. Levou-me duas horas, talvez menos”.

Depois de escrever o rascunho do primeiro capítulo do novo romance, Patricia Highsmith preferiu deixar as ideias se consolidarem em sua mente. Ela só voltaria a trabalhar em “O Preço do Sal” meses depois, quando, enfim, “Pacto Sinistro” já havia se tornado um sucesso e os direitos comerciais do livro tinham sido vendidos para Alfred Hitchcock. Contudo, ao finalizar “O Preço do Sal”, Patricia foi surpreendida pela decisão de sua editora. Se até então a companhia estava cobrando avidamente a autora para produzir seu segundo romance, quando viu a narrativa homossexual, os editores recusaram o livro. Assim, Highsmith teve de procurar outra editora para lançar seu segundo livro comercial. Foi, então, que surgiu a ideia de publicar a obra com um pseudônimo.

“O Preço do Sal” recebeu algumas críticas positivas logo de cara. Seu grande sucesso, porém, demorou um pouquinho mais para acontecer. Só quando uma edição de bolso foi publicada é que as vendas do romance atingiram quase um milhão de exemplares. O livro tornava-se um best-seller. Claire Morgan passou a ser uma influente figura do meio editorial norte-americano, recebendo muitas cartas dos leitores diariamente. Patricia Highsmith lia as mensagens e as respondia, sem nunca revelar sua verdadeira identidade.

Em “Carol”, conhecemos a jovem Therese Belivet, a protagonista da trama. A moça de dezenove anos vive sozinha em Nova York e tem uma rotina um tanto melancólica. Ela é cortejada por Richard, um quase namorado. Entretanto, Therese não gosta do rapaz, preferindo não iniciar um relacionamento mais sério com ele. Therese sonha em trabalhar como cenógrafa em produções teatrais, mas seu ganha pão atual é como vendedora temporária em uma loja de departamentos. Ela trabalha no setor de brinquedos.

Um certo dia, uma mulher rica e loira aparece na loja para comprar uma boneca para sua filha. Therese fica fascinada com o jeito da cliente. Na hora de enviar a compra para a casa da menina, que não mora em Nova York, a jovem vendedora aproveita para enviar um cartão de Natal para o endereço da cliente. Assim, as duas mulheres se tornam amigas.

Carol Aird é uma socialite que está passando por um difícil processo de separação matrimonial. Em meio à disputa pela guarda da filha, a senhora encontra em Therese uma amiga fiel. As duas passam a se ver frequentemente. Rapidamente, Therese se apaixona por Carol. Pouco a pouco, a companhia de Richard passa a ser vista como algo enfadonho pela garota, que só quer ficar ao lado da amiga mais velha.

Carol e Therese decidem viajar juntas de carro pelos Estados Unidos. A viagem que tinha tudo para ser uma Lua-de-mel para as duas acaba se tornando uma armadilha para Carol. Há pessoas interessadas em expor a vida privada da Sra. Aird. O que ela fará: Dará sequência ao relacionamento com a moça bem mais jovem ou irá se expor menos, preservando um pouco mais sua vida particular?

“Carol” é um romance robusto, com mais de 300 páginas. Logo de cara, o que chama a atenção do leitor é a lentidão de sua narrativa. Os acontecimentos demoram para se suceder. As cenas cotidianas e a banalidade da vida de Therese Belivet acabam ocupando muitas páginas da história, esvaziando um pouco a força da trama. É preciso, aviso desde já, paciência para aguardar os desdobramentos se materializarem. Na certa, os leitores mais afobados e impacientes não vão gostar da evolução da narrativa deste livro. Realmente, essa é a sua principal fragilidade.

O ponto alto do romance, como não poderia ser diferente, está no clima de mistério e de apreensão quanto à amizade colorida de Therese e Carol. Até onde o relacionamento das duas mulheres poderá chegar? É essa a pergunta que os leitores se fazem durante a leitura. Também neste aspecto, achei que “Carol” envelheceu mal. Se uma trama assim era extremamente polêmica na metade do século XX, hoje em dia ela não é mais tão forte para segurar uma narrativa inteira. Se não fosse o homossexualismo das protagonistas, diria que “Carol” é um livro sem um atrativo especial.

O que atrapalha um pouco o desenvolvimento do romance é a mistura indiscriminada de elementos mais explícitos e de recursos mais sutis sobre o relacionamento amoroso das personagens centrais. Vejamos: Therese e Carol se apaixonam perdidamente a ponto de saírem em Lua-de-Mel. Até aí, beleza! Contudo, as duas mulheres demoram mais de 200 páginas para trocarem o primeiro beijo na boca. E, mesmo assim, elas seguem parecendo duas estranhas uma para a outra. Elas não dividem a mesma cama em nenhum momento e Carol se incomoda quando, por exemplo, Therese invade seu banheiro enquanto ela está de toalha. Será mesmo que as duas protagonistas são tão tímidas ou o conservadorismo da sociedade da época acabou influenciando Patricia Highsmith? Acredito mais na segunda hipótese.

Paradoxalmente, enquanto as personagens principais se mantêm aparentemente castas, todo mundo em volta (tanto dentro do livro quanto fora dele) já percebeu o affair das duas. É natural que os leitores queiram ver os detalhes desse relacionamento, mas a autora parece receosa de expor as intimidades das suas protagonistas. Essa é a principal diferença de “Carol” para “O Diário Roubado” (Klick), novela lésbica da francesa Régine Deforges. Se Highsmith opta pela discrição, Deforges não economiza nos detalhes quando a porta do quarto é fechada.

Para mim, uma das graças de um livro como este está em manter o suspense sobre o relacionamento dos protagonistas. É preciso mostrar uma evolução nas atitudes e nos comportamentos. Se o autor optar por ocultar algumas cenas, tudo bem. Mas deverá mostrar outras. É algo que foi feito com grande excelência em “Lolita” (Alfaguara), romance de Vladimir Nabokov. Em “Carol”, por sua vez, falta certa dose de ousadia para mostrar as personagens em ambientes privados. Só há um único momento de maior lascividade em toda a trama, um rápido sexo oral entre as duas mulheres. E mesmo assim, uma das parceiras reclama daquela ousadia. Reclamar do quê?!

Achei que “Carol” tem um bom começo, mas um desenvolvimento extenso e enfadonho. O livro só volta a ficar interessante nos últimos capítulos, quando o conflito se torna mais forte e nítido para os leitores. Aí a história adquire um ar de trama policial, algo em que Patricia Highsmith sabe fazer muito bem. De certa forma, o desfecho também é surpreendente. Quando imaginamos que o destino das protagonistas já foi decidido pela autora, nas últimas linhas temos uma grande reviravolta. Gostei desse expediente.

A sensação final da leitura de “Carol” é de certa decepção. Admito que esperava muito mais de uma obra tão polêmica. No final das contas, sua história é bobinha e a autora não foi tão ousada assim para detalhar a vida à dois das duas mulheres. Uma pena!

Em 2015, “Carol” foi adaptado para o cinema. O filme do diretor Todd Haynes teve Rooney Mara interpretando Therese Belivet e Cate Blanchett como Carol Aird. O longa-metragem orçado em US$ 12 milhões recebeu cinco indicações ao Globo de Ouro de 2016, sendo um dos destaques daquela temporada no cinema norte-americano. Aparentemente, o filme parece ser muito melhor do que o livro.

O Desafio Literário de Patricia Highsmith prossegue na próxima semana com a análise do romance mais famoso da escritora, “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso). Não perca os próximos passos do Desafio de outubro do Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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