• Ricardo Bonacorci

Livros: O Talentoso Ripley – O maior sucesso de Patricia Highsmith


Neste final de semana, li “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), o título mais famoso da carreira de Patricia Highsmith. Admito que estava ansioso para conhecer este livro, o terceiro do Desafio Literário de outubro. Considerado um clássico da literatura policial norte-americana, este romance fez tanto sucesso que se transformou, ao longo dos anos, em uma série literária. Highsmith produziu mais quatro obras com a personagem Tom Ripley, um trambiqueiro frio e calculista que tinha a habilidade de ocultar seus crimes da polícia. Os cinco títulos da série, apelidada pelos fãs de “The Ripliad”, venderam milhões de cópias no mundo inteiro e se tornaram best-sellers.

“Ripley Subterrâneo” (Companhia das Letras), publicado em 1970, deu sequência à narrativa de “O Talentoso Ripley”. Essa segunda parte da saga será apresentada na próxima quinta-feira, dia 18, em um novo post do Blog Bonas Histórias. Depois vieram “O Jogo de Ripley” (Companhia das Letras), de 1974, e “O Garoto que Seguiu Ripley” (Companhia das Letras), de 1980. “Ripley Debaixo D´Água” (Companhia das Letras), lançado em 1991, fechou a coletânea.

Publicado em 1955, “O Talentoso Ripley” conquistou vários prêmios importantes. Em 1956, o livro de Patricia Highsmith ganhou o Prêmio Edgar Allan Poe, conferido pela Associação dos Escritores Policiais dos Estados Unidos ao melhor romance de mistério e suspense do ano anterior. Até hoje, essa é uma das maiores honrarias do mercado editorial norte-americano para um thriller. Em 1957, veio o reconhecimento da crítica europeia. A obra ganhou o Grande Prêmio Francês de Literatura Policial como o melhor romance criminal produzido em língua não francesa.

Além do sucesso entre os críticos literários, “O Talentoso Ripley” também conseguiu agradar os leitores. O livro apresentou rapidamente ótimos resultados nas livrarias norte-americanas e europeias, tornando-se um best-seller mundial. Como consequência, em 1960, ele ganhou sua primeira adaptação para o cinema. O “Sol sob Testemunha” (Plein Soleil: 1960) é o nome desse longa-metragem, uma produção ítalo-francesa. Coube a René Clément a direção e a Alain Delon a interpretação de Tom Ripley. Em 1999, uma nova filmagem do clássico de Patricia Highsmith foi feita, agora com o nome “O Talentoso Ripley” (The Talented Mr. Ripley: 1999). Na nova versão, uma superprodução hollywoodiana, Anthony Minghella ficou à cargo da direção e Matt Damon ficou com o papel principal. O longa-metragem foi indicado ao Oscar em algumas categorias, entre elas a de melhor roteiro adaptado.

O romance de Patricia Highsmith começa com Tom Ripley, o protagonista da trama, vivendo em Nova York de maneira precária. O rapaz de vinte e seis anos não possui emprego nem moradia fixa. Órfão desde a infância, ele foi criado por uma tia autoritária, que ele odeia e que não vê há anos. Tom ganha a vida realizando pequenos crimes. Ele é excelente na arte de imitar as pessoas e em se passar pelos mais diferentes tipos de indivíduos. Ele imita a voz, os trejeitos e a assinatura de qualquer um. Se Ripley não estivesse no mundo da bandidagem, na certa poderia usar seus vários talentos no show business.

O ganha pão de Tom no início do livro é enganar pessoas com um golpe envolvendo o Imposto de Renda. Assim, o rapaz consegue algum dinheiro para se manter minimamente. Ele mora de favor no apartamento de um amigo em um dos lugares mais barras-pesadas da cidade.

A maré de azar de Ripley parece piorar quando, numa noite, ele é seguido por um homem misterioso pelas ruas escuras de Nova York. Na hora, o trambiqueiro pensa ter sido descoberto pela polícia. Ao entrar em um bar, Tom é, enfim, abordado pelo sujeito. Só, então, o protagonista da narrativa descobre que seu perseguidor não é um tira e sim um rico industrial. Herbert Greenleaf está procurando Tom, pois ouviu falar que ele já fora um grande amigo do seu filho, Richard. Tom confirma os relatos ouvidos pelo milionário, apesar de nunca ter sido próximo de Dickie, apelido de Richard Greenleaf. Apenas uma vez, Tom Ripley e Dickie foram juntos a uma festa. E isso foi há alguns anos.

Pensando estar falando com alguém de confiança, Herbert Greenleaf conta seu drama para Tom na mesa do bar. Ele quer que o filho volte a morar nos Estados Unidos e passe a tomar conta das empresas da família. Contudo, Dickie não quer saber da vida empresarial norte-americana. O rapaz que tem a idade de Tom mora em uma pequena vila litorânea na Itália com uma mulher. Lá, o herdeiro dos Greenleaf passa os dias tranquilamente sem se preocupar com os negócios e sem ver os pais. Esse estilo de vida blasé deixa o Herbert Greenleaf desesperado. O pai já tentou inúmeras vezes convencer o filho a regressar, mas nunca conseguiu.

Conversando com Tom Ripley, o Sr. Greenleaf tem uma ideia. Ele poderia enviar o amigo do filho para a Europa para convencer Dickie a retornar ao seu país. Na certa, Richard iria ouvir as palavras de um amigo próximo, pensa o milionário. Empolgado com a sua ideia, Herbert Greenleaf faz uma proposta tentadora para Ripley. O rapaz iria viajar ao exterior com a missão de trazer Dickie. O Sr. Greenleaf pagaria tudo, oferecendo uma viagem e uma estadia luxuosa na Europa para o amigo do filho. Obviamente, Tom aceita o convite. Trata-se de um lance de sorte que o pobre criminoso jamais teve na vida.

Na Itália, Ripley tem dificuldade, no primeiro momento, de se aproximar como desejava de Richard Greenleaf. Por isso, Tom logo abre o jogo, dizendo que foi enviado pelo pai de Dickie para convencê-lo a voltar. A sinceridade de Tom ajuda-o a se aproximar do herdeiro dos Greenleaf. Os dois se tornam grandes amigos. A amizade da dupla é tão forte que eles passam a morar e a viajar juntos pela Europa.

A relação de Tom e Dickie começa a levantar suspeitas. Os dois seriam homossexuais? E estariam tendo um romance? Essas são as perguntas que Marge Sherwood, a grande amiga de Dickie na Itália, se faz o tempo inteiro. As suspeitas de estar sendo substituída no coração de Richard deixam a moça desesperada. Antes da chegada de Tom, era ela quem participava ativamente da rotina de Dickie. Depois da vinda do norte-americano, ela foi deixada de lado, sendo até mesmo desprezada por Richard em muitos momentos. Aos olhos de Marge, Tom Ripley não passa de um aproveitador barato, alguém interessado unicamente na fortuna e no prestígio social dos Greenleaf.

À medida que os meses passam na pacata vila italiana, Dickie começa a se sentir enfadado com a companhia de Ripley. Com medo de perder a boa vida que estava levando na Europa ao lado do amigão rico, Tom acaba matando Richard em um passeio de barco em alto-mar. Ao sumir com o corpo do filho de Herbert Greenleaf, Tom decide assumir a identidade do homem assassinado. Assim, poderá manter seu padrão de vida atual.

Iniciam-se, aí, as peripécias do trambiqueiro para levar a vida de luxo de Dickie e, ao mesmo tempo, não levantar suspeitas de que ele seja um impostor. A vantagem de Ripley é que ele é excelente nos disfarces e Richard Greenleaf era um rapaz solitário e com uma vida social limitada. O problema é que o rapaz brutalmente morto tinha Marge, uma mulher apaixonada, e um pequeno grupo de amigos fiéis. Eles não descansaram enquanto não falarem com Dickie pessoalmente. Conseguirá Tom Ripley ocultar seu crime e manter a identidade falsa que assumiu?

“O Talentoso Ripley” é realmente uma obra-prima dos romances negros, um subgênero da narrativa policial. Patricia Highsmith é mestre em escrever tramas com muito suspense. Suas histórias são recheadas de intrigas inusitadas, possuem personagens diferenciadas, têm conflitos originais, tocam em temas ousados para a época e apresentam desfechos de tirar o fôlego. Quem gosta de uma boa narrativa policial irá gostar, na certa, da literatura de Highsmith. “O Talentoso Ripley” é, muito provavelmente, o melhor exemplar dessas características da escritora norte-americana.

Em minha opinião, o ponto alto deste livro está justamente na complexidade psicológica de seu protagonista. Tom Ripley é uma das personagens mais originais e enigmáticas da literatura policial. Em um primeiro momento, ele pode até parecer um anti-herói comum, como vários que inundam os romances negros: uma pessoa fria, extremamente calculista e muito inteligente. É, a princípio, um serial killer como muitos por aí. Contudo, ele possui algumas camadas psicológicas que o fazem único. O brilhantismo do trabalho de Patricia Highsmith fica evidenciado justamente nesses pequenos detalhes. Seu principal personagem literário nasceu de uma ousadia rara.

Para começo de conversa, o que é possível afirmar sobre a sexualidade de Tom Ripley? Ele não gosta das mulheres como os homens normalmente gostam. Ponto. Isso está claro desde os primeiros capítulos. A maneira como age com Marge Sherwood nos faz ter certeza absoluta dessa característica. Seria, então, ele um homossexual? A tia do rapaz já afirmara isso há muitos anos. Ele mesmo mostrou, em alguns momentos, algum interesse por rapazes bonitos. Porém, em nenhum momento da história, Ripley agiu lascivamente. Nem com Richard Greenleaf, ele expôs qualquer comportamento gay. O que seria, então, o protagonista de “O Talentoso Ripley”? Um homem assexuado? Esse é um dos grandes mistérios que intrigam o público durante a leitura do romance.

Ao mesmo tempo em que vive junto de pessoas ricas e frequenta a alta sociedade europeia exercendo um papel específico, o de intelectual milionário, Tom Ripley no fundo continua sendo o caipira criado pela tia pobretona. Sua essência de pequeno trambiqueiro o angustia, mas está lá o tempo inteiro. Evidenciar esse seu lado aos novos amigos o preocupa acima de tudo. O jeito como Patricia Highsmith constrói essa contradição é maravilhoso.

Para completar o perfil desta personagem, as habilidades de imitação a tornam uma pessoa perigosíssima. Além de dar mote aos conflitos do romance, essa competência de Sr. Ripley permite o surgimento de cenas tragicômicas. É verdade que é preciso uma imaginação flexível por parte do leitor para acreditar que um homem possa parecer outra pessoa fisicamente apenas com a mudança de roupas e com a aquisição de novos trejeitos. De qualquer forma, essa pequena liberdade criativa da autora não desmerece a força de Tom Ripley como personagem. Ele é uma das mais magistrais invenções da ficção policial.

A trama de “O Talentoso Ripley” é muito bem construída. Com a morte de Richard, inicia-se uma intricada narrativa, em que a ousadia de Patricia Highsmith (e, por consequência, de Tom Ripley) parece não ter limites. Um evento puxa outro, que gera um terceiro, que, por sua vez, provoca um novo acontecimento surpreendente. O fio narrativo é muito bem conduzido, assim como o plano criminoso do protagonista parece ser perfeito. Será que alguém conseguirá desmascará-lo? O leitor fica se perguntando sobre essa questão o tempo inteiro. Assim, temos mistério, suspense e aventura até o último parágrafo.

É verdade que a história demora um pouco até chegar ao seu conflito principal. A morte de Richard Greenleaf só acontece na página 100. Até lá, o livro acaba emperrando em alguns momentos, principalmente nas cenas banais protagonizadas por Tom, Dickie e Marge na cidadezinha italiana. Entretanto, esse pequeno deslize não atrapalha em quase nada o ritmo da obra. Uma vez chegado ao conflito, as emoções não param mais até a última página. A tensão é do tipo crescente. Quanto mais Tom Ripley apronta para fugir da polícia, mas ele se torna suspeito. Por isso, os últimos capítulos do romance são eletrizantes. A agonia do rapaz é digna de pena.

O desfecho do romance é incrível. Gostei muito da maneira como Patricia Highsmith apresenta os principais problemas da narrativa e os resolve. O final é tão surpreendente que ficamos sem reação. Como é possível que Tom termine desse jeito?, pensam os leitores incrédulos. Não posso dizer mais nada sobre isso se não corro o risco de estragara a experiência de leitura de alguém.

O fato é que “O Talentoso Ripley” é uma trama policial impecável. Você pode gostar ou não gostar desse romance, mas não poderá ficar indiferente à sua arquitetura narrativa. Gostei tanto do livro que já iniciei a leitura de “Ripley Subterrâneo”, o segundo título da série. Volto ainda nesta semana aqui no Bonas Histórias para comentar essa nova obra do Desafio Literário de Patricia Highsmith. Até mais!

Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#PatriciaHighsmith #RomancePolicial #RomanceNegro #Romance #Suspense #LiteraturaNorteAmericana

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento