• Ricardo Bonacorci

Livros: Ripley Subterrâneo – A sequência da série literária de Patricia Highsmith


Gostei tanto de “O Talentoso Ripley” (Companhia de Bolso), romance de Patricia Highsmith analisado no último domingo no Desafio Literário, que aproveitei o embalo e li em seguida o segundo livro de sua série literária. “Ripley Subterrâneo” (Companhia das Letras) dá sequência às aventuras de Tom Ripley, o serial killer trambiqueiro criado pela escritora norte-americana. De tão empolgado que estava para conhecer os próximos passos do anti-herói, acabei concluindo a leitura deste livro em apenas duas noites.

Patricia Highsmith levou quinze anos para lançar a primeira sequência de “The Ripliad”, apelido dado pelos fãs à série literária que tem Tom Ripley como protagonista. Se “O Talentoso Ripley” é um livro de 1955, “Ripley Subterrâneo” é de 1970. Nota-se que a autora não teve pressa para construir a saga. “O Jogo de Ripley” (Companhia das Letras), o terceiro romance da coleção, chegou às livrarias em 1974 e “O Garoto que Seguiu Ripley” (Companhia das Letras), o quarto título, foi lançado em 1980. O último livro de “The Ripliad” é “Ripley Debaixo D´Água” (Companhia das Letras), publicado em 1991, nos últimos anos de vida da escritora.

Assim como aconteceu com “O Talentoso Ripley”, “Ripley Subterrâneo” também ganhou algumas adaptações para o cinema. A mais famosa delas é “Ripley No Limite” (Ripley Under Ground: 2005), filme dirigido por Roger Spottiswoode. Quem ficou responsável por interpretar o protagonista da história foi o canadense Barry Pepper.

Este romance de Patricia Highsmith se passa seis anos após o término do livro anterior. Agora, Tom Ripley está morando na Europa de maneira definitiva. O norte-americano de trinta e dois anos vive com a esposa Heloise Plisson, filha de um milionário francês, em uma casa confortável na zona rural da França. O casal leva uma vida tranquila. Nenhum dos dois trabalha e ambos vivem dos rendimentos de suas fortunas. A rotina do casal é composta por viagens, eventos sociais, refeições em locais luxuosos e de muitas horas de ociosidade. Ou seja, Tom está vivendo como sempre sonhou, como um grã-fino culto.

Grande parte do dinheiro de Ripley foi herdada de Richard Greenleaf, conforme o desfecho de “O Talentoso Ripley”. Esse valor rende uma considerável quantia anual para o criminoso. Apesar de não ter ficado provado o envolvimento de Tom Ripley no desaparecimento de Dickie, as suspeitas de todos (tanto da polícia quanto da alta sociedade europeia) ainda permanecem. Isso não parece preocupar o protagonista, que mantém sua rotina e os antigos hábitos normalmente.

Além da herança de Richard, Tom Ripley também fatura com novos golpes. Afinal de contas, uma vez trambiqueiro, sempre trambiqueiro. O rapaz age como receptador internacional de um homem chamado Reeves Minot. Para completar a “vida bandida”, Tom é sócio minoritário da Derwatt Ltd, uma empresa criada para falsificar obras de um pintor já morto, Philip Derwatt. Foi ideia de Ripley ocultar a morte de Derwatt e contratar alguém, o pintor desconhecido Bernard Tufts, para continuar produzindo novos quadros como se fossem originais do artista já falecido. Com essa maracutaia, a Derwatt Ltd tornou-se uma empresa valiosa na Europa.

Os problemas de Tom Ripley e de seus sócios na Derwatt Ltd, o fotógrafo Jeff Constant e o jornalista Ed Banbury, começam quando Thomas Murchison, um norte-americano colecionador de arte, viaja até Londres e alega ter comprado um quadro de Philip Derwatt falsificado. Ele vai além e garante ter descoberto a falsificação promovida pela empresa. Para convencer o norte-americano da veracidade dos novos quadros do pintor, Tom Ripley usa suas habilidades cênicas e finge ser Philip Derwatt. Mesmo assim, Thomas Murchison continua inflexível e passa a investigar por conta própria a veracidade das obras produzidas pelo artista.

Sem mais o que fazer para convencer o Sr. Murchison, Tom Ripley acaba assassinando seu conterrâneo. O problema é que o crime foi feito na casa de Ripley. Assim, o anfitrião se torna o principal suspeito do homicídio. Novamente, o protagonista se vê obrigado a ocultar um crime bárbaro. Para se livrar das suspeitas que o incriminam, mais uma vez Tom precisará usar todo o seu talento para limpar a barra. Inicia, assim, um intrincado plano de sobrevivência que contempla muitas viagens pela Europa, novos disfarces e ações para enganar a polícia. A vantagem de Ripley é que ele tem agora alguns comparsas: Jeff Constant, Ed Banbury, Reeves Minot e Bernard Tufts. Até mesmo a esposa, Heloise Plisson, está disposta a ajudá-lo sempre que necessário.

“Ripley Subterrâneo” tem pouco mais de 320 páginas, distribuídas em 25 capítulos. Como é característico das obras de Patricia Highsmith, não faltam suspense, intrigas complexas e muita ação neste romance. O livro é bom, porém ele é muito inferior a “O Talentoso Ripley”. Por isso, minha sensação é de decepção ao final da leitura. Sinceramente, esperava muito mais...

O principal problema de “Ripley Subterrâneo” está relacionado ao seu protagonista. Antes, Tom Ripley era uma figura misteriosa e muito mais complexa. Em “O Talentoso Ripley”, por exemplo, ele era uma personagem de sexualidade indefinida, que carregava um grande complexo de inferioridade, ansiava por se dar bem na vida e usava seus talentos de disfarce para crescer socialmente. Os crimes praticados por ele faziam todo o sentido. Contudo, agora esse ar de mistério e de grande complexidade desapareceram completamente. Em outras palavras, o protagonista que era uma personagem redonda se transformou em uma personagem plana.

Neste romance, Tom Ripley aparece misteriosamente casado com Heloise Plisson. Mas ele não odiava as mulheres? O leitor mais atento pode até pensar: “Ele fez isso porque ela era milionária. Foi um golpe do baú. Esse comportamento é a cara de Tom”. À medida que os capítulos vão evoluindo, nota-se que o casal é muito apaixonado e Ripley adora a esposa. Como assim?! E a atração velada do protagonista por homens? Essa característica é ignorada neste segundo romance da série.

Além da mudança radical do comportamento sexual de Tom Ripley, as novas atitudes criminosas do rapaz me pareceram artificiais. Se ele está agora rico e casado com uma mulher milionária, por que continuaria praticando delitos menores, hein? Não faz sentido. Ele não gosta de correr riscos e, neste novo cenário, tem muito mais a perder se for revelado seu passado e presente criminosos. Sinceramente, não consegui enxergar o antigo Ripley neste livro. Para mim, a personagem anterior possuía uma envergadura muito maior do que a atual.

O lado positivo de “Ripley Subterrâneo” é que continuamos com uma intrincada narrativa policial. O leitor novamente fica torcendo pelo bandido contra a polícia. Para ocultar o novo assassinato, Tom precisará se desdobrar como nunca. Ele fica viajando pela Europa para atrapalhar a investigação policial. Neste sentido, o livro é tão bom quanto o anterior. Não faltam boas doses de ação.

Outro problema sério de “Ripley Subterrâneo” é que sua trama possui muitas partes estáticas. Se no primeiro romance da série isso ocorria apenas em alguns momentos dos capítulos iniciais, agora o marasmo se espalha pela obra inteira. O assassinato de Thomas Murchison só acontece na página 100. E, depois disso, o protagonista fica tentando socorrer o traumatizado Bernard Tufts por vários e vários capítulos. Será que Ripley com a frieza emocional que lhe é tão peculiar iria se preocupar com um rapaz que não é tão amigo seu? Acho que não. A tentativa de Tom de ajudar Bernard me pareceu muito enfadonha e sem sentido.

São vários os pontos que não colam em “Ripley Subterrâneo”. Além de ter descaracterizado seu principal personagem, Patricia Highsmith criou uma trama um tanto embolada. Não gostei do seu resultado. Talvez minha frustração seja mais fruto da minha alta expectativa inicial do que da baixa qualidade desta publicação. Se “O Talentoso Ripley” é uma obra-prima dos romances policiais modernos, “Ripley Subterrâneo” não passa de um livro razoavelmente bom. Daí o sabor amargo ao final da sua leitura.

Fiquei tão decepcionado com o conteúdo desta publicação que não vou mais ler as sequências de “The Ripliad”. A próxima obra que vou analisar no Desafio Literário de Patricia Highsmith é “O Álibi Perfeito” (Biblioteca Visão), uma coletânea de contos da escritora norte-americana. Assim, vou deixar um pouco a análise dos romances de Highsmith e mergulharei em seu lado contista. O post sobre esse novo livro estará disponível no Bonas Histórias na próxima segunda-feira, dia 22 de outubro. Não perca!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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