• Ricardo Bonacorci

Filmes: O Doutrinador – Herói ou vilão brasileiro?


Nessa quinta-feira, dia 1º de novembro, estreou no circuito nacional o filme “O Doutrinador” (2018). Esta produção marca a primeira adaptação de um HQ brasileiro para o cinema, uma tendência em voga há muitos anos no exterior. O Doutrinador é uma criação de Luciano Cunha, que concebeu, em 2008, uma personagem disposta a matar os políticos corruptos do país. Atire a primeira pedra quem nunca teve a vontade de fazer isso! Os quadrinhos de Cunha se tornaram um grande sucesso em 2013, em meio aos intensos protestos da população contra os aumentos das tarifas do transporte público. Agora, o Doutrinador, uma espécie de anti-herói brasileiro moderno, ganha uma versão cinematográfica.


“O Doutrinador” foi dirigido pelo jovem Gustavo Bonafé, codiretor de “Chocante” (2017) e “Legalize Já!” (2016). Este novo longa-metragem de Bonafé teve orçamento de R$ 6 milhões e foi gravado quase que inteiramente na cidade de São Paulo. Luciano Cunha integrou a equipe de roteiristas desta produção.


O super-herói do filme foi interpretado por Kiko Pissolato, em seu primeiro protagonismo nas telonas. Até então, o ator nascido em Piracicaba só tivera papéis secundários nas novelas da Globo e da Record. Apenas no teatro e na Internet, ele conseguira papéis com maior destaque, onde pôde mostrar seu talento. Acompanho o trabalho de Pissolato há alguns anos porque ele é marido de uma grande amiga minha (beijo, Bruna!). Independentemente da minha torcida pessoal, ele já estava merecendo subir esse degrau em sua carreira.

Completam o quadro de protagonistas do filme Tainá Medina, Eduardo Moscovis e Tuca Andrada. O elenco também conta com nomes de peso da TV e do cinema como Helena Ranaldi, Marília Gabriela, Natalia Lage e Eucir de Souza.


“O Doutrinador” se passa na fictícia cidade de Santa Cruz. Ali, o governador Sandro Correa (Eduardo Moscovis) é preso pela divisão de elite da polícia – uma instituição parecida com a nossa Polícia Federal. O político é acusado de envolvimento em desvio de verba pública no setor da saúde. A operação policial que prendeu o governador é similar à Lava-Jato brasileira. A prisão de Sandro Correa é comemorada pelos policiais, principalmente por Miguel Montessant (Kiko Pissolato), um dos melhores agentes da corporação. É Miguel o responsável por interrogar Correa, que obviamente não quer falar nada a respeito das suas ações à frente do Estado.


Para perplexidade geral, o governador não fica muito tempo atrás das grades. Ajudado pelos juízes corruptos do Supremo Tribunal Federal (alguém aí se lembrou do ministro Gilmar Mendes?), Sandro Correa é solto por meio de um habeas corpus. Assim, ele pode retornar para casa e, o que é pior, para seu trabalho como chefe do executivo do Estado. A população, então, se revolta. Começam os protestos nas ruas. Indignado com a ação dos policiais, o governador promete se vingar de quem o afrontou. Iniciam-se também as represálias do comandante de Santa Cruz.


Ao levar sua filha pequena para um jogo da Seleção Brasileira de futebol, Miguel vê a menina ser vítima de uma bala perdida perto do estádio. O policial leva a filha baleada para um hospital público, mas não há médicos nem infraestrutura para socorrer a criança. Ela acaba morrendo sem receber qualquer atendimento médico. Miguel entra em desespero com o descaso geral.

Depois de ficar vários dias deprimido, o policial se revolta contra todos os políticos corruptos do país que causaram indiretamente a morte da filha. Ele se junta às pessoas que protestam na frente do palácio de Sandro Correa. Em meio a pancadaria provocada pela guarda oficial que tenta dispersar a multidão, Miguel coloca uma máscara contra gás molotov e invade a residência do governador. O policial acaba espancando o chefe do executivo de Santa Cruz até a morte. Por estar mascarado, ele não é identificado.


No dia seguinte, sai nas manchetes de todos os jornais: “O Doutrinador mata o governador”. O sujeito mascarado que entrou no palácio onde estava Sandro Correa ganha, então, um apelido e o status de super-herói do povão. Vendo o quanto está ajudando o país, Miguel se veste mais vezes de Doutrinador e continua matando políticos corruptos. O rapaz tem a ajuda de Nina (Tainá Medina), uma amiga que atua como ativista política.


A mídia e a população exaltam o herói mascarado até o momento em que o Doutrinador começa a “fugir do controle”. Ele acaba matando inocentes e se envolve, querendo ou não, em questões políticas. Neste instante, o espectador do longa-metragem começa a se perguntar: seria o Doutrinador um herói ou um vilão justiceiro? A dúvida é o ponto de reflexão que torna a discussão sobre a justiça do tipo “olho por olho, dente por dente” interessantíssima. Até onde é certo combater a violência com mais violência?


“O Doutrinador” é um filme original e ousado para os padrões brasileiros. A simples proposta de filmar um super-herói nacional dos HQs já é por si só admirável. Quando esse protagonista e sua narrativa possuem cores e dramas genuinamente verde-amarelos, a sacada dos produtores e roteiristas fica ainda melhor. Porém, a maior surpresa está relacionada à qualidade técnica desta produção. O longa-metragem foi muito bem feito. Sua fotografia e suas cenas de ação estão impecáveis.

Outra questão que merece menção elogiosa é o quão atual é “O Doutrinador”. Parece que o filme foi rodado há uma semana e se utilizou de vários elementos verídicos da última eleição presidencial. Contudo, o longa-metragem foi rodado no ano passado. E seu roteiro já estava pronto há muito mais tempo. Então como os roteiristas poderiam adivinhar que um atentado político iria ajudar um dos candidatos à presidência da República? Como poderiam supor que essa seria a mais polarizada eleição da história? Como poderiam prever que o debate sobre a violência iria caminhar para a radicalização? As coincidências são assustadoras.


Apesar de bem produzido, o filme também dá as suas derrapadas. O maniqueísmo exagerado destoa um pouco da qualidade da narrativa. Não há, por exemplo, nenhum vilão minimamente bonzinho ou com alguma característica positiva. Outro recurso que não caiu bem foi a narração em off da realidade político-social do país. Se esse elemento é uma das chaves do sucesso de “Tropa de Elite”, em “O Doutrinador” a narração ganha ares infanto-juvenis. As explicações são óbvias e tolas para quem está careca de saber o que acontece nos meandros políticos nacionais. Assim, por mais interessantes que sejam as questões levantadas pelo filme, a impressão é que a mensagem dele é rasa e simplória.


Como o Doutrinador, Kiko Pissolato peca um pouco nos momentos de maior dramaticidade. Se ele está ótimo nas cenas de ação, no instante de demostrar a fragilidade sentimental do super-herói, ele fica um tom abaixo do esperado. É uma pena.


Outros deslizes consideráveis do filme são quanto à caracterização de Santa Cruz e à existência de pequenos erros de continuidade narrativa. Como o filme foi filmado basicamente todo em São Paulo, a impressão que se tem é que a cidade onde a trama se passa seja a capital paulista. Por isso, causa estranheza ao espectador que o governo do Estado não seja o palácio dos Bandeirantes. E que o estádio onde Miguel leva sua filha para ver a Seleção Brasileira não seja uma das arenas do município. E o que dizer então da capital do país não ser Brasília? O Congresso nacional do longa-metragem é uma versão genérica da obra projetada por Oscar Niemeyer... Entendi que o lugar ficcional da trama seja Santa Cruz e não São Paulo e o Brasil, mas a maioria do público vai entender que faltou um cuidado maior na ambientação da cidade e do país apresentados.

E por falar em maior cuidado, “O Doutrinador” tem alguns erros de continuidade. Por exemplo, em determinado momento da trama, o super-herói é ferido no ombro. Por isso, Miguel é atendido por Nina, que tenta costurar o ferimento de maneira improvisada. O policial urra de dor. Na cena seguinte, entretanto, ele já aparece treinando tiro na polícia usando o braço ferido normalmente, sem qualquer lembrança da dor antiga.


E para terminar, sinceramente não entendi a questão da máscara de gás molotov ser a vestimenta do Doutrinador. Sei que esse é um elemento extraído dos quadrinhos (e das revoltas populares que originaram o super-herói), mas na telona esse aspecto tornou o personagem principal mais infantil do que o necessário. Entendo que as vestimentas dos super-heróis sejam um capítulo à parte nas discussões das HQs, porém achei que Luciano Cunha não foi tão feliz nessa escolha.


Em resumo, “Doutrinador” é um filme interessante e muito bem produzido. Apesar de umas escorregadinhas aqui e outras acolá, o resultado final é positivo. Não duvido que ele ganhe continuações caso sua bilheteria seja satisfatória. É esperar para ver.


Veja, a seguir, o trailer de “O Doutrinador”:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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