• Ricardo Bonacorci

Livros: O Grande Mentecapto – O segundo romance de Fernando Sabino


“O Grande Mentecapto” (Record) é o segundo romance de Fernando Sabino. Depois de “O Encontro Marcado” (Record), seu romance de estreia de 1956, o escritor mineiro demorou 23 anos para produzir uma nova narrativa longa. Esse hiato temporal é justificável. No intervalo de publicação dessas obras, Sabino concentrou seu trabalho literário no desenvolvimento de crônicas e contos. Não à toa, se tornou referência nesse gênero narrativo. Entre as décadas de 1950 e 1970, ele manteve uma coluna diária no Jornal do Brasil e uma mensal na Revista Senhor. Fernando Sabino também colaborou por muitos anos com as revistas Manchete e Claudia. Esses textos serviram de matéria-prima para a maioria de suas obras literárias. Entre “O Encontro Marcado” e “O Grande Mentecapto”, Sabino lançou sete livros - todos eram coletâneas de crônicas e contos.

Publicado em 1979, “O Grande Mentecapto” conquistou, no ano seguinte, o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, na categoria melhor romance. Curiosamente, a ideia de escrever este livro remonta o ano de 1946, quando Fernando Sabino tinha apenas 23 anos de idade e era ainda um recém-chegado à cidade do Rio de Janeiro. A proposta do autor era produzir uma aventura quixotesca por Minas Gerais. Enquanto acompanhava as peripécias do amalucado protagonista, o leitor poderia visitar, na ficção, algumas das mais famosas cidades do estado e teria a oportunidade de conhecer um pouco do trabalho dos principais escritores mineiros. Contudo, após iniciar a produção da obra, Sabino preferiu deixá-la guardada na gaveta por anos e anos. Somente em 10 de abril de 1979, ele retomou os trabalhos do romance. De tão ávido que estava para finalizar a história, Fernando Sabino trabalhou sem parar por 18 dias. Assim, no dia 28 de abril de 1979, “O Grande Mentecapto” estava, enfim, concluído.

Se “O Encontro Marcado” é o romance mais famoso de Sabino, “O Grande Mentecapto” é, por sua vez, o mais aclamado pela crítica. Juro que é difícil apontar qual dos dois é o melhor. Apesar de ter produzido apenas duas narrativas longas em toda a sua carreira (os outros livros do autor são coletâneas de crônicas e contos, novelas e obras infantojuvenis), Fernando Sabino é visto também como um grande romancista. Afinal de contas, seus dois únicos romances fazem parte dos cânones da literatura brasileira. Nada mal, hein? Diria que seu índice de sucesso é de 100% neste gênero narrativo.

Em 1989, o cineasta Oswaldo Caldeira resolveu transformar a história de “O Grande Mentecapto” em filme. No elenco do longa-metragem homônimo estavam nomes de peso do cinema nacional, como Diogo Vilela, Debora Bloch e Luiz Fernando Guimarães. A produção de Caldeira foi indicada ao prêmio de melhor filme do Festival de Gramado daquele ano. Nas décadas seguintes, o romance ganhou também versões cênicas.

“O Grande Mentecapto” é uma espécie de biografia póstuma de Geraldo Boaventura, que se dizia chamar José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva, mas era conhecido mesmo como Geraldo Viramundo. O narrador do romance é alguém aparentemente letrado que está interessado em recontar a trajetória mambembe de Viramundo, o herói dos fracos, dos pobres e dos oprimidos. Para compor um quadro fidedigno dessa figura exótica, o narrador se utiliza de relatos coletados de pessoas simples do povo. Ele também consulta, ao longo dos anos, várias fontes bibliográficas e faz uma intensa pesquisa documental pelas cidades mineiras por onde o protagonista passou.

Geraldo nasceu em Rio Acima, cidade localizada no centro de Minas Gerais. Filho de europeus, o pai era um comerciante português e a mãe era uma dona de casa italiana, o menino cresceu aprontando inúmeras estripulias em sua cidade. A principal delas foi ter parado o trem que cruzava o município. O feito foi tão marcante que, tempos depois, a companhia férrea decidiu instalar uma estação em Rio Acima. Dessa maneira, pensaram os engenheiros da empresa, ninguém mais iria parar a locomotiva sem necessidade.

Já adolescente, Geraldo escolheu seguir o caminho da religião. Com o apoio do padre Limeira, um amigo da família, o rapaz foi encaminhado para o seminário em Mariana. Com isso, Geraldo deixou para sempre o lar dos Boaventura e a cidade de Rio Acima. Em Mariana, o protagonista continuou aprontando as suas. A pior delas foi ter “pegado” a confissão da viúva Correia Lopes sem que ela soubesse que seu confessor era um seminarista. A confusão provocada pelas revelações dos pecados da Sra. Correia Lopes acabou gerando uma revolta de grandes proporções na cidade. Como consequência, Geraldo, então com dezoito anos, foi expulso do seminário. Sem ter para onde ir, o jovem decidiu ganhar o mundo (foi aí que ele adquiriu o apelido pelo qual ficaria conhecido mais tarde).

Viramundo passou a viver como um indigente, sem trabalho, sem posses materiais e sem residência fixa. Com quase nenhuma responsabilidade, viajava de cidade em cidade, conhecendo cada pedacinho de Minas Gerais. Em cada lugar que passava, deixava um rastro de muitas confusões e de vários apelidos curiosos. Seu biógrafo não se furtou à tarefa de listá-los: Geraldo Viramundo, Geraldo Giramundo, Geraldo Rolamundo, Geraldo Vira-Lata, Geraldo Acaba-Mundo, Geraldo Furibundo, Geraldo Virabosta, Geraldo Virabola, Geraldo Sacristia, Geraldo Epístola, Geraldo Sitibundo, Geraldo Vila Rica, Geraldo Facada, Geraldo Pancada, Geraldo Boi, Geraldo Carneiro, Geraldo Capelinha, Geraldo Uai, Geraldo Pitimba, Geraldo, o Cagado de Arara, Geraldo Passa-Quatro, Geraldo Nerval, Geraldo Pecaldo, Geraldo Ziraldo, Geraldo Sacrilégio, Geraldo Responsus, Geraldo Ingrizia, Geraldo Já Começa, Geraldo Merdakovski, General Búlgaro, Geraldo Molambo, Geraldo Melda, Geraldo Ladainha, Geraldo Capítulo, Geraldo Trindade, Geraldo Sepultura, Geraldo Eucaristia, João Geraldo, o Peregrino, Geraldo Cordeiro de Deus, Geraldo J. Nunes, Geraldo Labirinto, Geraldo Caramujo, Geraldo Pé na Cova, Geraldo Cuba, Geraldo Jacuba, Geraldo Caraminhola, Geraldo Ceca, Geraldo Meca, Geraldo Ceca em Meca, Geraldo Eira, Geraldo Beira, Geraldo sem Eira nem Beira, Geraldo Tremebundo e, como não poderia faltar, José Geraldo Peres da Nóbrega e Silva.

A peregrinação errante de Geraldo Viramundo passou por Ouro Preto (onde conheceu o amor de sua vida), Barbacena (ali quase que virou prefeito), Juiz de Fora (onde se tornou militar, integrando por algum tempo o esquadrão de Cavalaria local), São João Del Rei (estragou uma festa pomposa em homenagem ao governador), Tiradentes (onde foi preso sem ter cometido qualquer crime), Congonhas do Campo (presenciou a tragédia ocorrida com o velho Elias, seu amigo cego), Uberaba (salvou sua antiga amada do ataque de um touro bravo), Ceca em Meca (onde enfrentou o fantasma que amaldiçoava uma casa antiga) e Belo Horizonte (onde liderou uma revolta de retirantes, mendigos, prostitutas e loucos contra o governador). Por fim, retorna descuidadamente para Rio Acima, encerrando suas andanças por onde começou.

“O Grande Mentecapto” tem 236 páginas e sua narrativa está dividida em 8 capítulos. Achei a leitura desta obra rápida e fácil, além de muito agradável. Li o romance inteiro em duas noites, não gastando mais do que quatro horas ao todo.

A primeira questão que salta aos olhos do leitor acostumado com a literatura de Fernando Sabino é a diferença gritante de estilo narrativo desta obra. “O Grande Mentecapto” possui um jeitão totalmente distinto de tudo aquilo que o autor mineiro produziu ao longo de sua carreira. Juro que pensei no meio desta leitura: “Será mesmo que este é um livro de Fernando Sabino?”. Só depois de consultar novamente a capa tive certeza de estar lendo a publicação correta. O curioso é que este romance mistura elementos épicos com uma prosa galhofeira. Ele mescla também pitadas satíricas com dramas comoventes, dando um ar trágico-cômico à história. Além disso, a pretensão de Sabino, desde o início, era fazer uma rica homenagem à literatura mineira e aos grandes escritores do seu estado natal. E a obra faz isso, paradoxalmente, com uma narrativa escrachada e de exaltação à pobreza, ao ridículo e à loucura. São muitos os contrapontos presentes nas páginas deste livro.

Achei “O Grande Mentecapto” mais parecido ao estilo, por exemplo, de “Romance da Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta” (Nova Fronteira), de Ariano Suassuna, de “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” (Penguin), de Lima Barreto, de “Macunaíma” (Nova Fronteira), de Mário de Andrade, de “Memórias de um Sargento de Milícias” (Penguin), de Manuel Antônio de Almeida, de “O Coronel e o Lobisomem” (Companhia das Letras), de José Cândido de Carvalho, e de “Fogo Morto” (Jose Olympio), de José Lins do Rego. Ou seja, Fernando Sabino fugiu de suas próprias características e se utilizou de um tipo de narrativa muito popular e rica em nossa literatura. Para sermos justos, esse tipo de romance foi criado no início do século XVII por Miguel de Cervantes. E, a partir de então, foi reproduzido à exaustão nos quatro cantos do mundo.

Portanto, esqueça o relato fiel da realidade, os cenários urbanos, as personagens cosmopolitas e intelectualizadas, a linguagem jornalística e os conflitos de ordem psicológica que marcaram o estilo de Fernando Sabino. O que temos em “O Grande Mentecapto” é uma narrativa picaresca, tipo de literatura caracterizado pelo retrato realista e bem-humorado de um herói pobre e inteligente em meio a uma sociedade corrupta, violenta e injusta.

O protagonista de “O Grande Mentecapto”, Geraldo Viramundo, é o exemplo típico de um anti-herói. Criado em um lar amoroso e, depois, educado em um seminário religioso, ele carrega consigo bons modos e valores nobres. É honesto, consciencioso, solidário, humilde, destemido, astuto e culto. Ou seja, tem tudo para ser classificado como um herói clássico. Porém, ele é ingênuo, não tem trabalho fixo, é paupérrimo, vive a maior parte do tempo da mendicância, nunca mais procurou sua família, vive de maneira errante pelas cidades de Minas e sempre se mete em grandes confusões. Aí temos os elementos que o caracterizam como um anti-herói.

Seu comportamento refinado e sua linguagem erudita causam estranheza nas demais personagens, que parecem julgar o homem maltrapido apenas pela sua aparência (evidenciando alguns preconceitos da população). A contradição entre aparência precária e postura elevada (ele é muito inteligente também) faz as pessoas enxergarem Viramundo como um louco. Achei a personagem principal do romance muito mais ingênua do que maluca. Mesmo não querendo causar confusão por onde passava, o jeitão simplório e honesto do protagonista o tornava alvo fácil das injustiças e das malandragens de boa parte da sociedade brasileira. Assim, ele acabava provocando, querendo ou não, grandes rebuliços. Geraldo Viramundo é uma ótima personagem.

Gostei também da contradição entre as linguagens erudita (de Viramundo e do narrador) com a popular (das demais personagens e de boa parte da narrativa). Essa mistura dá um tom maior de galhofa à história.

E por falar em texto, “O Grande Mentecapto” possui vários elementos que fazem referências às biografias e aos estudos acadêmicos (citações, notas de rodapés e bibliografia nas páginas finais). A impressão que o leitor tem é de estar lendo realmente uma biografia feita há muito tempo. Esse ar antigo da narrativa se dá, por exemplo, pelo resumo de cada capítulo já no subtítulo da seção, recurso muito utilizado pelos romances dos séculos passados.

O humor também pontua esta história do início ao fim. O tom trágico-cômico da narrativa surge em cada caso protagonizado por Geraldo Viramundo e seus amigos. As passagens engraçadas e tristes se sobrepõem o tempo inteiro. A alegria, por exemplo, do jovem protagonista de ter conseguido parar um trem em sua cidade (sendo motivo de elogios e de admiração dos adultos de Rio Acima) é sobreposta pela tragédia do menino que morreu atropelado, alguns dias depois, pela locomotiva (e, aí, os adultos do povoado se voltam contra Geraldo e sua família).

Adorei as referências literárias que são colocadas frequentemente no meio da trama pelo narrador. De algum modo, esse narrador misterioso é alguém que deseja homenagear os grandes escritores mineiros (um intuito explícito de Fernando Sabino). Às vezes mais diretamente e outras vezes de maneira mais velada, são citados os trabalhos e os estilos literários de Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Guimarães Rosa, Murilo Rubião, e etc. No meio dessa exaltação à literatura mineira, são lembrados também grandes autores de outros estados (Mário de Andrade, Jorge Amado, etc.) e figuras internacionais (Miguel de Cervantes, por exemplo).

O desfecho do romance é surpreendente e trágico. Cuidado que aí vem um gigantesco spoiler. Se você ainda for ler este livro, sugiro pular este parágrafo. Como se fizesse uma Via-Sacra por Minas Gerais, Geraldo Viramundo acaba voltando para Rio Alto, onde sua vida e sua história começaram. E lá, como sempre aconteceu em todos os lugares por onde passou, Viramundo é acusado injustamente de um crime. E o algoz, neste caso, é alguém da sua família, que não leva em consideração nem mesmo o grau de parentesco entre eles para solucionar o conflito. Ou seja, Geraldo é agora visto unicamente como um mendigo desprezível (até mesmo pelos Boaventura).

“O Grande Mentecapto” é um livro magistral. Como narrativa, achei este romance de Sabino melhor do que “O Encontro Marcado”. Ao menos tem mais ação, aventura, reviravoltas e um humor mais forte. Se formos comparar esta obra às suas similares nacionais do subgênero picaresco, “O Grande Mentecapto” também é superior. Esta publicação tem um texto mais direto e compreensível, o que torna sua leitura muito agradável.

Terminada as análises dos romances de Fernando Sabino, na próxima terça-feira, dia 13, retorno ao Desafio Literário para comentar uma obra infantojuvenil deste autor. O livro em questão é “O Menino no Espelho” (Record), um clássico da literatura infantil brasileira. Não perca o post do terceiro livro de Sabino que o Bonas Histórias apresenta neste mês. Até lá!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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