• Ricardo Bonacorci

Contos: Paranoias Modernas - Vestido


- Querido, como estou?

Era sexta-feira e o casal se aprontava para ir ao trabalho. A esposa vestia-se olhando para o espelho. Sua indecisão era sobre qual roupa usar. Na porta do quarto, o marido dava o nó na gravata e observava a movimentação dos filhos se arrumando para a escola. As crianças não pareciam preocupadas com a pontualidade.

Henrique era químico industrial e Inácia era psicóloga. Daniela e Marcelo, os filhos, estudavam em uma escola particular. A vida naquele lar era tranquila e harmoniosa. Isso até aquela manhã...

- Amor, este vestido vermelho ficou bom?

- Ele não é vermelho, Naná - Um olhar estranho apareceu no rosto de Henrique - Sua roupa é azul!

Ao perceber que o marido não estava brincando, Inácia se revoltou. Onde já se viu falar tamanho disparate? Assim, o bate-boca começou. Cada lado apresentava seu ponto de vista e se indignava com a opinião contrária. Para resolver a questão, o casal chamou os filhos. O que era para apaziguar os ânimos acabou ressaltando-os. Daniela concordou com o pai e Marcelo ficou ao lado da mãe. Com a entrada das crianças no debate, a discussão pegou fogo. De repente, ninguém mais se lembrava dos compromissos matinais.

Por causa do barulho, os vizinhos tocaram a campainha. O que estaria acontecendo naquela residência onde a paz sempre imperara? Quando questionados sobre a cor do vestido, os visitantes também ficaram divididos. O entrevero parecia não ter fim. As horas foram passando e não se chegava a uma definição. Henrique chamou seus irmãos. Inácia telefonou para os pais. Os filhos convocaram os amiguinhos. Os vizinhos chamavam alguém de sua confiança para opinar.

No meio da tarde, uma pequena aglomeração zanzava pelo apartamento. Naquele dia ninguém ali foi trabalhar nem estudar. Quem entrava naquela discussão não conseguia mais sair dela. Afinal, o vestido era vermelho ou azul?

A intensidade do debate provocou sequelas. Os grupos passaram a se ofender mutuamente. Quem entendia que o vestido era azul passou a formar uma panelinha, conversando e se preocupando apenas com seus interesses. O pessoal que enxergava a cor vermelha se uniu e passou a desprezar os adversários. Rapidamente, o assunto chamou a atenção dos habitantes da cidade. Todos queriam opinar e ficavam surpresos com a visão oposta.

No início da noite, uma multidão se deslocou ao edifício de Henrique e Inácia. Uma equipe de repórteres foi enviada ao local. O debate ganhou a televisão. Era noite avançada quando o assunto ganhou dimensão nacional. Os comentaristas das emissoras se digladiavam. Especialistas em moda foram chamados. E nada de um consenso aparecer. Cada um entendia que sua opinião era a correta, desprezando a visão contrária.

A coisa começou a fugir do controle na madrugada. Pessoas na rua se agrediam e brigavam por causa da cor do vestido. Em várias cidades, houve quem se ferisse gravemente nas discussões mais acaloradas. Na capital do país, um adolescente foi assassinado enquanto brigava com um grupo rival.

Na manhã seguinte, Inácia pediu para chamar o marido para uma conversa. Henrique tinha passado a noite na sala com seu grupo e ela havia ficado fechada no quarto com seus apoiadores. Eles não se falavam há horas e ostentavam pesadas olheiras.

- Não dá mais! - disse a mulher em tom de rendição.

- Também não aguento mais esta situação!

O casal tomou a única decisão possível: separaram-se. Com o anúncio, os visitantes se sentiram constrangidos e pouco a pouco deixaram o apartamento. No final do dia, ninguém mais se lembrava do vestido.

Inácia e Henrique passaram a se evitar e nunca mais conseguiram conversar como antes. O amor que sempre nutriram se transformou em indiferença. Alguns veem certa raiva quando eles rememoram os tempos antigos. Até hoje ninguém sabe ao certo a cor do vestido, que se perdeu na mudança de Inácia para a nova casa.

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Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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