• Ricardo Bonacorci

Livros: As Melhores Crônicas de Fernando Sabino – O principal gênero do escritor mineiro


Já estamos no quarto livro do Desafio Literário de novembro. Depois de analisarmos dois romances, “O Encontro Marcado” (Record) e “O Grande Mentecapto” (Record), e uma obra infantil, “O Menino no Espelho” (Record), vamos hoje, no Bonas Histórias, tratar de uma coletânea de crônicas de Fernando Sabino. Assim, chegamos ao gênero narrativo que o jornalista e escritor mineiro mais produziu ao longo de sua carreira. E o título escolhido para a análise deste post é “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” (BestBolso).

Os textos de “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” foram publicados originalmente em jornais e revistas. A atuação de cronista por Sabino começou cedo. No início da década de 1940, quando mal tinha completado vinte anos de idade e ainda morava na capital mineira, o jovem jornalista já escrevia colunas e reportagens para as revistas Mensagem, Alterosa e Belo Horizonte, veículos de comunicação regionais. Ao se mudar para a cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 1944, ele passou a trabalhar regularmente para o jornal Correio da Manhã. Na década de 1950, suas crônicas foram publicadas diariamente pelo Jornal do Brasil e mensalmente pela revista Senhor. Na década de 1960, ao morar no exterior, Fernando Sabino diminuiu a produção de suas colunas, mesmo assim continuou escrevendo para o Jornal do Brasil e para as revistas Manchete e Cláudia.

O livro “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” reúne textos escolhidos pelo próprio autor. A obra contempla os exemplares do trabalho de cronistas de Sabino produzidos ao longo de quatro décadas. Publicado pela primeira vez em 1986, “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” continua sendo editado até hoje. O livro que comprei no finalzinho deste ano é a sexta edição impressa pela BestBolso. Nesta coletânea de crônicas, temos pequenas narrativas sobre os aspectos banais do dia a dia de Fernando Sabino, os relatos sobre as personalidades que o jornalista e escritor conheceu e a apresentação de análises críticas da realidade brasileira e das mudanças de comportamento da população.

Adorei este livro. Fernando Sabino usa o humor de maneira inteligente para construir um retrato fiel e saboroso de sua rotina e de seu ofício. Quando seus textos abordam a vida e o trabalho de artistas, jornalistas e pessoas famosas, o autor procura apresentá-los de uma forma humana e sensível, descrevendo-os como um amigo próximo faria. O resultado é um passeio pelo cotidiano de um dos grandes nomes da literatura brasileira da segunda metade do século XX. Também temos a oportunidade de verificar como era a vida entre as décadas de 1940 e 1980, tanto no Rio de Janeiro quanto no exterior (Sabino morou em Londres e Nova York).

Com aproximadamente 200 páginas, o livro “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” possui 50 narrativas curtas. Em média, cada texto se estende por 4 páginas. Assim, é possível ler o material todo bem rapidamente. Concluí esta leitura em uma única noite, na última quinta-feira. Iniciei a obra por volta das 19h e às 22h já tinha terminado (e olha que não li tudo de uma vez, fiz duas paradinhas no meio do percurso).

“Dez Minutos”, a primeira crônica da obra, é o texto feito para o filho recém-nascido do autor. “O Retrato” trata de uma foto antiga de Sabino que aparecia regularmente em sua coluna de jornal, mas que não condizia mais com a verdadeira imagem do colunista. Em “A Quem Tiver Carro”, temos as peripécias de um dono de veículo que vive tendo problemas mecânicos com seu carro. “Um Doador Universal” narra uma inusitada viagem de táxi ao hospital. E “O Habitante e sua Sombra” é uma homenagem ao escritor chileno Pablo Neruda, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1971.

“Dormir de Touca” é a quinta crônica. Nela, Fernando Sabino conta o dilema que é cortar cabelo em Londres. “A Escrita é Outra” descreve uma divertida entrevista que o escritor concedeu a uma jovem e desmiolada jornalista. “De Mel a Pior” narra uma divertida conversa telefônica sobre a língua portuguesa. E “Como Melhorar a Memória”, por sua vez, apresenta a dificuldade do autor em decorar os nomes das pessoas que o cercam.

“O Hóspede do 907”, a décima crônica da obra, descreve o dia a dia de um burocrata em Nova York. “Notícia de Jornal” trata da morte de um morador de rua no Rio de Janeiro, vitimado pela fome. “De Homem para Homem” relata um trauma de infância que persegue Fernando Sabino por muitos e muitos anos. “Cada Um No Seu Poleiro” narra a conversa do cronista com o papagaio de um vizinho. “O Menestrel do Nosso Tempo” é um texto sobre Vinicius de Moraes. E “Que Língua, a Nossa” fala dos excessos retóricos dos usuários contemporâneos da língua portuguesa.

A décima sexta crônica é “Escritório”, texto sobre o aluguel de uma sala onde Fernando Sabino iria trabalhar. “A Lua Quadrada de Londres” é um fenômeno estranho e ficcional visto em uma noite de inverno. “Obrigado, Doutor” trata de um homem hipocondríaco. “Sandy, o Artesão”, por sua vez, narra uma visita à casa do escultor Alexander Calder. “Frases Célebres” é uma conversa amalucada e bem-humorada de um banqueiro, um colunista social e uma vedete. E em “Menino” temos todos os avisos e conselhos que um garoto ouve das pessoas mais velhas.

“O Buraco Negro”, o vigésimo segundo texto da coletânea, mostra o quão distraído é o autor em sua rotina. “A Última Flor do Lácio” faz uma comparação das aulas de língua portuguesa ministradas no passado e na atualidade. “A Minha Salamandra” trata do desespero de um romancista em busca de uma informação específica para sua nova história. Em “A Falta que Ela me Faz”, temos o caos doméstico de um homem após dar férias para sua empregada. “Retrato do Nadador Quando Jovem” compara a natação feita antes e agora. “Expressivo, Romântico e Musical” é uma divertida crítica às aulas de português dadas aos estrangeiros. E “Burro Sem Rabo” fala do processo de mudança de residência do escritor.

A vigésima nona crônica, “Com o Mundo nas Mãos”, é o estudo da geografia a partir de um globo terrestre de brinquedo. “O Poeta e a Câmera Indiscreta” mostra os desafios de se filmar um documentário sobre Carlos Drummond de Andrade. “Hay que Vigiar” é o divertido texto sobre as malandragens dos ladrões cariocas. “Como Vencer no Bar Sem Fazer Força” retrata os percalços de um fotógrafo brasileiro que está trabalhando em Londres. Em “Minas Enigma”, Fernando Sabino faz uma brincadeira sobre o que é ser mineiro. E “Um Gerador de Poesia” e “Suíte Ovalliana” são duas crônicas sobre o compositor Jayme Ovalle.

“Corro Risco Correndo” é o trigésimo sexto texto de “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino”. Nele, o escritor fala sobre o hábito que adquiriu nos últimos anos de praticar cooper (corrida) diariamente. Em “Sexta-feira”, temos um homem que caminha solitariamente pelas ruas à noite. Em “Experiência de Ribalta”, Sabino recorda suas vivências como ator teatral. “Numa Curva da Estrada” temos um homem que reencontra, no meio de uma viagem, um velho carro conversível que já o pertenceu. “Elegância” trata do hábito antigo das pessoas em procurar os alfaiates para que eles fizessem suas roupas, algo que caiu em desuso nas últimas décadas. “Homens de Canivete” narra o apego do autor pelos canivetes suíços. E “O Brasileiro, Se Eu Fosse Inglês” é o olhar de um estrangeiro para a realidade brasileira.

No quadragésimo terceiro texto, “O Ballet do Leiteiro”, temos um homem que espia pela janela de seu apartamento os vizinhos nos edifícios ao lado. “O Indesejável Espectador” narra o porquê de Sabino não gostar de visitar os teatros. “Precisa-se de um Escritor” relato o drama de escritores famosos na hora que eles têm de produzir textos banais do dia a dia. “Uma Vez Escoteiro” é a resposta de Fernando Sabino para a carta enviada por uma leitora do jornal que queria saber a importância do escotismo na vida do escritor. “Evocação no Aniversário do Poeta” é uma reverência a Manuel Bandeira e ao seu trabalho literário.

Em “Por Isso lhe Digo Adeus” temos a despedida de Sabino de Nova York, cidade onde morou por dois anos. “Amor de Passarinho” fala das visitas que os beija-flores fazem à varanda da casa do escritor. E “A Última Crônica”, por fim, temos o fechamento das narrativas com o acontecimento singelo ocorrido em um bar.

Gostei muito da qualidade destes textos de Fernando Sabino. O mais interessante é que as crônicas dele não ficaram datadas ou perderam suas forças narrativas quando passadas para o livro. Esse processo é muito comum de acontecer. Os textos veiculados em jornais e em revistas acabam, infelizmente, se tornando fracos, irrelevantes, chatos e/ou incompreensíveis quando levados a uma publicação literária alguns anos depois. Costumo chamar esse problema de “O Mal das Crônicas”.

“O Mal das Crônicas” tem se manifestado recorrentemente no Desafio Literário. Sinceramente, não gostei de muitos livros desse gênero (apesar de adorar as crônicas). Lya Luft, Ignácio de Loyola Brandão, Herta Müller, Machado de Assis e Xinran, por exemplo, sofreram com minhas análises pouco elogiosas sobre alguns de seus trabalhos nessa área. O único que passou imune às minhas críticas negativas foi Mia Couto. “Se Obama Fosse Africano?” (Companhia das Letras) é um livro maravilhoso e atemporal do escritor moçambicano.

O que posso dizer é que “As Melhores Crônicas de Fernando Sabino” é, possivelmente, a obra mais interessante do gênero que li nos últimos anos. O principal mérito desse livro de Fernando Sabino está na escolha dos textos. Quase nenhuma das crônicas desta publicação envelheceu mal ou se tornou obsoleta. Pelo contrário. Elas ainda estão muito atuais, algumas décadas depois de terem sido escritas. O dono de um carro que tem dificuldade para achar um bom mecânico no Rio de Janeiro. Escritores famosos que tem dificuldade para escrever um texto simples e banal do dia a dia. O rico universo dos vizinhos nos apartamentos das grandes cidades. Os pequenos traumas infantis. A dificuldade de um homem para administrar a rotina doméstica sem a empregada. A homenagem feita ao filho recém-nascido em um texto emocionante e emocionado. A entrevista concedida a uma jornalista jovem e despreparada. Os golpes criativos praticados pelos malandros do Rio de Janeiro. As peripécias de um hipocondríaco inveterado. E os modismos da língua portuguesa. Repare que todos esses são temas que permanecem atualíssimos ainda hoje.

Na minha opinião, as melhores narrativas da coletânea são justamente aquelas que abordam a realidade cotidiana de Fernando Sabino. Os meus textos favoritos são: “Dez Minutos”, “A Quem Tiver Carro”, “Um Doador Universal”, “A Escrita é Outra”, “De Mel a Pior”, “Como Melhorar a Memória”, “Notícia de Jornal”, “Que Língua, a Nossa”, “Obrigado, Doutor”, “Menino”, “A Minha Salamandra”, “Hay que Vigiar”, “Minas Enigma”, “Homens de Canivete”, “O Brasileiro, Se Eu Fosse Inglês”, “O Ballet do Leiteiro” e “Precisa-se de um Escritor”. Essas 18 crônicas são excelentes.

Fernando Sabino usa o humor e a linguagem coloquial para produzir narrativas deliciosas. A impressão que temos é que os textos do autor são tão limpos, simpáticos e engraçados como as conversas em um bar feitas entre amigos. Os dramas retratados por Sabino são os mesmos do leitor, o que cria uma proximidade entre leitor e escritor.

É verdade que Fernando Sabino foi mais premiado pelo seu trabalho como romancista e autor de livros infantojuvenis. Contudo, para mim, a melhor faceta de sua literatura está nas crônicas. Neste gênero, ele é um dos maiores escritores da história do nosso país. Ler seus textos que foram publicados em jornais e revistas é uma experiência incrível. Além de leves, divertidas e inteligentes, as crônicas de Sabino são viciantes. Você lê uma e não quer parar mais.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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