• Ricardo Bonacorci

Filmes: Infiltrado na Klan – O melhor Spike Lee dos últimos 12 anos


Ontem, estreou nos cinemas brasileiros o novo filme de Spike Lee. “Infiltrado na Klan” (BlacKkKlansman: 2018) é apontado pela crítica cinematográfica norte-americana como um dos postulantes ao Globo de Ouro e ao Oscar do próximo ano. E realmente o longa-metragem é muitíssimo bom. Confesso que saí da sessão encantado com sua trama e, principalmente, com sua construção narrativa. Considerei este o melhor trabalho de Lee desde “O Plano Perfeito” (Inside Man: 2006), seu grande sucesso comercial do século XXI. Se alguém disser que este é o melhor filme da carreira do cineasta norte-americano, não será nenhum absurdo.

“Infiltrado na Klan” conquistou o Prêmio do Júri de Melhor Filme do Festival de Cannes em maio (ou seja, a crítica europeia também se rendeu às suas qualidades). Em seu elenco principal, temos John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier e Topher Grace. Orçado em US$ 15 milhões (uma pechincha para os padrões de Hollywood), esta produção é uma comédia dramática histórica com uma pegada de thriller policial. Impossível não gostar dessa combinação.

O filme de Spike Lee foi baseado em “Black Klansman”, o livro autobiográfico de Ron Stallworth, policial negro que se infiltrou, na década de 1970, na Ku Klux Klan para combater os racistas que planejavam a realização de uma série de assassinatos no Colorado. Vale lembrar que esta região no centro dos Estados Unidos é ainda hoje uma das mais conservadoras do país e, infelizmente, continua tendo grupos adeptos da supremacia branca. Para dar mais dramaticidade à história do longa-metragem, Lee (que além de dirigir também produziu o roteiro) fez pequenas modificações na linha central da trama.

Curiosamente, aos olhos do público atual, a narrativa de Stallworth pode até parecer absurda, completamente inverossímil. Entretanto, ela aconteceu de verdade, o que confere maior charme à trama. Incrível o feito deste policial corajoso e um tanto transloucado. Ao final do filme, me recordei das palavras de Luigi Pirandello em "O Falecido Mattia Pascal" (Abril), um dos romances mais famosos do italiano:

"A vida, por todos os seus descarados absurdos, grandes e pequenos, dos quais está tranquilamente repleta, tem o inestimável privilégio de poder prescindir daquela estúpida verossimilhança, à qual a arte se crê obrigada a obedecer. Os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros. Ao contrário dos da arte que, para parecerem verdadeiros, precisam ser verossímeis. E sendo verossímeis, deixam de ser absurdos. Um acontecimento da vida pode ser absurdo; uma obra de arte, se é obra de arte, não. De onde se deduz que tachar uma obra de arte de absurda e inverossímil, em nome da vida, é tolice. Em nome da arte, sim; em nome da vida, não".

“Infiltrado na Klan” se passa em 1972 na cidade de Colorado Springs, um local explicitamente racista. Ron Stallworth (interpretado por John David Washington) é o primeiro e, até então, único policial da corporação. Novato no departamento, ele só foi contratado por uma iniciativa política do prefeito. O mandatário do município, em parceria com o chefe de polícia, queria se mostrar mais aberto às causas da população negra. Daí a integração de um único agente negro na instituição flagrantemente racista.

A expectativa era que Ron Stallworth aceitasse o trabalho burocrático e ficasse numa boa dentro da delegacia. Ambicioso, destemido e irreverente, o jovem rapidamente se rebela contra aquela situação e consegue ser enviado para a rua. Dependendo da tarefa que a polícia precisa fazer, ter um agente negro em seu quadro é uma grande vantagem. Assim, Stallworth é alçado rapidamente ao posto de protagonista. Por exemplo, ele consegue se infiltrar facilmente em uma organização que prega o empoderamento negro (algo que seus colegas brancos jamais conseguiriam). Ali, o policial conhece Patricia Dumas (Laura Harrier), a presidente do comitê de orgulho Black Power.

No início da década de 1970, é preciso contextualizar, Colorado Springs (e boa parte dos Estados Unidos) sofria com a polarização racial: de um lado havia grupos de brancos querendo a perpetuação do racismo e de outro lado existiam grupos de negros desejando pegar em armas para impor seus direitos civis. O clima bélico estava no ar e muitos crimes de origem racial eram noticiados diariamente pela imprensa. A situação estava fugindo de controle. As autoridades temiam um derramamento de sangue ou uma nova guerra civil.

Já nas primeiras missões realizadas, Ron Stallworth vai muito bem, agradando ao delegado. Por isso, ele consegue uma vaga na área de Inteligência do distrito. No novo posto, o policial negro resolve investigar o Ku Klux Klan. Tendo como arma um telefone (e uma lábia acima da média para se passar por um homem branco e racista), Ron se torna amigo dos mais influentes integrantes da Klan. Cativando as pessoas do outro lado da linha, ele chega ao ponto de se tornar próximo de David Duke (Topher Grace), o grande líder da Ku Klux Klan. Quando essas amizades precisam se tornar reais, Ron Stallworth ganha um problemão. Ele não pode aparecer pessoalmente na frente de seus novos “amigos”. Afinal, um negro jamais será bem-vindo dentro de uma organização racista! Por isso, é convocado Philip Zimmerman (Adam Driver), um policial branco da delegacia, para se passar por Stallworth quando as ações exigirem contato pessoal com os investigados. Ron continua com suas ligações telefônicas. O que parecia ser a solução ideal para a situação se transforma em um pesadelo para os policiais. Zimmerman, apesar de branco, é judeu. E o pessoal da Klan odeia tanto os negros como os judeus.

A dupla Ron Stallworth e Philip Zimmerman entrará nos bastidores da Ku Klux Klan como nenhum policial de Colorado Springs conseguiu até então. Se eles estão próximos de descobrir os planos dos racistas, eles também podem ser desmascarados a qualquer momento pela organização secreta. A missão tem muitos riscos e enganar um grupelho tão fechado e violento não será fácil. Conseguirão Stallworth e Zimmerman realizar seus trabalhos e ainda sair vivos dessa difícil empreitada? Esse é o suspense do filme.

Com 2 horas e 16 minutos de duração, “Infiltrado na Klan” é um longa-metragem com um ótimo ritmo, muita ação e várias cenas engraçadas. Trata-se de uma produção que consegue agradar tanto quem busca conhecimento e conscientização quanto quem quer entretenimento. Enquanto se diverte com uma trama policial de tirar o fôlego, a plateia fica chocada com os relatos de violência racial que a população negra sofria (ou sofre) no país mais desenvolvido do mundo. Em muitos momentos, o longa-metragem de Spike Lee parece um mix de ficção e documentário. É muito legal essa mistura de gêneros cinematográficos.

Não dá para falar de “Infiltrado na Klan” sem citar as atuações magistrais de John David Washington e Adam Driver. A dupla dá show de interpretação e são nomes quase certos na indicação dos principais prêmios do cinema norte-americano. Se bem que Rami Malek continua como meu favorito ao Oscar de melhor ator em “Bohemian Rhapsody” (2018).

O ponto alto de “Infiltrado na Klan” é o seu desfecho surpreendente e realista. Quando tudo parece caminhar para um final feliz, a investigação de Ron Stallworth e Philip Zimmerman cai nas amarras da política racista da cidade. A sensação é de uma grande injustiça. A pancada no estômago da plateia é, portanto, forte. Para completar o clima amargo, as cenas derradeiras do filme de Spike Lee são reais, retiradas de acontecimentos verídicos do ano passado. Eu disse do ano passado! Ou seja, o racismo continua sendo um câncer da sociedade norte-americana. Infelizmente, os grupos que fazem apologia à supremacia branca continuam existindo e sendo bastante atuantes. E ainda hoje há políticos que compram esses ideais. Se lá nos Estados Unidos Donald Trump é o principal porta voz dos racistas, por aqui colocamos no mais alto cargo do executivo federal alguém muito parecido.

Este longa-metragem tem incontáveis acertos. De forma geral, podemos classificá-lo como um filmaço. Porém, ele também tem alguns problemas que não podem ser disfarçados. O primeiro é em relação a coleção interminável de absurdos e de coincidências que atrapalham a verossimilhança da história. Entendo que “Infiltrado na Klan” foi baseado em um livro autobiográfico, mas a impressão que temos durante sua sessão é que o roteiro foi feito por alguém muito ingênuo, que não acredita na inteligência do espectador. Volto novamente nas palavras de Pirandello: Um acontecimento da vida pode ser absurdo; uma obra de arte, se é obra de arte, não”.

Outra questão que fica evidente na adaptação cinematográfica é a inconsistência histórica. Como uma trama passada nos primeiros anos da década de 1970 pode antecipar fatos ocorridos somente no final daquela década, hein?! Isso, contudo, não é o pior. O erro de continuidade narrativa em uma cena chave no finalzinho do filme (quando Ron Stallworth parte de carro e em alta velocidade para a casa de Patricia Dumas) é mais gritante e pode incomodar quem é exigente e repara nos detalhes.

É inegável que depois dos protestos contra a ausência de artistas negros no Oscar de 2016, Hollywood se transformou para melhor. Se por um lado tivemos alguns exageros, a premiação de “Moonlight – Sob a Luz do Luar” (Moonlight: 2016) como melhor filme de 2017 foi o maior deles (uma escolha que preferiu a politicagem aos aspectos técnicos), por outro lado nunca tivemos tantos enredos bons com a temática de valorização dos negros e da exposição dos males do racismo. Neste ano, além de “Infiltrado na Klan”, temos os ótimos “Green Book – O Guia” (Green Book: 2018) e “Se a Rua Beale Falasse” (If Beale Street Could Talk: 2018). No ano passado, tivemos os excelentes “Corra!” (Get Out: 2017) e “Marshall – Igualdade e Justiça” (Marshall: 2017) e, em 2017, o destaque foi para “Estrela Além do Tempo” (Hidden Figures: 2016).

Veja o trailer de “Infiltrado na Klan”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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