• Ricardo Bonacorci

Livros: A Nudez da Verdade – A divertida novela de Fernando Sabino


Neste sábado, li uma pequena joia da literatura brasileira. O livro é o sexto e último do Desafio Literário de novembro que o Blog Bonas Histórias se propôs a estudar. A obra em questão é “A Nudez da Verdade” (Ática), uma das mais famosas e divertidas novelas de Fernando Sabino, escritor e jornalista mineiro que viveu desde os vinte e um anos de idade no Rio de Janeiro.

O forte da produção literária de Sabino, falecido em 2004, sempre foram os contos e as crônicas. Ele sabia como ninguém retratar os dramas, as alegrias e os desafios cotidianos das pessoas comuns nos grandes centros urbanos. Muitas de suas histórias foram publicadas em jornais. Outras tantas foram reunidas em coletâneas e, mais tarde, lançadas em livros.

Foi com as narrativas curtas que Fernando Sabino conquistou a admiração do público e a maioria dos seus prêmios literários (entre eles, o Jabuti e o Machado de Assis). É verdade que alguns romances do autor também foram muito elogiados e premiados. “Encontro Marcado” (Record), de 1956, e “O Grande Mentecapto” (Record), de 1979, respectivamente o primeiro e o segundo romances do autor, são até hoje lembrados. “O Grande Mentecapto” chegou a ganhar um Jabuti. Há quem prefira “Martini Seco” (Ática), de 1987, um divertido romance policial. Na minha visão, por melhores que sejam os romances de Fernando Sabino, nada supera a excelência de suas crônicas e contos. Prova maior disso é “A Nudez da Verdade”.

“A Nudez da Verdade” foi publicado como livro independente somente em 1994. Contudo, sua história é bem mais antiga. A trama foi apresentada ao público pela primeira vez em um conto chamado “O Homem Nu”. Essa narrativa integrou a publicação homônima de Fernando Sabino de 1960, uma coletânea que misturava contos e crônicas. Obviamente, o livro “O Homem Nu” (Record) pegou emprestado o título do seu principal conto. A história do homem pelado que tentava fugir da multidão ensandecida ficou tão famosa que foi, ainda na década de 1960, adaptada para o cinema. Roberto Santos dirigiu “O Homem Nu” (1968), filme protagonizado por Paulo José.

Como estratégia editorial, a Editora Ática resolveu, na década de 1990, relançar esta narrativa, desvinculando-a das demais histórias apresentadas na coletânea de contos e crônicas de 1960. Assim, Fernando Sabino revisou e incrementou seu texto. Nascia “A Nudez da Verdade”, agora na versão novela. Na metade da década de 1990, esta história de Sabino foi adaptada mais uma vez para o cinema. O filme “O Homem Nu” (1996) teve a direção de Hugo Carvana. O protagonista dessa vez foi Cláudio Marzo, com uma atuação memorável.

Na novela “A Nudez da Verdade”, Sílvio Proença é um professor de folclore nacional de 38 anos de idade. Ele mora no Rio de Janeiro com sua esposa, Carla. Proença se prepara para viajar para São Paulo. Na capital paulista, ele lançará seu novo livro, uma obra escrita a partir de suas pesquisas sobre a cultura popular brasileira. Com a mala em mãos, o professor e pesquisador se despede da esposa, que na última hora não quis viajar com ele. Surpreendentemente, Carla optou por permanecer em casa a ter que viajar com o marido.

Ao chegar ao aeroporto carioca, Sílvio Proença descobre que os voos para São Paulo estão atrasados. Um forte temporal cai sobre a cidade paulista, prejudicando as decolagens e os pousos. Sem ter o que fazer, ele se dirige a um bar. Lá, encontra alguns amigos e alunos que também vão viajar. Regados por muita cerveja, o grupo toca um samba animado e joga conversa fora. Proença resolve se divertir um pouco enquanto espera e acaba se juntando à festeira mesa. Algumas horas mais tarde, vem a informação. Todos os voos para a capital paulista daquele dia foram cancelados. Assim, o grupo de amigos decide dar uma passada na casa de Marialva, uma bonita moça que acompanhava a cantoria, para prosseguir no samba e na bebedeira.

A festa improvisada no apartamento de Marialva rola até tarde. Quando Sílvio Proença acorda, é manhã e ele está pelado na cama da moça. Então, se recorda de tudo o que aconteceu na noite anterior. O que Carla pensaria se soubesse o que ele tinha feito? Enquanto Marialva toma banho, Proença decide fazer um café para eles. Ainda sem nenhuma roupa no corpo, ele coloca água para ferver e vai até a porta da residência para pegar o pão que foi entregue a pouco. Entretanto, ao recolher o saco de pão colocado no lado de fora, a porta do apartamento se fecha sozinha. A trava é automática. O professor fica preso no lado de fora. Pelado! Ele grita por Marialva. Ela, no chuveiro, não o ouve.

Justamente nesse momento, um casal de vizinhos está saindo de casa. Eles se deparam com Proença peladinho, peladinho da Silva no corredor do edifício. A mulher grita e o marido saca a arma. Ele quer acabar com aquele tarado. Sem pensar duas vezes, Sílvio Proença sai correndo edifício abaixo. Os berros da mulher e os xingamentos do marido armado chamam rapidamente a atenção dos demais moradores do prédio e do porteiro. Em questão de segundos, todos estão atrás do peladão. A única alternativa de fuga para o professor é pular o muro do condomínio e sair em disparada pela rua. É o que ele faz.

Assim, começa a aventura do homem nu pela cidade do Rio de Janeiro. O rapaz precisará fugir da polícia, dos jornalistas e dos moradores revoltados. Seu desespero prosseguirá até a manhã seguinte. Todos parecem condená-lo só porque ele está sem roupa. São, portanto, quase 24 horas de agonia que Proença precisará passar até resolver essa situação delicada e extremamente constrangedora.

“A Nudez da Verdade” é uma novela divertidíssima. Eu a li em aproximadamente uma hora. O livro possui menos de 100 páginas, o que permite ao leitor ler esta história de ponta a ponta em um fôlego só.

Como não poderia ser diferente, a primeira coisa que chama a atenção neste livro é o humor de Fernando Sabino. Ele é mestre em produzir narrativas engraçadas e inteligentes. A graça da novela não está apenas na situação bizarra em que o protagonista se encontra (o enredo da obra). Ela está também presente em toda a narrativa: no comportamento/reação das demais personagens (o policial que entra em um vestiário masculino de clube à procura de um homem nu, a mulher que se lamenta por não ver um homem pelado há muito tempo, etc.) e nas várias situações inusitadas (Sílvio se esconde dentro de um armário, que está em um caminhão de mudança, e Marialva correndo atrás do pelado com a mala para ajudá-lo, por exemplo). O escritor mineiro conduz sua trama de maneira sublime, surpreendendo o leitor e levando a risada fácil.

O segundo elemento presente em “A Nudez da Verdade” é o forte teor filosófico do texto. A novela de Fenando Sabino leva o leitor a refletir: Afinal de contas, o que há de tão errado em se ver um homem pelado na rua de uma grande cidade? Esse questionamento merece uma reflexão profunda do protagonista e de algumas personagens a sua volta. Nesse sentido, é interessante notar a linha filosófico- religiosa da discussão proposta propositadamente por Sabino.

Gostei também da maneira como o autor construiu as cenas da novela e como ele fez as transições entre elas. Tudo nesta trama é muito enxuto e preciso. O ritmo veloz do texto não permite que o leitor desgrude do livro. Ler Fernando Sabino é estudar como se deve aplicar na prática as técnicas narrativas. Nessa perspectiva, a única coisa que achei um pouco estranha nesta história foi a evolução temporal. Quando o leitor nota, o dia já acabou, sem qualquer indicação da passagem do tempo. O mesmo se deu quando a noite cai. Quando o leitor pisca os olhos, o dia já amanheceu novamente e estamos de manhã. Algumas sinalizações mais claras para indicar o transcorrer das horas não fariam mal.

Vale a pena elogiar a profundidade e a variedade dramática de “A Nudez da Verdade”. Se o conflito no primeiro plano é dominado pela necessidade de roupa por parte do protagonista, no plano secundário temos várias questões sendo explicitadas: fidelidade conjugal, o papel do artista na sociedade, a importância do folclore na cultura popular, a desigualdade de renda no Brasil/Rio de Janeiro, a relação humana com o sexo, a abordagem policial, a violência urbana, etc. Incrível como em poucas páginas e em uma história aparentemente tão simples, Fernando Sabino consegue falar tanta coisa.

E, para encerrar essa análise crítica, preciso mencionar o desfecho de “A Nudez da Verdade”. A novela termina de maneira divertidíssima e muito sagaz. Se o autor conseguiu surpreender o leitor com um enredo diferente e uma narrativa muito bem conduzida, é no desenlace que vemos sua maestria. Se eu tivesse que pensar em um final mais brilhante do que esse, na certa não conseguiria. O desfecho da obra é maravilhoso por vários motivos: nos leva a rir ainda mais; dá um tom cíclico à vida e, por consequência, à trama; em alguns pontos é objetivo e claro; e em outros mantém a subjetividade que enriquece a história.

Adorei este livro. Se você está procurando algo que possa ser lido rapidamente e que traga um conteúdo ao mesmo tempo inteligente e engraçado, “A Nudez da Verdade” é uma ótima opção.

O encerramento do Desafio Literário de Novembro será feito na próxima quinta-feira, dia 29. Retorno ao Blog Bonas Histórias no penúltimo dia do mês para apresentar a conclusão sobre a literatura de Fernando Sabino, um dos principais escritores brasileiros do final do século XX. Não perca!

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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