• Ricardo Bonacorci

Teoria Literária: Análise Literária - 7 - Identificação do estilo autoral


Como vimos no último post da coluna Teoria Literária, há dois tipos gerais de estudos estilísticos na literatura: (1) o voltado para a individualização do autor e (2) o referente à caracterização da escola literária (post publicado em agosto no Bonas Histórias: Definição de Estilo Literário). O primeiro é tradicionalmente objeto de estudo da teoria literária (quando feito com rigor científico) e da crítica literária (quando feito com liberdade metodológica), enquanto o segundo é normalmente estudado pela historiografia literária.

Como nossa ideia hoje é debater a identificação do estilo peculiar de um escritor (e não as características gerais da literatura brasileira contemporânea), o segundo tipo de análise estilística será, obviamente, preterido. Além disso, a análise do estilo autoral deve ser feita segundo as bases conceituais da teoria literária. Afinal, a pretensão de tal pesquisa é tornar-se cientificamente aceita. Exclui-se, portanto, o viés da crítica literária que esse estudo poderia assumir.

A pesquisa sobre o estilo literário de um autor, quando feita segundo os preceitos da teoria literária, deve respeitar todas as etapas de uma análise literária convencional. Contudo, há algumas particularidades que devem ser respeitadas, conforme será detalhado a seguir.

A primeira preocupação do analista literário é reunir obras de um mesmo gênero (ou tipo literário) para estudar (MOISÉS, 2014, p. 26). Não dá para comparar coisas estruturalmente distintas como se fossem iguais. As características de um romance, por exemplo, não podem ser analisadas com as características de uma coletânea de crônicas ou de poesias, apesar do escritor ser o mesmo. Uma novela não pode ser comparada a uma epopeia. Um conjunto de contos é muito diferente de um ensaio. Cada gênero ou tipo narrativo possui suas próprias especificidades que devem ser respeitadas e consideradas pelo analista no momento de realizar seu estudo. A comparação entre gêneros e tipos narrativos diferentes pode inviabilizar de modo geral o trabalho analítico.

O segundo pressuposto básico de uma boa pesquisa científica é o correto estabelecimento de suas bases quantitativas. Apesar de o estudo estilístico remontar essencialmente para a investigação qualitativa das características de um autor, é necessária a definição adequada de alguns parâmetros estatísticos. O principal deles ocorre no momento da escolha de quantas e de quais obras estudar. É a definição da amostra e da amostragem da pesquisa que apontará se ela pode ser considerada minimamente relevante a título quantitativo (DA SILVA, LOPES e BRAGA JÚNIOR, 2014, p. 3-6).

Por exemplo, autores prolíficos, como Stephen King, que possui mais de meia centena de obras publicadas (ROGAK, 2008, p. 14), ou como Nora Roberts, com duas centenas de romances lançados (ROBERTS, 2016, orelha), não podem ter poucas obras analisadas. Uma amostra de pesquisa pequena ou restrita, nestes casos, iria comprometer a margem de segurança do estudo, inviabilizando as descobertas feitas. Ao mesmo tempo, estudar todas as obras desses autores seria humanamente impossível para o analista literário. O ideal, nestes casos, é calcular o número da amostra para uma margem de segurança aceitável e com um baixo erro amostral. Dessa maneira, o estudo ganha total legitimidade estatística (AAKER, KUMAR e DAY, 2001, p. 406-419).

Por outro lado, autores com poucas obras, como Raduan Nassar, com apenas três livros lançados (BONACORCI, 2017), e Emily Brontë, com um único romance escrito (BRONTË, 2010, p. 425-428), exigem uma amostra de pesquisa próxima ao universo amostral. Assim, o ideal é analisar todos os trabalhos desses escritores. A ausência de uma única obra, nestes casos, pode inviabilizar estatisticamente a pesquisa e enviesar negativamente os resultados obtidos (AAKER, KUMAR e DAY, 2001, p. 406-419).

O terceiro elemento fundamental que um bom estudo estilístico deve ter é o uso de recursos estatísticos de mensuração de dados. A identificação das características autorais deve passar pela comprovação quantitativa de suas incidências. Por isso, é recomentado o uso de variáveis como a moda, o desvio padrão, a média e o percentual, para ficarmos nos elementos estatísticos mais básicos. A moda é o valor mais frequente de uma variável. A mediana é o valor que divide uma sequência exatamente ao meio. A média aritmética, por sua vez, é o valor central de uma amostra, obtido pela divisão da soma dos valores pela sua frequência. E o percentual é à fração por cento (DA SILVA, LOPES e BRAGA JÚNIOR, 2014, p. 7).

E a quarta e última característica é o uso pelo estudioso da literatura de um modelo de análise formal. Como um estudo proveniente da teoria literária, este também exige uma estrutura analítica como base conceitual. A utilização de uma matriz de análise confere maior objetividade à investigação estilística, permitindo o detalhamento tanto da metodologia utilizada pelo pesquisador quanto da forma pela qual as evidências do estilo literário do autor pesquisado foram descobertas.

Portanto, o analista literário que quer produzir um trabalho acadêmico sério e conceituado no campo da teoria literária e do estilo literário deve recorrer sempre a um modelo analítico. Importante ressaltar que esta não é uma particularidade exclusiva do estudo estilístico, mas de boa parte do estudo literário que é feito segundo os preceitos da teoria literária.

Infelizmente, não existe um modelo específico e amplamente aceito para ser usado em todos os estudos literários. As inúmeras matrizes analíticas criadas ao longo das décadas pelos teóricos da literatura e pelas diferentes correntes literárias exigem uma atenção redobrada do analista no momento da escolha da melhor matriz para sua investigação. Cada modelo tem uma utilidade específica. Por exemplo, uma investigação que se propõe a pesquisar a retórica utilizada por um escritor em suas obras não pode ter o mesmo modelo de análise de um trabalho que visa descobrir a temática preponderante de um autor em seu portfólio. Para tornar tudo mais complexo, ainda há casos em que não há sequer um modelo estabelecido para determinados estudos.

Assim, o ideal é que o analista selecione algum modelo que atenda às suas necessidades ou, quando isso não for possível, que ele mesmo formule uma matriz própria de investigação. O que não pode, segundo o princípio da teoria da literatura, é querer realizar um estudo literário sem qualquer modelo analítico que sirva de base de observação. Se isso ocorrer, não se está fazendo teoria literária e sim crítica literária.

No mês que vem, retorno ao Bonas Histórias para fazer um fechamento desta primeira temporada da coluna Teoria Literária. Espero que todos tenham gostado do debate sobre Análise Literária e, mais no finalzinho do ano, sobre Estilo Literário/Estilo Autoral.

Bibliografia:

AAKER, David A.; KUMAR, V.; DAY, George S. Pesquisa de Marketing. São Paulo: Atlas, 2001.

BONACORCI, Ricardo. Livros: Lavoura Arcaica - A Impressionante Novela de Nassar. Post do Blog Bonas Histórias. São Paulo: 10 mar. 2017. Link disponível em: https://www.bonashistorias.com.br/single-post/2017/03/08/Livros-A-impressionante-novela-de-Nassar.

BRONTË, Emily. O Morro dos Ventos Uivantes. Coleção Clássicos Abril. São Paulo: Abril, 2010.

DA SILVA, Dirceu; LOPES, Evandro Luiz; BRAGA JÚNIOR, Sérgio Silva. Pesquisa Quantitativa - Elementos, Paradigmas e Definições. São Paulo: Revista de Gestão e Secretariado (GeSec). v.5 n.1 jan. abr. 2014. p. 11-18.

MOISÉS, Massaud. A Análise Literária. 19a ed. São Paulo: Cultrix, 2014.

ROBERTS, Nora. Um Novo Amanhã. São Paulo: Arqueiro, 2016.

ROGAK, Lisa. Stephen King, a Biografia - Coração Assombrado. Rio de Janeiro: DarkSide Books, 2008.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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