• Ricardo Bonacorci

Filmes: O Goleiro do Liverpool – Olhar norueguês sobre o bullying escolar


Hoje à noite, fui ao Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no Centro de São Paulo, para assistir ao filme “O Goleiro do Liverpool” (Keeper’n Til Liverpool: 2010). Este longa-metragem integra a “Mostra de Cinema Norueguês” que o CCBB está promovendo entre os dias 5 e 17 de dezembro. A mostra, que neste ano chega à sua segunda edição, traz ao público brasileiro as principais produções cinematográficas do país escandinavo. As duas principais novidades deste ano são a exibição de “Eu Sou Sua” (Jeg er Din: 2013), premiado drama da diretora Iram Haq que foi escolhido para representar a Noruega no Oscar de 2014, e a apresentação da terceira temporada de “SKAM”, a websérie da diretora Julie Andem que se tornou uma febre em seu país.


Minha escolha por “O Goleiro do Liverpool” foi simples: queria ver uma produção que aliasse êxito comercial nas bilheterias e premiação nos principais festivais europeus. E “O Goleiro do Liverpool” obteve as duas coisas. Sucesso de público em seu país entre o final de 2010 e o início de 2011, o filme ainda ganhou o Urso de Cristal do Festival de Cinema de Berlim, em 2011, como o melhor filme sobre a infância.


Lançado em outubro de 2010 na Noruega, “O Goleiro do Liverpool” foi dirigido por Arild Andresen, publicitário que migrou para as produções televisivas e, mais tarde, para o cinema. Este trabalho representou a estreia de Andresen na direção de um longa-metragem. O resultado não poderia ter sido melhor. Ele conquistou o Prêmio Sølvklumpen (uma espécie de Kikito nórdico) na categoria Melhor Diretor de Cinema Norueguês de 2010. Mais recentemente, Arild Andresen dirigiu “Kompani Orheim” (2012) e “Hjertestart” (2017). Em comum entre seus três trabalhos no cinema está um olhar diferenciado para a infância, para as relações entre pais e filhos e para o bullying escolar.

O papel de protagonista de “O Goleiro do Liverpool” ficou com o jovem Ask von der Hagen. Ele dá simplesmente um show de atuação. Repare em seu trabalho neste filme! Mesmo sendo um garoto, o ator mirim sabe a hora de mudar a postura, o olhar e sua atuação de uma cena cômica para uma dramática ou mesmo para um momento de maior suspense. Ou o jovem tem um talento nato ou foi muitíssimo bem dirigido (ou as duas coisas em conjunto).


Em “O Goleiro do Liverpool”, conhecemos Jo Idstad (interpretado por Ask von der Hagen), um menino de 12 anos que mora em uma pacata cidade norueguesa. Depois da morte precoce do pai em um acidente doméstico besta, Jo passou a ser criado apenas pela mãe, uma mulher superprotetora que via perigo em qualquer coisa simples que o filho único fizesse. Assim, Joe cresceu e virou um covarde.


Como consequência mais imediata, o menino transformou-se em alvo preferencial do bullying praticado pelos demais garotos da escola. Contudo, ao ver a inteligência de Jo e sua grande habilidade para fazer as lições escolares, Tom (Jostein Brox), o valentão do colégio, fez um pacto secreto com Joe. Se Joe fizesse todos os deveres escolares de Tom, este não iria mais incomodá-lo, protegendo-o até das ações intimidatórias dos demais meninos da escola. O trato foi feito e a vida do protagonista do filme melhorou consideravelmente.

Assim, a rotina de Joe é pautada pela resolução de equações matemáticas e pela coleção de figurinhas de futebol do campeonato inglês. Ele e sua turma de amigos esperam ansiosamente pela última figurinha do álbum para completar a coleção. O item que ninguém tem é o do goleiro do Liverpool (daí o nome do filme). Enquanto espera encontrar a almejada figurinha, Joe faz tudo para não sofrer nenhum acidente que o leve a morte. Por exemplo, ele foge dos campinhos de futebol como o diabo foge da cruz. Na visão do garoto, muitas pessoas morrem anualmente dentro de um campo de futebol e ele não quer ser o próximo.


A vida tranquila da personagem principal dura até a chegada de uma nova aluna na escola. Mari (Susanne Boucher) é uma menina corajosa, decidida e muito inteligente. Além disso, ela é uma ótima jogadora de futebol e adora matemática. Rapidamente, Joe fica apaixonado pela novata. Para ganhar o coração de Mari, ele precisará mostrar que não é um covarde nem um péssimo jogador de futebol. Sua nova postura irá colocá-lo em perigo, algo que ele sempre evitou e teme mais do que tudo neste mundo.


“O Goleiro do Liverpool” é um ótimo filme. Ele consegue aliar muito bem o humor das situações inusitadas que Jo Idstad acaba se metendo (sua personalidade contraditória é um prato cheio para as tiradas cômicas) com o drama do bullying escolar (um problema sério e, infelizmente, cada vez mais universal). Além de engraçado, o longa-metragem de estreia de Arild Andresen consegue ser bastante comovente. A maioria das personagens e o universo infantil da trama são extremamente carismáticos, emocionando o espectador nos primeiros minutos da sessão.

As cenas mais engraçadas do filme surgem quando o protagonista fica imaginando o que poderia acontecer com ele se agisse de forma mais corajosa. A visão negativa e trágica de Jo o leva a vislumbrar as piores consequências possíveis para seus atos aparentemente simples. É hilário ver até onde pode chegar a covardia e a imaginação do garoto.


Os momentos mais comoventes da produção ocorrem quando o espectador espera que Joe largue sua postura medrosa e encare as adversidades da vida com coragem. Entretanto, a personagem consegue frustrar a todos o tempo inteiro. Aí, os suspiros de decepção explodem na sala de cinema. A vontade que a plateia tem, em muitos momentos, é de dar uma boa surra no menino pela sua postura passiva e remediada. Alguns segundos depois, o mesmo público fica comovido com algo que o garoto faz, querendo embalá-lo ou consolá-lo. Os sentimentos contraditórios que o filme provoca são sua principal qualidade.


Quando analisado o comportamento padrão de Jo Idstad, o final do filme destoa um pouco da dinâmica exposta no restante do roteiro. É nítida a vontade do cineasta em querer agradar ao público no desfecho. Isso talvez quebre um pouco a lógica da história e force um pouco os acontecimentos derradeiros. Por outro lado, enfim vemos o processo de transformação do protagonista ser concluído. Mesmo caindo na tentação do final óbvio e feliz, o longa-metragem ainda reserva boas e inteligentes surpresas em seu desenlace.

Admito que gostei muito de “O Goleiro do Liverpool”. O filme possui uma história engraçada, inteligente e comovente. Apesar de ser um longa-metragem que retrata o universo infantil com muita propriedade e perspicácia, seu público prioritário ainda sim é o adulto. Por isso, não vá querer levar uma criança para a sessão de cinema que você terá, na certa, problemas.


A “Mostra de Cinema Norueguês” ficará em cartaz até a próxima segunda-feira. A entrada é gratuita e os ingressos podem ser retirados na recepção do CCBB uma hora antes da sessão. Nos quatro últimos dias da mostra (sexta, sábado, domingo e segunda-feira) haverá exibição de três produções por dia. “O Goleiro do Liverpool” será reexibido no sábado (dia 15) às 15h.


Veja o trailer de “O Goleiro do Liverpool”:

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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