• Ricardo Bonacorci

Livros: Os Anões - Os contos trágico-cômicos de Veronica Stigger


Em 2018, conheci Veronica Stigger, uma das mais originais vozes da literatura contemporânea brasileira, no curso de pós-graduação de Formação de Escritores que fiz no Instituto Vera Cruz. A escritora gaúcha mora em São Paulo desde 2001 e é professora universitária e de oficinas literárias. Ela atua também como crítica de arte. Contudo, confesso que ainda não tinha lido nenhuma de suas obras. Para por fim a esse meu péssimo retrospecto, li, nesta semana, a coletânea de contos "Os Anões" (Cosac Naify).

Veronica Stigger tem seis livros publicados. Os três primeiros foram obras de contos: "O Trágico e Outras Comédias" (7 Letras), de 2004, "Gran Cabaret Demenzial" (Cosac Naify), de 2007, e "Os Anões" (Cosac Naify), de 2010. “Delírio de Damasco” (Cultura e Barbárie), de 2012, é uma coletânea de frases que a autora leu ou ouviu em seu dia a dia. Em 2013, Veronica publicou "Pisanie Swiata" (Cosac Naify), seu primeiro e até aqui único romance. O livro conquistou vários prêmios, entre eles o Prêmio Machado de Assis de melhor romance de 2013 e o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria de melhor romance de autor estreante acima de 40 anos. No ano retrasado, chegou às livrarias "Sul" (Editora 34), a sexta obra de Stigger. Essa narrativa é constituída de três partes inter-relacionadas: um conto, uma poesia e uma pequena peça teatral. De maneira geral, Veronica faz um tipo de literatura que se conveniou chamar de experimental (alguns chamam de Pós-moderna).

O livro "Os Anões" tem 57 páginas e 21 contos (alguns deles são minicontos e outros são microcontos). Suas histórias estão divididas, no sumário, em três seções: Pré-História, História e História da Arte. As narrativas dessas três partes estão misturadas no interior da obra. Os contos da coletânea são: "Os Anões", "Teste", "Curta Metragem", "200 m2", "L'après-mudi de V.S.", "Passo Fundo", "Ceia", "Flávio de Carvalho", "Tatuagem", "Poeta Drummond Flat Service", "Caverna", "Teleférico", "João Cabral", "Maria Martins", "Des Cannibales", "Caça", "Colheita", "Friburgo", "Curta-Metragem II", "Quand Avez-vous le Plus Souffert?" e "Imagem Verdadeira".

"Os Anões", o conto que empresta seu nome à obra, é a primeira trama do livro. Em suas seis páginas (é a narrativa mais longa da coletânea), o leitor assiste a uma briga generalizada em uma confeitaria. Um casal de anões tentou furar a fila e revoltou os demais clientes, que partiram para a violência física. Em "Teste", temos um questionamento feito às empresas do mercado de beleza. "Curta Metragem" é o pequeno roteiro de um filme. Nele, um casal tenta o suicídio ao pular da varanda do apartamento. "200 m2", por sua vez, revela um dia feliz na vida de uma escritora em busca de atenção do público.

"L'après-mudi de V.S." compreende algumas breves indagações vespertinas. "Passo Fundo" é um bilhete deixado por Pati a Bia. Em "Ceia", temos uma curiosa refeição trágico-cômica de um grupo de conhecidos em um restaurante. "Flávio de Carvalho" descreve as informações técnicas de um utensílio doméstico feito de aço inox. "Tatuagem", por sua vez, é o microconto em que José é processado pela família de um poeta por expor em sua tatuagem um verso do artista. "Poeta Drummond Flat Service", outro microconto, é o endereço na cidade de São Paulo do edifício com o nome do famoso escritor mineiro.

"Caverna" relata uma curiosa movimentação de pessoas no interior de uma sala. "Teleférico" narra um trágico acidente que empolga uma plateia presente em um parque. "João Cabral" e "Maria Martins" são microcontos sobre anúncios de imóveis à venda no Rio de Janeiro. Em "Des Cannibales", duas pessoas conversam sobre homicídios realizados por tribos de canibais na África. "Caça" e "Colheita" são microcontos sobre o balanço negativo do primeiro dia da temporada de caça e do primeiro dia de colheita de cogumelos, respectivamente.

"Friburgo" apresenta as estatísticas de mulheres no Brasil que usam lingeries produzidas na cidade fluminense de Friburgo. "Curta-Metragem II" é a continuação do conto "Curta-Metragem". Agora, sabemos o que aconteceu com o casal após sua queda da varanda do apartamento. Em "Quand Avez-vous le Plus Souffert?", temos um passeio no parque protagonizado por uma mãe com instintos assassinos. E "Imagem Verdadeira" mostra parte do texto da certidão de nascimento da autora.

Para começo de conversa (ou seria de análise?), "Os Anões" é uma obra visualmente impactante. Seu design é inovador e muito curioso. O formato da publicação é quadrado e suas folhas possuem gramatura muito mais grossa do que estamos acostumados a encontrar. O livro parece mais uma caixinha de colocar joias do que uma brochura. A beleza do projeto gráfico ajuda a criar a sensação de originalidade e de rebeldia propostas em seu texto. Algo deste tipo só poderia ter sido feito pela Editora Cosac Naify. Que falta ela faz ao nosso mercado editorial, hein?! Este é aquele tipo de livro para guardarmos com carinho em um lugar especial na estante de nossa casa.

Quanto ao seu conteúdo, "Os Anões" é um desfile de violência. A gratuidade e a banalidade dos assassinatos, das agressões físicas e dos suicídios impressionam os leitores, podendo assustar as almas mais sensíveis. Ou seja, junto com as páginas de gramatura especial e de formato diferenciado, o leitor encontra nesta obra o bom e velho derramamento de sangue que estamos acostumados a ver na rotina das grandes cidades brasileiras. Curiosamente, esse é mais ou menos o enredo da cidade do Rio de Janeiro hoje em dia: um visual maravilhoso banhado com violência de todo o tipo e vinda de todos os lados.

Os atos criminosos e sanguinários das personagens dos contos são do tipo nonsense. Com isso, temos um humor negro protagonizado por figuras comuns: fregueses habituais de uma confeitaria de bairro, a mãe no parquinho infantil, o jovem casal bem-sucedido em seu apartamento, os espectadores no interior da sala de cinema, os visitantes do parque de diversão, etc. Na certa, você irá rir de algumas situações muito tristes. É o lado trágico-cômico de Veronica Stigger mexendo com suas emoções!

Portanto, não espere encontrar narrativas leves e tranquilas aqui. O que temos neste livro são tramas densas e muito agressivas, por vezes tristemente engraçadas. Os desfechos das histórias são normalmente com muito sangue derramado. O suicídio parece ser a única escapatória para os habitantes da sociedade contemporânea (ao menos no Brasil). E imaginar que Sérgio Buarque de Hollanda, em "Raízes do Brasil" (Companhia das Letras), acreditava no mito do povo cordial...

Por ser composto de pequenas histórias (na maioria dos casos, mini e micro contos), "Os Anões" pode ser lido muito rapidamente. Acho que concluí sua leitura em menos de uma hora nesta sexta-feira. Gostei bastante deste livro. Veronica Stigger é uma escritora realmente bem-humorada e talentosa. Ela parece encontrar graça e charme nas pequenas bizarrices do cotidiano, surpreendendo o leitor a cada palavra. Incrível!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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