• Ricardo Bonacorci

Livros: Putas Assassinas - A coletânea de contos de Roberto Bolaño


Quando se fala, no Brasil, em Roberto Bolaño (sem o "s" no final do sobrenome), muita gente pensa automaticamente em Roberto Bolaños (com o "s"). Não confundamos alhos com bugalhos, por favor! O primeiro é o escritor chileno que morreu precocemente em 2003, com apenas 50 anos de idade. Bolaño é um dos autores sul-americanos mais cultuados da segunda metade do século XX. Seu estilo influenciou muitos escritores da atualidade e suas obras conquistaram muitos fãs no mundo inteiro. Por sua vez, Bolaños (repare no aparecimento do "s") é o comediante mexicano que ficou famoso na América Latina interpretando os personagens Chaves e Chapolin em programas de TV homônimos. Por mais intensos que sejam os pesares dos adoradores de Chespirito, como o mexicano é chamado nos países de língua espanhola, esse quase xará do chileno não será analisado hoje no Blog Bonas Histórias. Vamos falar aqui exclusivamente de literatura.

Estou falando de Roberto Bolano (o chileno) nesta quarta-feira porque li, neste final de semana, "Putas Assassinas" (Companhia das Letras), uma de suas coletâneas de contos. É verdade que as principais obras de sua carreira foram romances. "2666" (Companhia das Letras) e "Os Detetives Selvagens" (Companhia das Letras) são suas obras-primas. Porém, Roberto Bolaño também foi um contista de mão cheia. Ao longo de sua vida, foram produzidas várias narrativas curtas, que mais tarde acabariam transformadas em cinco livros. A maioria deles foi lançada postumamente. "Putas Assassinas" é provavelmente o livro deste gênero mais famoso do chileno.

Publicado pela primeira vez em 2001, dois anos antes da morte de Bolaño, "Putas Assassinas" possui 219 páginas e tem 13 contos. Suas histórias são: "O Olho Silva", "Gómez Palacio", "Últimos Entardeceres na Terra", "Dias de 1978", "Vagabundo na França e na Bélgica", "Prefiguração de Lalo Cura", "Putas Assassinas", "O Retorno", "Buba", "Dentista", "Fotos", "Carnê de Baile" e (ufa!) "Encontro com Enrique Lihn".

"O Olho Silva" é o primeiro conto do livro. Nele, conhecemos Mauricio Silva, cujo apelido é Olho. Olho é um fotógrafo chileno assumidamente homossexual. Ele deixou seu país logo após o golpe militar que vitimou Salvador Allende. Depois de viver algum tempo no México, o fotógrafo fixou residência na Europa. Contudo, a história mais dramática que Olho vivenciou aconteceu na Índia. Em uma viagem a trabalho pela Ásia, o rapaz deparou-se com práticas violentas da sociedade hindu. Ele, que sempre fora pacifista, acabou diante de horríveis rituais sagrados que expunham a integridade física de crianças. Em "Gómez Palacio", o narrador relata sua experiência como instrutor de uma oficina literária na pequenina cidade ao norte do México chamada justamente de Gómez Palacio. Ali, o professor de literatura conheceu a curiosa diretora do Belas Artes, instituição local que promovia as oficinas. A mulher o levou para passear de carro pelas estradas desérticas da região, convidando-o a entrar em seus devaneios oníricos.

"Últimos Entardeceres na Terra", a terceira narrativa da coletânea, abre uma série de três histórias consecutivas de B., um jovem chileno exilado no exterior após o Golpe Militar de 1973. Em 1975, já vivendo no México, o protagonista viajou de férias com seu pai. O destino da dupla era Acapulco. Depois de alguns dias aproveitando as praias e a tranquilidade do litoral mexicano, pai e filho resolveram procurar prostitutas e locais onde podiam apostar dinheiro em jogatinas de cartas. Aí, as férias sossegadas se transformam em momentos de grande perigo para os pacatos turistas. Em "Dias de 1978", B. já está vivendo em Barcelona. Em uma festa, ele discute acintosamente com U., um conterrâneo que havia sido rebelde esquerdista no Chile. Para não chegar às vias de fatos com o sujeito, o protagonista vai embora da festa. Apesar de ter evitado a briga, B. continua sentindo forte antipatia por U. Ao longo dos anos, ele vibra com as notícias negativas que chegam aos seus ouvidos sobre o esquentado rapaz. Em "Vagabundo na França e na Bélgica", B. faz uma viagem introspectiva em busca de mais informações sobre seu escritor favorito: Henri Lefebvre. Nessa jornada, ele passeia com a amiga M. e se esbalda frequentando a cama de prostitutas locais.

"Prefiguração de Lalo Cura", o sexto conto da obra, aborda a paixão de um rapaz, Lalo Cura, pelos filmes da Produtora Cinematográfica Olimpo e pelo cineasta alemão Helmul Bittrich, o proprietário da empresa hoje inativa. A Olimpo era a produtora colombiana de filme pornográficos que, na década de 1980, a mãe de Lalo, um ex-prostituta, trabalhou. Ela inclusive atuou grávida. O rapaz adora assistir às antigas produções de sua mãe, quando ele era pequeno ou quando ainda estava na barriga dela. "Putas Assassinas", a narrativa que dá nome ao livro, se passa em um quarto na periferia de uma cidade sul-americana. Após assistir à apresentação de um grupo de dançarinos de conga pela televisão da sua residência, uma moça toma banho, se troca e vai até o estádio para conhecer seu artista favorito. Ao abordá-lo logo após o show, ela o convida para passar à noite em sua casa. O rapaz aceita. Além de fazer sexo com a anfitriã, o dançarino terá algumas surpresas pouco agradáveis naquela visita inesquecível.

"O Retorno" é o relato de um homem após morrer precocemente. O finado rapaz teve uma experiência curiosa ao encontrar-se sem vida. As horas entre a saída do corpo e o enterro foram surpreendentes. "Buba" é o conto sobre a vida de um jogador de futebol chileno na cidade de Barcelona. Depois de um começo ruim, com contusões e atos de indisciplina, o habilidoso atleta sul-americano teve uma carreira vitoriosa no clube catalão. O motivo da reviravolta foi um estranho ritual feito antes das partidas por um colega de time. Em "Dentista", um homem que mora na cidade do México visita de férias um antigo amigo de juventude que está vivendo em Irapuato, um pequeno povoado no interior do país. Esse amigo, que é dentista, apresenta ao visitante um adolescente chamado José Ramírez. Ramírez é um índio pobre que gosta de escrever. Segundo o dentista, o rapaz tem um talento fenomenal para produzir narrativas breves.

"Fotos" é o conto em que acompanhamos o fluxo de pensamentos de Arturo Belano, um fã de literatura francesa. Em uma região remota da África, ele lê uma obra sobre as histórias pessoais e as trajetórias profissionais de alguns dos mais importantes poetas da França. "Carnê de Baile" descreve, em primeira pessoa, a vida de um ex-revolucionário comunista chileno. A mãe do narrador era uma fã de Pablo Neruda. Por isso, o filho, agora um exilado político na Europa, faz uma comparação entre a vida do poeta mais famoso do Chile e a vida no exterior dos esquerdistas do seu país. E em "Encontro com Enrique Lihn", a última história do livro, um jovem escritor sonha com um encontro com Enrique Lihn, um famoso literato do seu país. Em meios aos devaneios do novato, os dois artistas se tornam amigos e confidentes.

A primeira coisa que chama a atenção em "Putas Assassinas" é a sensação de que a obra é autobiográfica. Muitos contos do livro mais parecem crônicas do que tramas ficcionais. Isso se dá principalmente no início da publicação. Afinal, muitas das passagens narradas ali são bastante parecidas à biografia do autor (cidades vividas no exílio, relação com amigos e com a família, pensamentos, comportamentos, etc.). Contudo, outras são nitidamente inventadas. Há devaneios, passagens oníricas e narrações feitas por personagens evidentemente ficcionais (jogador de futebol, por exemplo). Roberto Bolaño parece misturar realidade e invenção em suas histórias, juntando os gêneros narrativos curtos (contos e crônicas) em algo híbrido.

Outro elemento forte em "Putas Assassinas" é o tom melancólico e triste das histórias contadas. Sempre há violência e injustiças, independentemente da época e da região representada. Na maioria dos casos, as tramas retratam a vida de um exilado chinelo no exterior. As narrativas também abordam figuras marginalizadas da sociedade: artistas que vagabundeiam a esmo pelo mundo, pequenos larápios, prostitutas, profissionais do cinema pornográfico, homossexuais, adeptos de magias e de bruxarias, fugitivos políticos, aproveitadores da pobreza e da fé do povo mais pobre, etc.

A intertextualidade literária e as frases longas são marcas destes textos de Roberto Bolaño. O chileno dialoga com vários escritores europeus e sul-americanos, citando e comentando suas obras no meio de suas histórias. Ele também faz algo que ficou famoso com Jorge Luis Borges: inventa dados bibliográficos. Quando isso acontece, o leitor, na maioria das vezes, acredita estar lendo sobre uma figura real. Quanto ao tamanho das frases do chileno, o que posso dizer é que há um conto inteiro de quase vinte páginas escrito em uma única frase. Isso sim é não ter medo de colocar ponto final, né?

E por falar em final, os desfechos dos contos de Bolaño são normalmente abertos. Às vezes, eles podem parecer inconclusivos. Aí, você precisa reler a narrativa. Em alguns casos, a conclusão está no início e não no final da trama (um recurso interessantíssimo). Em outros casos (como na sequência de três contos sobre B.), a resposta do que aconteceu em uma história pode ser deduzida no contexto das tramas seguintes.

"Putas Assassinas" é um ótimo livro. Quem não tem (ou ainda não teve) coragem de se aventurar pelo interminável "2666", obra máxima da carreira de Bolaño que possui mais de 850 páginas, esta coletânea de contos é uma ótima introdução à literatura do chileno. Na certa, uma vez lido este livro, o leitor irá se sentir propenso a ler outras obras do autor. Como já li "2666", admito ter ficado com vontade de conhecer o elogiado "Os Detetives Selvagens", a primeira grande obra de Roberto Bolaño. O romance de 1998 conquistou o Prêmio Rómulo Gallegos do ano seguinte como o melhor livro ficcional escrito em língua espanhola.

Se Roberto Bolaños (olha o "s" novamente aí!) é um gênio do humor do nosso continente, Roberto Bolaño não fica atrás quando o assunto é literatura. Conhecer o segundo é tão importante quanto relembrar o trabalho do primeiro.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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