• Ricardo Bonacorci

Contos: Paranoias Modernas - Pedido Natalino


Papai Noel andava de um lado para o outro em sua casa. Era uma manhã de inverno típica da Lapônia. Do lado de fora, os blocos de neve se acumulavam insistentes na paisagem. No interior da residência, seu proprietário estava pensativo e totalmente indiferente ao cenário gélido. Às vezes, ele, em meio ao vai para lá, vem para cá, resmungava baixinho como se discutisse consigo mesmo.

Tal comportamento era incomum para aquela época do ano. O trabalho mais intenso antes do Natal já havia se encerrado. Os presentes das crianças do mundo inteiro estavam devidamente embalados e etiquetados. Faltando três dias para a data tão aguardada, o bom velhinho e suas renas precisavam descansar. A maratona entre 24 e 25 de dezembro exigia um esforço descomunal de todos da equipe. Mesmo sabendo da importância de se poupar energia na antevéspera de Natal, Papai Noel caminhava com a cabeça abaixada pelos cômodos de sua casa.

- Qual é o problema, meu velho? - quis saber Mamãe Noel. Ela estava sentada no sofá da sala costurando a roupa vermelha que seria usada em poucos dias pelo marido - Você não pode se estressar agora! É preciso relaxar.

O senhor de barbas brancas não respondeu. Como se não tivesse ouvido a fala da esposa, continuou, em silêncio, sua perambulação. Seu problema deveria ser muito sério para ele agir daquela maneira, pensou Mamãe Noel. Ela largou seus afazeres e foi para perto do marido, que neste instante estava circulando a mesa da cozinha.

- É problema com o Natal deste ano, né?! Pode me contar sua preocupação. Quem sabe não posso ajudá-lo como já fiz tantas vezes.

Papai Noel olhou a esposa nos olhos pela primeira vez naquele dia. Depois de tantos anos juntos, ela permanecia sendo sua confidente e a parceira mais fiel. Ele não queria preocupá-la com suas dificuldades de trabalho, mas também sabia que ela era a única pessoa que poderia solucionar aquela complicada questão. Por isso, sentou-se à mesa da cozinha.

- O problema é com o presente de uma família. Só falta este para eu fechar a lista deste ano.

- Assim você me mata de susto, Claus! Achei que fosse algo relacionado às renas ou ao trenó. Só um presente, então? Vá até a sua oficina e produza o brinquedo. Faltam três dias para o Natal. É tempo suficiente. Achei que fosse um problema mais grave...

- É grave sim, meu bem. Não sei como presenteá-los.

- Como assim? - Mamãe Noel ainda não compreendia o motivo para tanto desespero - O que eles pediram para você?

- A mesma coisa dos anos anteriores - o marido demonstrava seu desânimo atirando o corpo para trás na cadeira - As crianças deste lar vêm repetindo o pedido há três gerações. Agora, estou em uma situação que não consigo mais atendê-los.

- E o que eles sempre pedem, afinal?

- Um ano melhor.

Mamãe Noel riu achando a solicitação inusitada. Apesar da aparente simplicidade do pedido, havia uma lógica inteligente por trás dele. Não havia nada melhor para uma família ganhar do que um ano melhor do que o anterior! Diante da risada da esposa, o bom velhinho explicou para ela como aquela história tinha se iniciado. A questão era muito mais grave do que ela estava pensando.

Há sessenta anos, ao ver a miséria de sua casa, um menino pobre fez um pedido singular: "Papai Noel, desejo para este Natal um ano melhor para minha família". Na ocasião, a solicitação foi considerada simples por Santa Claus. Ele entregou um belo assado para a ceia natalina daquela gente. O presente foi considerado o melhor que a família, que não via um pedaço de carne há muito tempo, poderia receber.

No ano seguinte, o menino fez o mesmo pedido: "Quero um ano melhor, Papai Noel". Como os parentes do garoto não passavam mais fome, o bom velhinho trouxe brinquedos simples para as crianças. Elas adoraram, já que não tinham ganhado nada deste tipo no ano anterior. Para os adultos, Noel trouxe ferramentas de trabalho. Aquele foi considerado o melhor Natal por todos da família.

Passados outros doze meses, o menino repetiu a solicitação. O progresso naquela casa era evidente. Com as ferramentas ganhas no final do ano, os adultos puderam aumentar o trabalho e colocar mais comida à mesa. Também puderam construir novos brinquedos para a criançada. Vendo a nova situação, Papai Noel trouxe uma linda árvore de Natal para embelezar o ambiente. Foi envolta dela que a família celebrou o que considerou a melhor e mais farta ceia da sua história.

Rapidamente, aquele garoto se transformou em um homem. Já adulto, ele ensinou seus irmãos e primos menores o que deveriam pedir ao Papai Noel nos Natais. Assim, o bom velhinho, ano após ano, trouxe algo melhor para aquela família. A tradição foi mantida. Os filhos, os netos e os sobrinhos daquele primeiro garoto aprenderam o pedido natalino e passaram a repeti-lo todas às vezes.

Dessa maneira, se passaram três gerações. Os presentes se tornaram cada vez mais elaborados. Afinal, a família havia enriquecido muito ao longo do tempo.

- Por isso, não sei o que fazer neste ano, querida, para contentá-los.

Mamãe Noel, enfim, compreendeu a gravidade do problema do marido. Depois de muito, muito tempo, alguém corria o risco de não ter seu pedido atendido no Natal.

- Qual foi o presente que você deu para eles no ano passado, meu velho?

- Vendo aquela família rica e feliz, resolvi fazer algo diferente na última hora. Depois de levar os presentes para as crianças do mundo inteiro, visitei aquela casa no finalzinho da ceia. Como não tinha nada concreto para entregar-lhes, resolvi quebrar o protocolo e aparecer pessoalmente. Quando cheguei, todos estavam muito tristes, achando que eu os esquecera pela primeira vez. A minha presença encheu a residência de alegria. Eles não acreditavam que eu resolvera me revelar para eles. O avô chorava emocionado ao me conhecer pessoalmente. Agradeceu pelos presentes à sua família nestes anos todos. Depois, levei as crianças para passear em meu trenó. Elas adoraram o voo. Quando fui embora, ouvi-os dizendo: "Este foi o melhor Natal da história! Sempre sonhamos em conhecer o Papai Noel e ele apareceu especialmente para nós".

O problema era muito maior do que Mamãe Noel poderia supor. Aparentemente, não havia mais nada o que pudesse ser feito para tornar a experiência natalina daquela família melhor. Depois de pensar por alguns minutos, ela se levantou da mesa da cozinha com um sorriso nos lábios.

- Tive uma ideia!

Com a roupa vermelha em perfeito estado, Papai Noel tocou a campainha da mansão. Era manhã de 24 de dezembro. Ao invés de deixar aquela residência por último, como havia feito no ano anterior, agora ela era a primeira a ser visitada. A alegria foi geral. Todos estavam ansiosos para saber o que o bom velhinho iria aprontar desta vez. Ao ser perguntado sobre o que tinha trazido, ele respondeu:

- Trouxe todos os presentes do mundo para vocês. Em meu trenó, há os brinquedos que as crianças dos quatro cantos do planeta pediram. É tudo para vocês, meus queridos amigos.

Imediatamente, as crianças soltaram um grito de felicidade, correndo em direção aos embrulhos. Havia de tudo ali, coisas que elas imaginavam e que não imaginavam existir. Apesar de já possuírem uma infinidade de carrinhos, bonecas, videogames, bicicletas, bolas, jogos e roupas, é da natureza humana sempre se querer mais. Por isso, os pequenos reviravam com empolgação o grande trenó atrás de novos brinquedos.

Vendo os filhos, os netos e os sobrinhos radiantes de alegria, os adultos se sentiram ainda mais satisfeitos. Nunca viram tantos brinquedos juntos na vida e não imaginavam que a criançada pudesse se divertir tanto abrindo os pacotes.

- Este é o melhor Natal de todos! - disse uma das crianças extasiada.

Papai Noel acompanhou aquele espetáculo com os olhos. Depois, entrou na luxuosa casa. Lá dentro, serviram-lhe o café da manhã. Ele estava feliz, pois outra vez conseguia cumprir o pedido daquele lar. Enquanto degustava a refeição matinal, o velhinho da Lapônia sentiu a presença de alguém ao seu lado. Era o senhor que havia iniciado, quando garoto, a tradição do pedido natalino de sua família. Ele observava o bom velhinho com curiosidade.

Era nítido que o proprietário da residência era um homem muito rico e realizado na vida. Ele vestia roupas caras e tinha a postura típica das pessoas bem-sucedidas. Os dois senhores trocaram olhares confidentes como só fazem velhos amigos. O dono da casa jamais esquecera do seu passado e da ajuda recebida nos momentos mais difíceis.

- Papai Noel, gostaria de agradecer o que o senhor fez pela minha família neste ano. Nunca os vi tão felizes. As crianças não param de abrir presentes e acho que elas vão se cansar antes de completarem um milésimo dos embrulhos.

- É um prazer trazer alegria e felicidade para esta casa. Esta é minha função. Este é o sentido do Natal!

- Porém, estou com uma dúvida que está remoendo minha consciência. E o restante das crianças do mundo? O que elas vão ganhar se minha família está recebendo todos os presentes que o senhor fez?

- Nada! Não dá para oferecer um Natal melhor para vocês sem prejudicar o dos outros - Santa Claus falava naturalmente enquanto comia um pedaço de bolo de chocolate - Por isso, resolvi atender sua família como ela merece neste ano e deixar as demais para o próximo.

- Isso não é correto! - bradou o senhor rico - As crianças desta casa já têm brinquedos suficientes para uma vida inteira. Elas não precisam de mais nada. Elas estão felizes agora porque estão abrindo os presentes, mas depois vão largá-los e ignorá-los. Eu as conheço muito bem. Trata-se de uma alegria passageira. O destino da maioria desses produtos será o lixo amanhã.

- Este será o melhor Natal delas, acredite em mim - Papai Noel lambia os dedos sujos - Elas podem não fazer nada amanhã com os brinquedos ganhos, mas hoje vão se esbaldar.

- Não!!! - O dono da casa bateu com tanta força na mesa que os pratos voaram - Você precisa detê-las. Estes brinquedos não são da minha família. Você precisa entregar as encomendas para seus verdadeiros donos.

- Mesmo que eu quisesse fazer isso, agora não é mais possível. Muitos embrulhos estão desfeitos e eu não conseguiria chegar a todas as casas do planeta a tempo - Papai Noel olhou para o relógio que estava pendurado na parede - Já são dez da manhã. Sozinho, não chegaria nem à metade das residências no prazo.

- Nós podemos ajudá-lo, Papai Noel.

O dono da casa chamou toda sua família. Juntos, crianças e adultos começaram a reembrulhar os brinquedos. Terminada a tarefa, todos embarcaram no trenó do Papai Noel para ajudá-lo nas entregas daquele ano. Assim que o veículo natalino pousava em uma determinada localidade, cada um dos integrantes daquela comitiva partia para uma residência para levar o presente solicitado.

A família trabalhou sem parar um instante sequer. Aquela tarefa, apesar de prazerosa, era muito estafante. Onde já se viu entregar um presente para cada criança do planeta em 24 horas?!

Quando os ponteiros do último fuso horário do planeta bateram meia-noite, a tarefa tinha sido concluída com êxito. A felicidade do grupo foi indescritível. Entregar os presentes foi algo que mexeu demais com todos. Nunca aquela família tinha se sentido tão importante e nunca havia feito algo tão generoso.

Quando o trenó pousou novamente no jardim da mansão, todos os moradores daquele lugar desceram do veículo. Estavam estafados, mas também estavam radiantes com a experiência vivida. Entregar presentes era o máximo!

- Obrigado, Papai Noel. Jamais vamos nos esquecer deste dia - foi o comentário geral.

Ao ver o grupo seguir para o interior da residência, o bom velhinho chamou seu amigo mais antigo para uma conversa a sós. O proprietário do lugar voltou para junto do trenó.

- Como vocês me ajudaram durante o dia e a noite, sei que não tiveram tempo para preparar nada para a ceia de hoje. Vocês devem estar famintos! Por isso, tomei a liberdade de trazer este assado. Ele é o meu presente deste ano. Espero que gostem.

Era o mesmo presente que aquele senhor havia recebido em sua infância miserável. O homem, emocionado com as lembranças, agradeceu e entrou no casarão. Do lado de fora, Papai Noel pode ver, através das janelas, a alegria de todos com o presente recebido. Ele chegou a ouvir alguém gritando de felicidade:

- Este é o melhor presente do mundo. Este é o melhor Natal de todos!!!

Nos Natais seguintes, aquela família continuou repetindo o mesmo pedido que já fazia há décadas para o Papai Noel. E permaneceu sendo atendida, apesar de nunca mais conseguir ver o dono do trenó voador. A partir daquele momento, o bom velhinho nunca mais teve dificuldades para propiciar um ano melhor para os integrantes daquela casa. Eles descobriram que o grande prazer da vida não estava em ganhar mais e melhores presentes. A satisfação superior estava em oferecer amor e alegria aos outros. Dar era muito mais intenso do que receber. Neste sentido, a família descobriu algo que o Papai Noel sabia há muito tempo: quem mais ficava feliz nos Natais não eram as crianças e sim quem as contentava.

Por isso, a cada ano, aquela família passou a organizar por conta própria grandes distribuições de presentes para a meninada pobre. Começaram com os filhos e netos dos funcionários das empresas da família. Depois, seguiram com os meninos e meninas dos bairros próximos de onde viviam. Com o tempo, a generosidade daquela gente alcançou todas as partes da cidade e os municípios vizinhos.

Em todo Natal, eles aumentam a escala da ação. O sonho da família é conseguir um dia entregar um brinquedo para cada criança do mundo. Só assim, acham que conseguirão chegar ao ápice da felicidade, como viram certa vez nos olhos de um homem vestido de vermelho que viera visitá-los.

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Paranoias Modernas é a série mensal de narrativas curtas criada por Ricardo Bonacorci. Os 11 contos do quadro estão sendo publicados com exclusividade no Blog Bonas Histórias ao longo deste ano.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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