• Ricardo Bonacorci

Livros: Laranja Mecânica - O romance espetacular de Anthony Burgess


Há filmes que ficaram tão famosos que muita gente não sabe (ou não se lembra) que seus roteiros foram criados a partir de obras literárias. Esse grupo de adaptações da literatura para o cinema é interminável. "O Iluminado" (The Shining: 1980), "O Poderoso Chefão" (The Godfather: 1972), "Entrevista com o Vampiro" (Interview with the Vampire: 1994), "O Silêncio dos Inocentes" (The Silence of the Lambs: 1991), "A Menina que Roubava Livros" (The Book Thief: 2013), "Clube da Luta" (Fight Club: 1999), "Blade Runner - O Caçador de Androides" (Blade Runner: 1982) e "As Pontes de Madison" (The Bridges of Madison County: 1995) são alguns exemplos. Desse grupo, um romance que merece destaque é "Laranja Mecânica" (Aleph), criação magistral do escritor inglês Anthony Burgess. Se o longa-metragem dirigido por Stanley Kubrick, em 1971, é espetacular (um clássico indiscutível do cinema), o livro de Burgess consegue ser ainda melhor (apesar de não ser tão conhecido aqui no Brasil quanto o filme).

"Laranja Mecânica" é um dos mais brilhantes e originais romances do século XX. Ao lado de "1984" (Companhia das Letras), de George Orwell, e "Admirável Mundo Novo" (Globo), de Aldous Huxley, o livro de Burgess faz parte da trilogia das distopias inglesas mais influentes de todos os tempos. Símbolo da alienação da juventude contemporânea e do totalitarismo do aparato governamental, "Laranja Mecânica" é uma narrativa extremamente violenta, filosófica e crítica, além de ser uma experiência linguística única.

Publicado em 1962, "Laranja Mecânica" foi o décimo oitavo (e mais famoso) livro de Anthony Burgess. A carreira de Burgess na literatura teve uma trajetória curiosíssima, digna das mais criativas narrativas ficcionais. Sua estreia aconteceu tarde, apenas aos 39 anos. Sua primeira obra, "Time for a Tiger" (sem tradução para o português), de 1956, faz parte de uma trilogia escrita pelo escritor quando ele ainda integrava o Serviço Colonial da Inglaterra na Malásia. Ao retornar para seu país natal, em 1960, Anthony recebeu uma notícia trágica: ele tinha um tumor cerebral. Sem possibilidade de realizar uma operação nessa parte do corpo, os médicos decretaram que ele tinha apenas um ano de vida. Sem se desesperar, Burgess se mudou com a família para uma pequena cidade litorânea da Inglaterra. Lá, decidiu escrever dez romances. Com os direitos autorais dessas obras, ele poderia conferir uma vida futura mais confortável para sua esposa, mesmo não estando mais presente.

Anthony Burgess conseguiu escrever cinco livros e meio nesse período. Ou seja, em 1961, tinha concluído a produção de cinco romances e havia deixado um inacabado. Por curiosidade do destino, o material incompleto era justamente sua obra-prima: "Laranja Mecânica". Porém, o escritor não morreu após os doze meses decretados pelos médicos. A previsão estava errada. O romancista viveu até 1993, falecendo aos 76 anos. Com o "tempo extra", Burgess aproveitou para finalizar seu livro mais desafiador, lançando-o um ano depois do previsto. Melhor do que essa história real sobre o autor, só mesmo o enredo de "Laranja Mecânica"...

O livro de Burgess é ambientado na Inglaterra em um futuro não tão distante. As ruas das principais cidades do país estão infestadas de adolescentes arruaceiros. A baderna e a violência são generalizadas. Grupos de gangues juvenis assaltam, estupram, matam e vandalizam os cidadãos. Qualquer semelhança com Nova York e Los Angeles das décadas de 1980 e com as grandes metrópoles brasileiras de hoje não é mera coincidência! Como a polícia não consegue reprimir os atos criminosos, a alta cúpula do governo inglês decide tomar medidas radicais para reestabelecer a ordem. Um experimento médico-psicológico é desenvolvido para suprimir o “instinto violento” dos jovens baderneiros. Através de procedimentos de condicionamento pavloviano, uma lavagem cerebral é feita nos indivíduos, forçando-os a abdicarem dos seus comportamentos violentos.

O escolhido para ser a cobaia do experimento estatal é Alexander DeLarge, um jovem de quinze anos que liderava uma gangue juvenil em seu bairro. Faziam parte do seu grupo de criminosos Tosko, Pete e Georgie, rapazes um pouco mais velhos, próximos dos dezoito anos. A vida marginalizada de Alex, como o rapaz era chamado por amigos e familiares, foi interrompida quando ele foi mais uma vez preso pela polícia. O problema era o teor da nova acusação: assassinato. Até então, Alex vivia entrando e saindo de reformatórios adolescentes (algo parecido à Fundação Casa ou à antiga FEBEM). Uma vez na rua, ele voltava a praticar sua diversão noturna favorita: roubar, espancar e estuprar. Ele não tinha qualquer sentimento de remorso ou compaixão pelas suas vítimas.

Contudo, ao ser acusado e condenado por homicídio, Alex é enviado para uma penitenciária adulta. Lá deverá cumprir uma longa pena. Mesmo atrás das grades e vivendo com criminosos mais perigosos e mais velhos do que ele, o rapaz continua aprontando das suas. Aos olhos das autoridades, trata-se de um indivíduo incorrigível. Assim, Alexander DeLarge se torna uma escolha um tanto óbvia para ser o primeiro criminoso a testar o novo tratamento psiquiátrico do governo federal. Se o adolescente for “curado” do “instinto violento”, qualquer criminoso será.

“Laranja Mecânica” é um romance espetacular. Li a obra de Anthony Burgess neste período de Natal e admito ter ficado encantado. Com aproximadamente 200 páginas, o livro surpreende o leitor por três motivos principais: apresentação de inovações linguísticas; o debate crítico-filosófico sobre a essência humana; e a construção de uma narrativa antimaniqueísta.

Alex é quem narra sua história (a trama está em primeira pessoa). Dessa forma, vem à tona no texto a linguagem nadsat, uma coletânea de gírias utilizadas pelos adolescentes da época retratada. Aí, surge o primeiro elemento desconcertante do romance de Burgess: sua linguagem. A narrativa é feita com várias palavras do idioma/linguajar nadsat. No início, o leitor fica completamente perdido, não entendendo muita coisa do que é dito/escrito por Alex. Porém, à medida que as páginas do livro vão sendo lidas, o leitor passa a entrar no universo da personagem principal. Aos poucos, passa a entender seu dialeto e a mergulhar em sua realidade. Essa experiência é incrível! No final de “Laranja Mecânica”, já estamos fluentes em nadsat.

A criação do novo idioma por Burgess foi calcada em profundos estudos linguísticos. O autor inglês era fluente em vários idiomas e um estudioso dessa área. Nada em seu livro é por acaso. O nadsat é basicamente uma mistura de termos russos com palavras do inglês popular e expressões ciganas. Exatamente por isso, a tradução para o português realizada por Fábio Fernandes deve ser tão elogiada nesta edição da editora Aleph (a que tenho em mãos). Por quase um ano, o tradutor mergulhou no universo idiomático de Burgess e recriou o idioma do escritor inglês para o português brasileiro. Vale a pena ler o prefácio de Fábio Fernandes e sua nota explicativa sobre a tradução feita.

Para ajudar o leitor brasileiro, um glossário com os termos nadsat foi inserido no final do livro. No começo da leitura da obra, é legal utilizá-lo para se orientar. Depois de se habituar ao novo idioma, você não precisará dele com tanta frequência. Na versão inglesa, vale a pena dizer, os leitores não tiveram essa ajudinha. O glossário não é um recurso originalmente concebido por Anthony Burgess.

Como eu já havia assistido mais de uma vez ao filme de Kubrick, admito não ter ficado surpreso com a história encontrada em “Laranja Mecânica”. A trama do romance é muita parecida ao do longa-metragem. O que temos em suas páginas é uma sequência extremamente violenta capaz de impressionar até mesmo os leitores mais acostumados às cenas de barbaridade. O relato de Alex é uma sucessão de roubos, estupros, espancamentos e brigas gratuitas. Trata-se de uma leitura muito impactante e extremamente assustadora.

As semelhanças entre as produções literária e cinematográfica vão até o finalzinho. As únicas diferenças narrativas acentuadas entre elas estão em seus desfechos. O longa-metragem acabou suprimindo inexplicavelmente o capítulo final do livro. Curiosamente, essa é a melhor parte da obra de Burgess. As últimas páginas do romance são surpreendentemente filosóficas e, de certa maneira, líricas. Impossível não se emocionar com o que acontece com o narrador.

À medida que o livro avança, vão sendo inseridos mais e mais elementos filosóficos ao texto. A narrativa de Anthony Burgess ganha, assim, mais e mais em riqueza e em crítica social, culminando em um desfecho apoteótico. O que o autor discute com brilhantismo é a essência humana e as fases do nosso desenvolvimento como indivíduos. Além de um ótimo escritor, o inglês se mostrou um excelente observador social.

Outro aspecto que não posso deixar de citar é o tom antimaniqueísta da história. Apesar de todos os defeitos de caráter de Alexander DeLarge, acabamos torcendo por ele. Acho incrível quando o escritor constrói uma trama em que os valores sociais são invertidos (os bandidos são os mocinhos e os policiais os vilões). Em “Laranja Mecânica”, isso fica evidente principalmente na metade do romance para frente. O nosso herói (na verdade, o termo correto é anti-herói) é alguém que protagoniza as maiores atrocidades que se pode imaginar. Mesmo assim, Alex consegue cativar o leitor (não me pergunte como isso é possível – também não sei!). Ao final do livro, já estamos torcendo muito pelo violento protagonista, vibrando com seus sucessos e suas transformações.

“Laranja Mecânica” é um clássico da literatura inglesa e universal do século XX. Se você só conhece o filme de Stanley Kubrick (como era o meu caso até alguns dias atrás) ou viu apenas as adaptações da obra de Anthony Burgess para o teatro (há musicais e peças com as aventuras de Alex DeLarge), aconselho a ler também o romance. O livro de Burgess é magnífico! Esta é uma das melhores obras que li neste ano. A experiência de leitura é incrível, mais impactante do que assistir à produção cinematográfica.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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