• Ricardo Bonacorci

Livros: O Gênio do Crime – O clássico infantojuvenil de João Carlos Marinho Silva


Para postar a primeira análise crítica do Blog Bonas Histórias deste ano, escolhi como leitura (na verdade, ela é uma releitura) um clássico da literatura infantojuvenil brasileira: “O Gênio do Crime” (Global). Várias gerações de brasileiros leram e ainda leem a obra de João Carlos Marinho Silva na infância e na juventude. Em muitos casos, o título serviu e serve de iniciação dos jovens leitores nacionais nos romances policiais. Comigo não foi diferente. Li “O Gênio do Crime” pela primeira vez quando tinha entre onze e doze anos. E, vinte e cinco anos depois, ainda me recordo de várias passagens marcantes do livro. A cena dos meninos perseguindo, pelas ruas paulistanas, o falsário de figurinhas de futebol é memorável. Com esse sentimento de nostalgia, reli esta obra-prima no último final de semana.

“O Gênio do Crime” é a criação mais famosa de João Carlos Marinho Silva, escritor carioca que viveu a maior parte da vida na cidade de São Paulo. Além de ser seu maior sucesso, este livro marcou a estreia do autor na ficção. Vale a pena dizer que “O Gênio do Crime” alcançou mais de um milhão de exemplares vendidos em mais de sessenta edições publicadas ao longo das últimas quatro décadas. Com a ótima aceitação da crítica (que considera até hoje a obra icônica) e do público (que colocou o escritor no patamar dos best-sellers), Marinho Silva deu sequência à carreira de romancista voltando-se principalmente para o púbico mirim.

Aproveitando o sucesso de “O Gênio do Crime”, o autor produziu mais onze livros com as personagens da sua obra de estreia. Nascia assim, a série “Aventuras da Turma do Gordo”. “Sangue Fresco” (Global), o terceiro livro da coleção, ganhou, em 1983, o Prêmio Jabuti de melhor livro infantil lançado no ano anterior.

Resolvi falar sobre “O Gênio do Crime” neste comecinho de janeiro porque o livro de Marinho Silva completa, em 2019, 40 anos de vida. Publicada pela primeira vez em 1969, a obra revolucionou a maneira de se escrever para as crianças. Para muitos críticos literários de renome, Marinho Silva é o grande nome desse gênero no Brasil depois de Monteiro Lobato. Este romance policial possui muito humor, seu texto apresenta gírias adolescentes e altas doses de oralidade, o conflito é bem elaborado e extremamente inteligente, a ação é contagiante, há intertextualidade e o mistério permeia a narrativa do início ao fim.

Ou seja, enfim alguém tratava as crianças e os adolescentes como seres inteligentes e com a capacidade de acompanhar uma trama elaborada e cheia de nuances. Impossível alguém não gostar de um romance policial assim! Reli “O Gênio do Crime” agora (minha carteira de identidade insiste em apontar que tenho trinta e poucos anos de vida) e confesso ainda adorar sua história. Isso não acontece, por exemplo, com as tramas da Coleção Vaga-Lume. Elas parecem muito bobas e extremamente infantis aos olhos dos adultos.

As primeiras edições do livro, lançadas pelas editoras Brasiliense, Obelisco e Círculo do Livro nos anos de 1960, 1970 e 1980, saíram com o subtítulo: “Uma História em São Paulo”. Após a obra entrar no portfólio da Editora Global na década de 1990, um novo subtítulo foi incorporado: “Uma Aventura da Turma do Gordo”. É assim que a publicação é apresentada até hoje.

O enredo de “O Gênio do Crime” começa mostrando o desespero de Edmundo. O menino fanático por futebol não consegue encontrar a última figurinha que completaria seu álbum. A figura em questão é do Rivelino, jogador do Corinthians. O garoto roda a cidade inteira, mas não consegue achar a tão desejada figurinha. Sensibilizado com a agonia do colega, Pituca sugere que Edmundo vá ao centro de São Paulo e compre o item desejado de um cambista. Segundo Pituca, muita gente completa seu álbum adquirindo as figurinhas mais difíceis das mãos de vendedores ilegais. O preço é muito mais alto, mas vale a pena. A entrega é feita no dia seguinte ao pedido.

Edmundo aceita a sugestão do amigo de escola e faz a encomenda ao cambista. No dia seguinte, como combinado, ele tem o rosto de Rivelino. Uma vez completado o álbum, Edmundo vai até a Fábrica de Figurinhas Escanteio para ganhar o prêmio. Toda criança que completa a coleção ganha ótimos brindes. Contudo, o proprietário da fábrica, Seu Tomé, diz que não tem mais condições de dar o prêmio a ninguém. Uma fábrica de figurinhas clandestina está colocando os itens mais difíceis no mercado e, assim, todo mundo está conseguindo completar o álbum.

Com medo de ir à falência, Seu Tomé pede a ajuda de Edmundo e de Pituca para eles descobrirem a identidade do criminoso. O empresário já havia levado o caso à polícia e tinha contratado investigadores particulares, mas ninguém conseguiu desvendar o mistério. A sabotagem era tão bem arquitetada que seu responsável era chamado por todos de Gênio do Crime.

Assim, Edmundo e Pituca chamam o amigo Bolachão, um garoto gordo e muito esperto, para investigar o caso com eles. Mais tarde, Berenice, uma menina tão inteligente quanto Bolachão, incorpora-se à turma. A criançada passa a seguir o cambista que vendeu a figurinha do Riva para Edmundo. A ideia é descobrir onde fica a fábrica do Gênio do Crime. Contudo, a tarefa não será nada fácil. Os meninos correrão muitos perigos. Além disso, eles precisarão superar a concorrência de um investigador profissional. Mister John Smith Peter Tony, um dos detetives particulares mais famosos do mundo, também foi contratado pela Fábrica de Figurinhas Escanteio para desvendar o enigma. Ele veio da Escócia, onde tem a fama de nunca ter falhado, especialmente para descobrir o paradeiro do grande falsificador de figurinhas.

“O Gênio do Crime” é realmente um livro excelente. Ele é bem curto, não chega a ter 150 páginas (normalmente os romances infantojuvenis possuem o tamanho de novelas adultas). Concluí sua leitura em cerca de três horas. Muito provavelmente a criançada levará muito mais tempo.

Afinal, o que torna esta obra tão revolucionária? Na minha visão, o grande feito de João Carlos Marinho Silva foi ter escrito não apenas para a meninada, mas para toda a família. Foi mais ou menos algo que a Pixar fez décadas mais tardes com os filmes infantis (que de infantis não tem nada nos dias de hoje). Ou seja, a mãe e o pai pegam o livro de Marinho Silva para ler com os filhos e, de repente, estão curtindo a leitura tanto quanto os meninos (ou mesmo até mais do que as crianças).

Tudo em “O Gênio do Crime” é bem construído. As personagens são ótimas. Em poucas páginas, o leitor já se sente íntimo dos dramas da Turma do Gordo. As figuras adultas do livro também são marcantes. Impossível um leitor passar indiferente ao detetive Mister John Smith Peter Tony. E por falar nele, o humor do texto é contagiante. O investigador escocês dá um tom meio que de absurdo e de pastelão a várias cenas. Ele é, de certa forma, uma sátira aos clássicos detetives dos romances policiais britânicos (não falei que havia uma forte intertextualidade nesse livro, hein?).

Outros pontos elogiáveis são o clima de mistério e o tom de aventura da história. Eles são tão refinados quanto os existentes nos bons romances policiais adultos. Uma vez iniciada a leitura deste livro, o leitor não consegue mais parar de lê-lo. O conflito encanta pela mistura de simplicidade (meninos atrás de um falsificador de figurinhas de futebol) e invencionice narrativa (estratégias da Turma do Gordo para perseguir o cambista e, por sua vez, dos criminosos em fugir).

É adorável também a maneira como o autor retrata a infância em todos os seus aspectos, sejam eles positivos ou negativos. Estão ali as brincadeiras, a construção das amizades, os sonhos inocentes e os primeiros namoros. Por sua vez, esse também um período da vida sujeita ao bullying e aos perigos típicos das grandes cidades brasileiras.

A construção de São Paulo como cenário da trama está impecável. Nesse sentido, é interessante ver como era a capital paulista na década de 1960. Até mesmo as cenas datadas (carros antigos e o hábito de verificar endereços e telefones nas páginas amarelas) conferem um charme especial à história.

“O Gênio do Crime” é uma obra memorável. Se você não a leu na infância, vale a pena ler agora (mesmo adulto). Se você já leu, por que não uma releitura? Tenho certeza que a trama do livro de João Carlos Marinho Silva continuará surpreendente e encantadora.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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