• Ricardo Bonacorci

Livros: O Complexo de Portnoy – O romance consagrador de Philip Roth


Aproveitei a folga extra proporcionada pelo Réveillon para ler “O Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras). O romance polêmico da década de 1960 foi o responsável por tornar seu escritor, o norte-americano Philip Roth, uma figura mundialmente conhecida no cenário literário. A ousadia de Roth foi apresentar um relato sincero e desbocado do desejo sexual de seu narrador, o inconfundível Alexander Portnoy. O protagonista do livro fala tudo o que vem à mente no divã de seu psicanalista.

Quem acompanhou, no mês passado, a análise crítica postada aqui no Blog Bonas Histórias sobre “Pornopopéia” (Objetiva), um clássico contemporâneo de Reinaldo Moraes, na certa se lembrará de “O Complexo de Portnoy”. O narrador do romance brasileiro, o inesquecível cineasta Zeca, referia-se ao livro do norte-americano como sua fonte de inspiração. Realmente, há várias semelhanças entre as duas narrativas.

Publicado em 1969, “O Complexo de Portnoy” tornou-se rapidamente um best-seller. Junto com o sucesso comercial vieram as polêmicas, característica essa que seria uma marca da carreira de Roth. O público e a crítica entenderam o romance, o terceiro do escritor - o primeiro foi “Adeus, Columbus” (Companhia de Bolso), de 1959, e o segundo foi “Quando Ela Era Boa” (Companhia das Letras), de 1967 -, como tendo grande qualidade literária. Isso era e ainda é inegável. Ao mesmo tempo, achavam estranho o narrador do livro abordar vários temas tabus (masturbação, incesto, racismo, preconceito social e religioso, machismo, etc.). O mais curioso é que esses assuntos eram apresentados no texto com um humor escrachado, quase que em tom de piada. A narrativa é quase que um longo stand up comedy. Aí, a surpresa geral dos leitores e dos críticos. A dúvida que ficava era se o livro de Philip Roth era um romance revolucionário ou se era apenas uma brincadeira pueril de um escritor propenso a gracinhas.

Passados exatos cinquenta anos do lançamento de “O Complexo de Portnoy”, essa dúvida não existe mais. A obra amadureceu bem com o transcorrer das décadas. Ela continua atual e engraçadíssima, apesar de ficar cada vez mais politicamente incorreta. Neste caso, é curioso notar que o livro pode incomodar muito os leitores atuais por aspectos diferentes daqueles que chocaram os leitores do passado. De qualquer forma, polêmicas à parte, ninguém mais questiona a qualidade da literatura de Roth, falecido no ano passado.

Considerado um dos principais escritores norte-americanos da segunda metade do século XX, Philip Roth conquistou os mais importantes prêmios do mercado editorial do seu país nos últimos vinte anos de carreira. Em 1998, ganhou o Pulitzer de Ficção com “Pastoral Americana” (Companhia de Bolso), o primeiro romance da sua trilogia mais famosa, composta também por “Casei com um Comunista” (Companhia de Bolso), de 1998, e “A Marca Humana” (Companhia de Bolso), de 2000. Para muita gente, sua obra-prima é “Indignação” (Companhia das Letras), de 2008.

O enredo de “O Complexo de Portnoy” é aparentemente muito simples. Alexander Portnoy, um bem-sucedido advogado nova-iorquino de origem judaica, está sentado no divã do seu psicanalista, o Dr. Spielvogel. No consultório, Alex, como o rapaz de trinta e poucos anos é chamado pelos familiares e amigos, tem a oportunidade de confidenciar seus dilemas, suas angustias e seus desejos mais íntimos. Nada escapa da língua veloz e peçonhenta do rapaz. Por isso, ele fala, fala e fala incansavelmente sobre os pontos mais importantes de sua vida. Sem qualquer pudor, Portnoy faz uma longa retrospectiva de sua vida. Se por um lado o relato é muito sincero, algo compreensível em sessões psicanalíticas, por outro lado o texto adquire tons imorais.

Na infância, Alexander era muito apegado à mãe, uma mulher bastante carinhosa e extremamente zelosa. A relação dos dois adquiria um tom edipiano, algo constrangedor e polêmico em qualquer época. A mãe do garoto, uma típica matriarca judia, parecia sufocá-lo. Ao mesmo tempo, o filho parecia nutrir vergonha e ojeriza do pai, um vendedor de seguros dedicado, mas inoportuno (e muito patético).

A adolescência de Alex foi passada essencialmente no banheiro. Fechado ali, o rapaz se masturbava sem parar. Ele adorava pegar as calcinhas da irmã mais velha para apimentar suas fantasias. Diante da preocupação da família pelo tempo passado no banheiro, ele dizia que estava com diarreia. Assim, era obrigado a ouvir diariamente os apelos da mãe por uma alimentação mais saudável e regrada.

Os primeiros namoros de Alexander Portnoy foram pontuados pela intransigência religiosa. A família judia exigia que ele se relacionasse exclusivamente com jovens pertencentes à sua religião. Obviamente, o rapaz sentia atração por garotas das mais variadas crenças, menos as judias. Esse aspecto religioso provocaria outras angustias com o tempo. Sem ter casado e tido filhos, o protagonista do romance é muito cobrado pela família. O que adianta ter um ótimo emprego e estar bem de vida se ele não conseguiu arranjar uma mulher e não teve uma porção de filhos? Esse é o questionamento que ouve sempre.

Já adulto, Alex pensa em se casar. Entretanto, nesse momento, ele começa a cogitar novas experiências sexuais. No início, tem curiosidade para saber como é ir para a cama com homens. Depois, se apaixona por uma modelo que conheceu por acaso na rua. Ele diz nunca ter sentido algo tão forte por alguém. Porém, a jovem é analfabeta e parece ter vivido como meretriz há muitos anos. Alexander, que chama sua namorada (ou seria amante?) de Macaca (sim, o termo é uma das piores ofensas racistas que alguém pode praticar), tem vergonha de apresentá-la para os amigos e para a família. Mais uma vez, ele está diante de uma dúvida existencial. Mergulha no relacionamento com a mulher que ama sem dar ouvido a opinião da família e da sociedade ou deverá acabar com aquele relacionamento fadado ao fracasso?

É ou não é um livro recheado de temas polêmicos, hein?! Ainda hoje, seu texto consegue causar muito desconforto nos leitores mais conservadores. Se antes o homossexualismo, a masturbação e a pressão familiar em relação à religião eram os temas mais incômodos da obra, agora o racismo, o machismo, o egoísmo e o hedonismo do protagonista-narrador parecem assustar mais fortemente os leitores.

“O Complexo de Portnoy” é um romance de pouco mais de 250 páginas. Sua característica estético-estrutural é ser um texto corrido, como se o narrador estivesse falando sem parar. Neste caso, a emulação de uma sessão psicanalítica é perfeita. O leitor se sente realmente acompanhando a conversa entre paciente e doutor no consultório. É verdade também que o livro possui algumas poucas divisões (não podemos chamá-las de capítulos), mas elas não conseguem quebrar o ritmo de monólogo.

Por falar em monólogo, repare que o Dr. Spielvogel, como um ótimo psicanalista, não aparece dizendo nada na história inteira. Ele deixa seu paciente falar livremente. Apenas no final, o psicólogo se manifesta, o que torna sua aparição ainda mais cômica e espetacular. Ou seja, o desfecho do livro é magistral. Simples, porém maravilhoso.

Como o texto é a narrativa individual de Alexander Portnoy, o que temos o tempo todo é a voz do protagonista. Neste sentido, Philip Roth construiu um romance extremamente fidedigno. Isso fica claro nos termos e na cultura judaica, religião que o próprio autor pertencia, que inundam as páginas da obra. O glossário no final do livro ajuda os shkotzim (viu como a consulta é importante?) a trafegar pelo idioma e pela cultura do narrador. Esse apêndice também auxilia na contextualização temporal da história. Muitos fatos e personagens citados pelo protagonista eram populares na primeira metade do século passado, mas agora podem ser desconhecidos pela maioria dos leitores (daí, a necessidade de recorrer mais uma vez ao Glossário).

Outro ponto positivo do texto de “O Complexo de Portnoy” é a forma como o autor construiu o fluxo de pensamentos/discurso do narrador. O tom de oralidade é uma marca desta obra. Afinal de contas, trata-se de uma sessão psicanalítica. Ao mesmo tempo, as histórias de Alexander possuem uma mistura de linearidade temporal e de devaneios do protagonista. Passado e presente se misturam o tempo todo. Isso dá verossimilhança ao relato. Incrível constatar como Philip Roth desenvolveu esse recurso narrativo com maestria.

E como não é possível deixar de falar, vamos discutir um pouco o humor do romance. “O Complexo de Portnoy” é realmente um livro muito engraçado. A graça está no jeito desbocado e inconsequente do protagonista em retratar sua vida e as pessoas ao seu redor. Há várias cenas e situações divertidas, principalmente para os leitores pouco preocupados com o politicamente correto.

De pontos negativos, temos a construção estereotipada da maioria das personagens secundárias. Se o protagonista é uma figura profunda e de difícil caracterização (ou seja, é uma personagem redonda), as demais pessoas que aparecem na história são rasas e caricatas (personagens planas). Se o excesso de personagens estereotipadas diminui um pouco a qualidade literária da obra, por outro lado é um recurso excelente para provocar humor. Em muitos casos, as figuras mais engraçadas da literatura, do cinema, da televisão e do teatro são pessoas caricatas.

Outro aspecto que pode incomodar alguns leitores é a pouca fluidez do texto. Com quase nenhuma separação (lembremos, não há capítulos), o romance torna-se um pouco pesado. Concluí sua leitura em três ou quatro dias, um tempo muito maior do que estou acostumado. Esse caminhar lento, ao menos no meu caso, pode estar vinculado à grande complexidade dos assuntos tratados e à alta dramaticidade do texto. Não dá para ler algo assim de maneira furtiva e rápida.

Gostei bastante de “O Complexo de Portnoy”. Alexander, queiramos ou não, continua sendo uma personagem muito moderna, retrato do homem contemporâneo. Seus medos, seus traumas, seus desejos e suas dúvidas mostram o quanto o ser humano é um animal complicado, confuso, desnorteado, injusto e pouco racional. E imaginar que às vezes esquecemos o quanto nosso lado psíquico é o que torna nossas vidas tão difíceis na prática.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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