• Ricardo Bonacorci

Livros: Manual do Futuro Redator – As dicas de Sérgio Calderaro para os jovens escritores


Há alguns meses, procurando na estante de casa um livro que me auxiliasse no trabalho de consultoria editorial que realizo com jovens escritores, encontrei “Manual do Futuro Redator” (Novatec). Esta obra de Sérgio Calderaro é originalmente direcionada aos estudantes que desejam ingressar na carreira de redator publicitário. Isso explica sua presença em minha biblioteca. Minha primeira profissão foi a de publicitário. Sem esperanças que este título fosse me ajudar agora, comecei a relê-lo. E para minha grande surpresa, logo nas primeiras páginas de “Manual do Futuro Redator” percebi que o livro se encaixava perfeitamente na minha nova necessidade: ajudar os futuros escritores no dia a dia do ofício do fazer literário.

Não tinha parado para pensar sobre isso ainda, mas os desafios que os redatores têm são muito parecidos aos que escritores, jornalistas e produtores de conteúdo possuem em seus cotidianos. Assim, toda vez que a palavra “redator” aparecia no livro, automaticamente a trocava, em minha mente, por “escritor”. O mesmo pode ser feito alterando o termo original por “jornalista” ou “produtor de conteúdo”. A essencia da obra e as dicas do autor para os novatos que desejam trabalhar com a escrita são mantidos intactos.

Publicado em 2015, “Manual do Futuro Redator” é um livro fácil de ler e gostoso de ser acompanhado. Sérgio Calderaro apresenta as técnicas da profissão, dá dicas de comportamento e narra alguns casos saborosos de quem trabalha há três décadas em agências de publicidade, redações de jornal, editoras e departamentos de comunicação. Além disso, Calderaro foi professor de Redação Publicitária e de Literatura e Cultura Brasileira em universidades no exterior. Para completar, atuou na Embaixada do Brasil na Espanha como Assessor de Imprensa e Divulgação. Atualmente, ele mora em Florianópolis, onde é diretor de criação em uma agência de publicidade.

O livro possui 115 páginas e está organizado em 19 capítulos. Ao final da obra, há ainda seis artigos escritos pelo autor que foram originalmente publicados em blogs. Essa última parte serve mais como complemento ao que já foi apresentado nos capítulos anteriores.

O primeiro aspecto que chama a atenção do leitor em “Manual do Futuro Redator” é a linguagem utilizada por Sérgio Calderaro. O autor escreve usando e abusando da oralidade. O recurso é interessante porque parece que estamos ouvindo o escritor falar. Dessa maneira, o tom do livro adquire um aspecto de conversa de bar entre amigos. Gostei muito disso. O texto fica ágil, leve e muitíssimo engraçado, sem que se perca a profundidade do que é discutido. Apesar de algumas divagações desnecessárias que Calderaro faz e algumas fugidas de tema, o livro é bem amarrado. Em algumas partes, a sensação de conversa se desfaz e, aí, o que temos é quase que uma imersão no fluxo de consciência do autor - outro expediente muito bem utilizado.

Gostei também da didática utilizada na composição do texto. Além de exemplos concretos e da apresentação de “causos” da profissão, o autor dá exercícios para o leitor praticar e revela erros e acertos que teve ao longo dos anos. Assim, Calderaro fala abertamente de pontos essenciais e polêmicos da sua profissão. Ele parece não ter medo de resvalar em nenhum tema aparentemente complicado. Também relaciona os elementos que dificultam o trabalho de quem atua escrevendo com muita facilidade e indo diretamente ao ponto, sem rodeios.

Alguns assuntos debatidos por Sérgio Calderaro nesta obra são: importância de ler muito e de tudo; aprofundamento nas regras gramaticais (mesmo que depois você vá passar por cima delas); gostar de ler e de reler em voz alta tudo o que você escreve; preocupação estética e não apenas narrativa; sonoridade e o ritmo do texto são aspectos essenciais da boa escrita; necessidade de dar repouso ao texto; relação saudável entre quem escreve e quem faz a revisão do material; relação do texto com o título – circularidade; formas de se produzir texto com grande riqueza intertextual; o quanto é verídica ou falsa a relação do uso de bebidas e drogas com a promoção da criatividade e o incentivo à escrita; sacada genial versus processo braçal de construção do texto; onde encontrar elementos para enriquecer o texto e as narrativas; e desenvolvimento constante do ofício de escritor/redator/jornalista/editor/produtor de conteúdo.

Incrível como o autor fala de tanta coisa importante em tão pouco espaço. A escolha dos temas abordados ao longo dos capítulos é, ao lado da linguagem informal, o ponto alto desta obra.

Mesmo sendo um livro excelente, “Manual do Futuro Redator” possui sim alguns pontos negativos. Os artigos apresentados na parte final, por exemplo, pareceram a mim uma encheção de linguiça. Eles falam muitas vezes da realidade da Espanha, país onde o escritor vivia quando escreveu a obra, e dialoga pouco ou quase nada com o conteúdo anterior, discutidos nos capítulos. Em algumas passagens, Calderaro se preocupa mais com a construção de referências intertextuais do que com o assunto principal abordado. Ou seja, dá umas viajadas (ou seriam escorregadas?).

Contudo, esses deslizes são pontuais e não atrapalham em nada a relevância de “Manual do Futuro Redator”. Se você está pensando em trabalhar com a escrita ou já iniciou nesse ofício, saiba que esta obra é uma leitura obrigatória. Eu faço os escritores que trabalham comigo lerem-na ao menos uma vez. Quase sempre eles adoram o texto de Sérgio Calderaro e me agradecem a indicação.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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