• Ricardo Bonacorci

Livros: A Visita Cruel do Tempo – O romance inovador de Jennifer Egan


Ainda estamos no comecinho do ano e, mesmo assim, já posso afirmar com certeza absoluta que um livro estará, em dezembro, na lista das 10 melhores leituras de 2019 do Bonas Histórias. Para quem não sabe ou não reparou, fazemos um ranking anual com as melhores obras lidas e analisadas pelo blog. A seleção também inclui filmes, exposições e peças teatrais que foram destaques ao longo da temporada. Tais listagens estão disponíveis para consulta na seção Recomendações.

A publicação favorita para integrar o ranking de 2019 é “A Visita Cruel do Tempo” (Intrínseca), romance da norte-americana Jennifer Egan. Li este livro no último final de semana e o achei simplesmente espetacular. Trata-se de uma das obras ficcionais mais inovadoras e surpreendentes dos últimos anos. Até agora estou encantado com esta experiência de leitura.

Publicado em junho de 2010, “A Visita Cruel do Tempo” é o quinto livro de Jennifer Egan. Até a chegada deste romance às livrarias, a autora já havia lançado três romances – “O Circo Invisível” (Intrínseca), de 1995, “Olhe Para Mim” (Intrínseca), de 2001, e “O Torreão” (Intrínseca), de 2006 – e uma coletânea de contos – “Emerald City” (Sem publicação no Brasil), de 1993. Contudo, é inegável que “A Visita Cruel do Tempo” seja o ponto mais alto da carreira da norte-americana, ao menos até este momento. Com este romance, ela conquistou os principais prêmios do mercado editorial norte-americano, recebeu incontáveis avaliações positivas dos veículos de imprensa e vendeu os direitos autorais da obra para a produção de uma série televisiva.

“A Visita Cruel do Tempo” recebeu, no final de 2010, o National Book Critics Circle Awards, e, no ano seguinte, o Pulitzer de Ficção como melhor romance. Vale lembrar que o National Book Critics Circle Awards e o Pulitzer são duas das mais importantes premiações literárias dos Estados Unidos. A partir daí, a obra de Egan não parou mais de colecionar prêmios. Entre as conquistas, podemos citar o Los Angeles Times Book Prize e o Tournament of Books.

A crítica literária também se desmanchou em elogios. Jennifer Egan foi retratada como uma autora extremamente talentosa e muitíssimo inovadora ao misturar gêneros literários (“A Visita Cruel do Tempo” pode ser visto tanto como um romance quanto uma coletânea de contos) e por propor experimentações estéticas aparentemente absurdas (há, por exemplo, um capítulo inteiro deste livro que é apresentado por meio de slides de PowerPoint, recurso preferido de uma das personagens). Incrível! Entre os críticos literários mais conceituados dos Estados Unidos, muitos apontam Egan como um dos nomes mais talentosos de sua geração.

Em relação à adaptação desta trama para a televisão, infelizmente, o acordo com HBO foi desfeito em 2013. Logo depois da premiação do Pulitzer, em 2011, o canal de TV por assinatura fez um acordo com Egan e sua editora para produzir uma série. Contudo, dois anos depois, a empresa viu o quão difícil seria esta empreitada. A graça de “A Visita Cruel do Tempo” não está, propriamente, em sua história, mas sim na forma como ela foi contada ao leitor. A autora inverteu algumas lógicas da narrativa (foco narrativo, espaço temporal, definição de protagonistas e personagens secundários, etc.), tornando seu romance uma experiência de leitura única. Como filmar isso? Impossível! Pelo visto, a HBO demorou dois anos para descobrir o quão inviável era essa empreitada.

Afinal, qual é o enredo deste livro de Jennifer Egan? Acho que essa é a pergunta mais difícil de ser respondida. De modo geral, o romance gira em torno de Sasha e Bennie Salazer, mas não podemos dizer que eles sejam os únicos protagonistas desta trama (um dos primeiros elementos da narrativa que a autora subverte – não há um protagonista e sim vários; e não há, à princípio, qualquer antagonista).

No primeiro capítulo, chamado de “Achados e Perdidos”, conhecemos Sasha, uma jovem cleptomaníaca que mora em Nova York e trabalha como assistente de Bennie Salazar, um famoso e bem-sucedido produtor musical. A história se passa no tempo presente e é narrada em terceira pessoa. Sasha está no consultório de seu psicanalista, o Dr. Coz. Nessa consulta, a moça narra o primeiro encontro que teve com um rapaz chamado Alex. O fato mais importante da noite foi a tentativa de roubo de uma carteira por Sasha. Ela tentou furtar uma mulher no banheiro do hotel onde jantava com Alex.

“Ouro que Cura” é o segundo capítulo do romance. Nesse momento, a história foca em Bennie Salazar. A narração continua sendo feita em terceira pessoa. O produtor musical está separado da primeira esposa e tem um filho adolescente, Christopher. Seu drama está na impotência sexual que vem sofrendo nos últimos anos. Como tratamento, Bennie passou a consumir ouro em pó, um possível afrodisíaco. A angústia pela doença e a melancolia por viver sozinho fazem o executivo dar em cima de sua bela assistente. Bennie é apaixonado por Sasha, que recusa todas as investidas do patrão.

No terceiro capítulo, “Não Estou Nem Aí”, a trama regride até a década de 1980. Em São Francisco, Bennie Salazar é um jovem adolescente que tem uma banda de punk, a The Flaming Dildos, com seu melhor amigo, Scotty Hausmann. O grupo se apresenta em um clube à noite e conhece Lou, um produtor musical muito rico e vários anos mais velho. Ele namora Jocelyn, a amiga adolescente de Bennie Salazar e Scotty Hausmann. O capítulo é narrado em primeira pessoa por Rhea, uma outra amiga dos garotos.

Em “Safari”, a quarta parte de “A Visita Cruel do Tempo”, voltamos a narração em terceira pessoa. Nessas páginas, o leitor é levado até o ano de 1973, quando Lou viaja de férias com seus filhos adolescentes (Rolph e Charlene), com sua nova namorada (Mindy – uma jovem que tem quase que a idade dos filhos dele) e alguns integrantes da banda mais famosa da sua produtora. O grupo passa algumas semanas na África, onde pode fazer um emocionante safari.

No quinto capítulo, Jocelyn e Rhea, amigas de infância de Bennie Salazar, visitam Lou no hospital. Ele está muito velho e doente. Quem narra a trama agora é Jocelyn. Aparentemente, a história volta ao tempo presente.

Entendeu o motivo de ser tão difícil explicar qual é o enredo deste romance? Cada capítulo de “A Visita Cruel do Tempo” aborda a perspectiva de uma personagem que foi citada anteriormente. A história pode avançar ou regredir no tempo. A sensação, em alguns momentos, é que estamos lendo uma coletânea de contos. Contudo, as intersecções entre os fatos e as personagens amarram o texto, dando o aspecto final de romance à obra. Esta é a primeira invenção narrativa de Jennifer Egan.

Outra particularidade do livro é não ter um ou dois protagonistas previamente definidos, como habitualmente vemos na literatura ficcional. Aqui, a maioria das personagens ganha, em alguns momentos, um destaque, tornando-se por ora protagonistas. Entretanto, em outras partes da trama, essas mesmas figuras adquirem um papel secundário, dependendo da perspectiva e do narrador selecionados. Isso ocorre até mesmo com Sasha e Bennie Salazer, os possíveis protagonistas do romance. É muito legal esse vai e volta.

Além disso, o que dizer das inusitadas opções de foco narrativo do livro, hein? Alguns capítulos de “A Visita Cruel do Tempo” são narrados em primeira pessoa (em cada momento, alguém diferente descreve sua história). Em outros, temos relatos em terceira pessoa (a mudança de perspectiva dá a tônica da trama do início ao fim). E encontramos até mesmo narração em segunda pessoa (como no capítulo 10, “Fora do Corpo”). Quem nunca teve a oportunidade de ver uma narrativa em segunda pessoa (algo raro de se encontrar na literatura), precisa ler o capítulo 10 (na verdade, você, leitor que gosta de propostas ousadas, precisa ler este livro inteiro!). Tudo é possível nesta obra! O leitor não imagina nunca o que virá pela frente. É uma surpresa atrás da outra que nos deixa quase sem fôlego.

Outro aspecto inusitado, que deixa a experiência de leitura ainda mais surpreendente, é as diferentes formas de escrita (gêneros textuais) que as personagens/narradores se utilizam. No primeiro capítulo, por exemplo, temos uma conversa entre uma paciente e seu psicanalista. Mais tarde, na metade do livro (mais especificamente no capítulo 9, “Um Almoço em Quarenta Minutos – Kitty Jackson Revela Tudo sobre Amor, Fama e Nixon!”), lemos um artigo de jornal desenvolvido por uma das personagens do romance, Jules Jones, um jornalista. Este capítulo do livro é a própria matéria desenvolvida por Jules. Maravilhoso! Ainda mais incrível é o penúltimo capítulo de “A Visita Cruel do Tempo”. Já na parte final do romance (Capítulo 12 “Grandes Pausas do Rock and Roll”), vemos o relato de um menino, Alison Blake, filho de Sasha, por meio de um PowerPoint. Sim, é isso o que você leu. Ao invés de um texto normal, temos nessa parte os slides produzidos pelo garoto de 12 anos (ele tem a mania de produzir PowerPoint). Curiosamente, conseguimos entender seus dramas por meio dos famosos bullet points das apresentações. E quem foi que disse/pensou que não é possível contar uma boa história em PowerPoint, hein?

Outro aspecto que Jennifer Egan brinca é com as variáveis de tempo e lugar. O livro regride no tempo e avança no tempo de um capítulo para o outro. A história começa no presente, depois volta para as décadas de 1970 e 1980 e, no final, avança um pouco no futuro (quinze anos à frente de hoje), dando um caráter de ficção científica para o romance. E todas essas mudanças se dão de uma página para outra. Incrível! As alterações temporais são acompanhadas pelos saltos geográficos. As histórias do livro se passam em Nova York, em San Francisco, na África e na Europa (Nápoles).

Para completar a experiência estética do leitor, tudo isso é acompanhado por um sensível relato musical, que confere ainda mais graça e charme à narrativa. Quem gosta de música, poderá viajar pela história musical do Rock norte-americano.

E por falar em experiência, repare também no maravilhoso acabamento gráfico que a editora Intrínseca deu à versão brasileira do livro de Jennifer Egan. Desde a capa e as orelhas até a diagramação e o projeto gráfico, tudo em “A Visita Cruel do Tempo” é diferenciado. Com 333 páginas, o romance é do tipo que convida o leitor a devorá-lo. Foi o que aconteceu comigo no último final de semana. Concluí sua leitura em apenas duas tardes.

De alguma maneira, ao final da leitura, compreendemos o título da obra e vemos que o grande protagonista do romance é na verdade uma figura oculta e misteriosa, que permeou discretamente todos os relatos. Ele é o responsável por levar as personagens ao ápice e ao ocaso. É esse elemento intangível que está presente em cada segundo de nossas vidas, que, em alguns momentos, nos dá e, mais à frente, nos arranca sem qualquer justificativa. É ele quem faz o ciclo natural da vida girar, conferindo um final quase sempre trágico e/ou melancólico às histórias (tanto as ficcionais quanto as verídicas).

Não falei que “A Visita Cruel do Tempo” era uma publicação memorável e que merecia, desde já, integrar a lista de melhores leituras de 2019 do Blog Bonas Histórias? Depois desta leitura, admito que fiquei com uma vontade danada de inserir Jennifer Egan como uma das escritoras a ser analisada pelo Desafio Literário. Quem sabe em 2020 eu não a coloque como um dos alvos de meu estudo. Isso só não será possível em 2019, porque neste ano quero investigar em profundidade outro autor norte-americano, Noah Gordon. Só por isso vou preterir Egan neste momento.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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