• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Bibiana Terra Cambará


Darico Nobar: Boa noite, amigos e amigas! É com muita alegria que inicio a terceira temporada do Talk Show Literário. [A câmera dá um zoom no apresentador]. Sim, é isso mesmo o que vocês ouviram. Em 2019, caminhamos para um novo ano do programa, que bateu recordes de audiência em 2018. [Gritos e palmas de empolgação vêm do auditório]. E para inaugurar esta nova série de entrevistas, a convidada de hoje é uma das personagens mais famosas da saga “O Tempo e o Vento”, do gaúcho Érico Veríssimo. [A imagem volta para o take aberto]. Com vocês, Bibiana Terra Cambará! [A plateia aplaude com entusiasmo a entrevistada, uma senhora bem idosa e com longos cabelos brancos. Ela caminha vagarosamente em direção ao palco].

Bibiana Terra Cambará: Boa noite, Darico. [A visitante, enfim, chega ao sofá onde o apresentador a está aguardando].

Darico Nobar: Obrigado pela sua presença, Dona Bibiana. Eu soube que a senhora relutou muito em comparecer ao nosso programa. Por que esse receio de nos visitar?

Bibiana Terra Cambará: Sabes como é: meu lugar não é aqui, nesta cidade grande, neste palco cheio de câmeras de televisão. O meu lugar é na minha terra, junto da minha família, na minha casinha interiorana. É lá que vivo e que tenho serventia. Achei um disparate essa viagem tão longa. Até agora, não entendi o que estou fazendo aqui.

Darico Nobar: Nós queremos saber tudo sobre sua vida.

Bibiana Terra Cambará: E o que tem ela de tão especial?

Darico Nobar: Muitas coisas! Temos curiosidade, por exemplo, de saber como era o Rodrigo Cambará, uma das personalidades mais carismáticas da nossa literatura.

Bibiana Terra Cambará: Não me digas que tu és do tipo que acha o Rodrigo um sem-vergonha, vagabundo, mulherengo e beberrão?! Se fores, saibas que vou embora imediatamente. [A senhora se levanta com muita agilidade da poltrona].

Darico Nobar: Não, não! Por favor, Dona Bibiana, sente-se. Há muito tempo que sou um grande fã do seu falecido marido. O Capitão Cambará é o exemplo do homem másculo e corajoso. O espírito alegre e o jeito extrovertido dele sempre me fascinaram muito.

Bibiana Terra Cambará: Se é assim, eu fico. [Volta a se sentar no sofá, agora com um pouco mais de lentidão]. Não gosto de quem fala mal dos homens de bom coração.

Darico Nobar: Contudo, é natural a antipatia que algumas pessoas têm dele, né? Não é todo mundo que compreende o estilo de vida peculiar que o Rodrigo tinha.

Bibiana Terra Cambará: No papel de esposa, eu entendia perfeitamente seu comportamento. Meu marido era um homem correto e digno. Não admito calúnias, ainda mais feitas pelas costas, sem que ele possa se defender.

Darico Nobar: Dona Bibiana, a senhora é uma mulher muito decidida e sábia. Como a sua avó, Ana Terra, você sabe muito bem o que fazer e quais decisões tomar em cada situação de dificuldade. Contudo, algumas pessoas acham a senhora um tanto resignada em relação ao seu destino e à sua vida. Você concorda com essa opinião?

Bibiana Terra Cambará: O que posso fazer para mudar minha vida se ela já está traçada nas linhas do tempo e nas páginas dos livros?! O destino de cada um de nós é algo que precisamos entender e, principalmente, aceitar. Ao invés de ficarmos relutando inutilmente contra os desígnios da vida, vale mais a pena abraçar o que o destino nos reservou.

Darico Nobar: Essa visão é intrigante, admito. A senhora não se incomodava nem um pouco com as atitudes do Rodrigo? Não valeria a pena mudar algo nele?

Bibiana Terra Cambará: Meu marido era um homem maravilhoso. Nunca conheci ninguém mais alegre, divertido e corajoso. Seu coração não cabia dentro dele. Ele defendia os fracos e os injustiçados. Não era capaz de fazer mal nem para um bicho. Por que eu iria querer mudá-lo?

Darico Nobar: Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer, ele era mulherengo, alcoólatra e viciado em jogo de carta. Perdia muito dinheiro com as apostas que fazia. O Capitão ficava entediado facilmente e gostava de viajar por longos períodos. Além disso, era do tipo esquentado. Por qualquer coisa, já pulava no pescoço do sujeito a sua frente para brigar. Esses não eram alguns dos principais defeitos dele?!

Bibiana Terra Cambará: Darico, não sei se tu sabes, mas não existe pessoa perfeita nesse mundo. Eu também tenho muitos defeitos. Você e cada uma das pessoas nesta plateia também devem ter os seus. Se apagar os defeitos de alguém fosse tão fácil, acredito que haveria muitos homens e mulheres perfeitos por aí. Não é o caso, obviamente. Também não acredito que consigamos mudar a essência das pessoas. Se essa minha característica é vista como conformismo pelos outros, tudo bem.

Darico Nobar: A senhora está dizendo que por mais que tentasse, jamais iria mudar algo no Rodrigo Cambará?

Bibiana Terra Cambará: Eu não tenho essa capacidade. E também acho que não tenho o direito de querer mudar ninguém, muito menos o meu marido. Acho que ninguém tem. Quando aceitei o pedido de casamento do Rodrigo, eu sabia exatamente que tipo de homem ele era. Eu me apaixonei por ele do jeito que ele era. Não fazia sentido querer mudar algo nele depois de casada.

Darico Nobar: Nesse caso, a senhora acha errado quando a mulher ou o marido tenta mudar o cônjuge depois do casório?

Bibiana Terra Cambará: Cada um faz o que quer da sua vida. Não sou ninguém para dar conselhos para os jovens. Apenas acho essa atitude insensata e pouco viável. Por que as mulheres não se aproveitam das qualidades dos seus maridos e eles as delas? A felicidade conjugal passa mais pela aceitação do outro do que pela tentativa de mudança da personalidade do parceiro ou da parceira.

Darico Nobar: Não acredito que a senhora não sentia ciúmes do Rodrigo quando ele saía de casa e passava a noite fora!

Bibiana Terra Cambará: E quem disse que eu não tinha?! É claro que eu sofria de ciúmes. Não é fácil estar em casa com os filhos sabendo que seu marido está deitado com outras por aí. Porém, eu sempre compreendi que jamais iria conseguir aprisioná-lo dentro de casa. Por mais que tentasse, nunca seria bem-sucedida nessa empreitada. Para tê-lo comigo, eu precisava aceitar algumas de suas escorregadas. Mesmo sendo mulherengo, boêmio, beberão, esquentado e mão aberta, ele era meu marido e eu o amava. Isso nunca mudou e nunca mudará. Não entendo o seu espanto a esse respeito.

Darico Nobar: Não é espanto. Só acho curioso a senhora defendê-lo tanto.

Bibiana Terra Cambará: Tu querias, então, que eu me separasse dele? Aí, quem iria sofrer para valer era eu. Ou seria melhor ficar casada e exigir que ele largasse as coisas que mais gostava de fazer? Aí, quem iria sofrer seria ele. Será que eu seria mesmo feliz ao lado de um homem infeliz e incompleto? Acho que não. Aceitei suas particularidades e não me arrependo.

Darico Nobar: Será que não teria sido melhor um casamento com o Bento Amaral?

Bibiana Terra Cambará: Talvez o Bento Amaral fosse um homem inteiramente fiel a mim. Sua riqueza poderia dar mais conforto para o meu dia a dia. Duvido que ele ficasse bêbado ou perdesse tempo com jogatinas. Se eu pedisse, provavelmente ele jamais faria uma viagem longa e nunca se meteria em brigas. A questão é que eu não o amava. Nada do que ele fizesse iria despertar o meu amor, como o Rodrigo fazia. Prefiro um Cambará bêbedo, pobre, infiel, viajante e esquentado do que um Amaral sóbrio, rico, fiel, caseiro e calmo.

Darico Nobar: Seu marido era mesmo bonitão como retratado pelo Veríssimo?

Bibiana Terra Cambará: Sim, era. [Solta um suspiro]. Quando vejo, hoje em dia, o Thiago Lacerda na televisão, eu recordo imediatamente do meu antigo marido. Fisicamente, os dois são muito parecidos. Mas, não era só a beleza do Rodrigo que chamava a atenção das pessoas. Ele possuía um charme natural. Quando chegava a um lugar, meu marido monopolizava os olhares. Ou era pelo seu papo agradável ou era pela sua cantoria infinita. Às vezes, o que despertava a curiosidade nas pessoas era seu jeito desbocado e provocador. Vale lembrar que o Juvenal, quando conheceu o Rodrigo, quase brigou com ele. E olha que não havia homem mais tranquilo e pacífico do que meu irmão em Santa Fé. Era impossível para meu marido passar indiferente. Ele era amado ou odiado intensamente. Não havia meio termo.

Darico Nobar: Imagino que a senhora tenha lido todos os livros de “O Tempo e o Vento”. [A entrevistada balança a cabeça afirmativamente]. Qual é sua parte favorita da série? Só não vale mencionar o capítulo “Um Certo Capitão Rodrigo” do “O Continente”.

Bibiana Terra Cambará: Sou apaixonada pela história de amor da minha avó com meu avô. A relação deles era proibida. Na época, a união entre uma mulher branca com um índio não era benquista, principalmente pela família dela. Também gosto do comecinho do livro O Continente, que narra a chegada da minha bisavó grávida à colônia jesuíta do Sul do país. A única parte que me dá certo desgosto é a que retrata o infeliz casamento do meu filho Bolivar. Essa parte eu só consegui ler uma vez e foi com muito custo. Prometi para mim mesma que jamais voltaria a abrir essas páginas.

Darico Nobar: A senhora se arrepende de ter incentivado seu filho a se casar com Luzia?

Bibiana Terra Cambará: Não. Bolivar a amava muito. E Luzia era neta de Aguinaldo Silva, o homem que tinha roubado as terras do meu pai. No fim das contas, recuperamos o que era legitimamente nosso. Isso é o que importa!

Darico Nobar: Mas ela era uma mulher perturbada mentalmente, violenta e muito cruel?!

Bibiana Terra Cambará: E daí? O que você tem a ver com isso?! [A entrevistada se inclina para frente demonstrando muita impaciência].

Darico Nobar: Nada, nada. Não está mais aqui quem perguntou. [O apresentador respira fundo antes de prosseguir]. De certa forma, a vida que sua avó Ana Terra teve se repetiu com a senhora depois. E na sequência, com seu filho. Você enxerga essas coincidências.

Bibiana Terra Cambará: Enxergo sim, mas para mim a palavra correta para isso não é coincidência. Prefiro pensar em destino. As pessoas da nossa família têm um destino traçado e é preciso aceitá-lo. Algumas forças invisíveis da natureza não podem nunca ser contidas. Nunca!

Darico Nobar: Pessoal, esta foi Bibiana Terra Cambará. Obrigado pela sua entrevista, Dona Bibiana. Desejo bom retorno ao Sul.

Bibiana Terra Cambará: Felicidade para ti, Darico [O auditório aplaude a convidada que sai demonstrando alguma dor nas costas].

Darico Nobar: Galera, boa noite a todos e até semana que vem com mais um Talk Show Literário, o programa mais surpreendente da televisão brasileira. Tchau!

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas duas primeiras temporadas, neste terceiro ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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