• Ricardo Bonacorci

Livros: Manual do Paulistano Moderno e Descolado – A estreia de Gustavo Piqueira na ficção


Um dos passeios que mais gosto de fazer em São Paulo é pelos sebos. Quanto mais antigo for o estabelecimento e quanto maior for a quantidade de títulos à disposição melhor. Se nas livrarias conhecemos as últimas novidades do mercado editorial, nos sebos podemos voltar no tempo e descobrir preciosidades históricas. A lógica temporal fica por ora congelada e, assim, podemos mergulhar em uma espécie de túnel do tempo. As estantes e as obras dessas lojas nos levam para dez, vinte, cinquenta, cem, quinhentos, mil anos atrás. É uma delícia a experiência de desvendar as raridades do mundo dos livros.

Estou abordando essa questão, pois foi em uma passadinha despretensiosa, nas últimas semanas do ano passado, pelo Sebo do Messias, no centro da cidade, que um título chamou minha atenção. O responsável por isso foi “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” (Martins Fontes), obra de Gustavo Piqueira. Curiosamente, este livro não é tão antigo assim. Ele foi publicado há aproximadamente onze anos. Não é muita coisa, se pensarmos bem. Por outro lado, uma década é tempo demais do ponto de vista mercadológico de quase todas as livrarias. Eu jamais o encontraria à pronta entrega, nem mesmo nas maiores redes do país.

“Manual do Paulistano Moderno e Descolado” é a segunda publicação de Piqueira, um dos escritores mais divertidos, versáteis e inovadores da atualidade. É dele, por exemplo, “Odisseia de Homero - Segundo João Victor” (Gaivota), romance espetacular de 2014 (ainda vou postar uma análise dessa obra aqui no Blog Bonas Histórias – aguardem!), “Clichês Brasileiros” (Ateliê Editorial), o criativo panorama histórico do país feito a partir de imagens, título de 2013, e “Coadjuvantes” (Martins Fontes), romance sobre a paixão de um palmeirense na época do maior jejum de títulos do seu clube, livro de 2006.

Dois elementos me atraíram para comprar (e ler) “Manual do Paulistano Moderno e Descolado”. Em primeiro lugar, ele é uma obra do início da carreira de um dos principais escritores contemporâneos do Brasil. Admito que sinto atração por conhecer os passos iniciais dos grandes autores nacionais e internacionais. O Desafio Literário é, talvez, a prova recorrente dessa minha mania. Além disso (aí vem o segundo motivo), adoro crônicas. Pelo título em questão, esta coletânea tem uma proposta bem interessante. Afinal, como sobreviver na cidade de São Paulo de uma maneira leve, descompromissada e bacana? Baita desafio, hein? Um guia deste tipo deve ser útil para muita gente.

Publicado em 2007, “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” foi precedido por “Morte aos Papagaios” (Ateliê Editorial), coletânea de crônicas de Gustavo Piqueira sobre as tendências do design gráfico brasileiro. Antes de se lançar na literatura, Piqueira construiu uma bem-sucedida carreira como designer gráfico. Ele é sócio da Casa Rex, escritório com unidades em São Paulo e Londres, e conquistou vários prêmios nacionais nesta área.

A inserção de Gustavo Piqueira no universo editorial começou quando ele passou a produzir ilustrações de livros infantis. Foram vários trabalhos desse tipo que ele desenvolveu para outros escritores e suas editoras. A partir da segunda metade dos anos 2000, Piqueira começou a escrever suas próprias ficções, algo que seria acelerado na década seguinte. Considerando “Morte aos Papagaios” como um livro técnico (da área do design gráfico), “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” é a primeira empreitada do autor na ficção.

Narrado em primeira pessoa, este livro aborda o dia-a-dia do seu protagonista, um bem-sucedido proprietário de um estúdio de design gráfico. Como é típico das crônicas, a personalidade do autor e de seu personagem principal (o narrador da trama) se confundem. Assim, quem narra o texto é o próprio Gustavo Piqueira. Quando o livro foi produzido, ele tinha entre 30 e 40 anos, era solteiro e vivia sozinho em um apartamento em Higienópolis. Se a vida profissional do rapaz ia muito bem, sua vida pessoal estava com alguns probleminhas...

Através dos relatos do autor/narrador, acompanhamos a rotina típica de um paulistano comum: muito trabalho, a vida solitária em um grande centro urbano, relacionamentos amorosos breves e um tanto superficiais, amizades feitas com estranhos (conhecidos por meio da rotina da cidade), a gastronomia paulistana, as opções de lazer cultural, etc. Cada experiência descrita pelo protagonista/autor é uma fotografia da realidade da capital paulista e uma crítica bem-humorada ao estilo de vida que é levado por aqui.

“Manual do Paulistano Moderno e Descolado” é um livro enxuto. Ele tem apenas 116 páginas. São 14 crônicas, incluindo as notas introdutórias e as considerações finais. A temática despretensiosa, as marcas de oralidade do texto e o humor escrachado de Gustavo Piqueira deixam a obra fácil e gostosa de ler, o que acelera ainda mais sua leitura. Precisei de pouco mais de três horas para concluí-la. Ou seja, é possível ler este título de ponta a ponta em apenas uma tarde ou mesmo em uma única noite.

Para ser franco com vocês, fiquei muito decepcionado com esta publicação. Foram basicamente dois os aspectos que me frustraram mais. Em primeiro lugar, somos enganados pelo título da obra. Sim, enganados! “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” não é um guia sobre como viver na capital paulista. Como assim não é um guia? Não é! O autor está mais preocupado em narrar uma pequena história pessoal do que descrever como é a rotina na maior cidade do país. Ele até avisa na quarta-capa:

Não se deixe enganar pelo título. ‘O Manual do Paulistano Moderno e Descolado’ não traz dicas de moda, endereços cool nem nada do gênero. Muito pelo contrário. Guia de estilos às avessas, lança um olhar cástico, arguto e bem-humorado sobre o comportamento contemporâneo e sua busca obsessiva por moldes e tendências, que o autor habilmente distancia o tempo pretensioso à medida que costura suas observações a uma prosaica narrativa cotidiana”.

Porém, note, ele não fala nada de que a publicação não é um guia. E mesmo se fizesse o alerta textualmente, por que colocar essa palavra no título? Me pareceu um tanto enganador aos leitores...

Em segundo lugar, à medida que o livro avança, deixamos cada vez mais as crônicas sobre os bairros da cidade, os hábitos de vestimenta dos moradores, as opções de lazer e de cultura de São Paulo (que pontuam em poucos momentos os primeiros capítulos – essas questões quando aparecem ficam sempre em segundo plano) e passamos a acompanhar uma pequena novela romântica. Como assim?! O livro não era uma coletânea de crônicas? Pelo visto também fomos levados ao equívoco nesse sentido. A obra, no final das contas, é muito mais uma novela em primeira pessoa bobinha e fútil do que uma análise crítica e profunda dos hábitos e do dia-a-dia dos paulistanos.

O que me deixou mais triste é que Gustavo Piqueira já se mostrava um excelente escritor nesta sua primeira incursão pela ficção. Se ele tivesse tido um cuidado maior com a proposta do livro, na certa teria tido muito mais êxito. Para tal, bastava mudar o título ou focar mais no desenvolvimento das crônicas (e menos na produção de uma novela).

Gostei do estilo de escrita de Piqueira. Seu texto é leve, engraçado, franco, dinâmico e muito inteligente. É possível notar o quanto ele escreve bem. É uma delícia acompanhar sua narrativa, seus dramas e o conflito da sua história, por mais sem sentidos que eles se tornem.

Como primeira ficção de um escritor tão conceituado atualmente, “Manual do Paulistano Moderno e Descolado” é decepcionante. Por outro lado, é bom ver o quanto Gustavo Piqueira evoluiu de lá para cá. Se eu fosse você não perderia tempo com esta pseudocoletânea de crônicas. Vá direto ao que Piqueira tem de melhor: seus romances dos últimos anos. “Odisseia de Homero - Segundo João Victor” e “Coadjuvantes” são imperdíveis. Por que não os comentei aqui no Bonas Histórias ao invés de produzir um post tão negativo a respeito de “Manual do Paulistano Moderno e Descolado”? Essa é uma boa pergunta que eu não sei a resposta.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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