• Ricardo Bonacorci

Livros: O Seminarista – Uma das últimas novelas de Rubem Fonseca


Quem acompanha o Bonas Histórias há algum tempo deve ter reparado que falamos bastante, nos últimos dois anos, sobre a literatura de Rubem Fonseca. Em maio do ano passado, por exemplo, divulguei aqui a palestra sobre os romances deste autor que ministrei em Minas Gerais. O conteúdo deste trabalho é fruto de uma pesquisa acadêmica que realizei no curso de Letras do UNIS-MG entre 2017 e 2018. No começo do ano retrasado, analisamos "Agosto" (Companhia das Letras), sua obra mais famosa. Apesar dessa overdose, fiquei curioso para ler, nesta semana, mais um título fonsequiano. O livro lido, e agora analisado neste post, é a novela “O Seminarista” (Agir). “O Seminarista” é um dos mais recentes trabalhos lançados por Rubem Fonseca. Publicado em 2009, esta é a penúltima novela do autor. A última é “José” (Agir), de 2011, a autobiografia de Fonseca sobre os anos que precederam à fase de escritor.


Em “O Seminarista” temos uma típica trama brutalista do autor mineiro: altas doses de violência, pitadas generosas de erudição, personagens masculinas melancólicas e viciadas em sexo, intertextualidade com a literatura, o cinema e a música , banalização do sexo, crimes praticados por figuras de todos os extratos sociais (principalmente pela elite econômica e cultural do país), narrativa ambientada no tempo presente e no Rio de Janeiro, mistério e ação em ritmos acelerados e inserção de outras línguas (neste caso, o latim). Ou seja, é mais do mesmo.

Então, qual é a graça deste livro? O bacana está exatamente no fato que ninguém é melhor do que Rubem Fonseca, ao menos no Brasil, para escrever como Rubem Fonseca. Apesar de não trazer nenhuma novidade narrativa e estética quando analisamos as obras anteriores do autor, “O Seminarista” agradou em cheio o público leitor (muito mais do que a crítica). Para os leitores do Jornal do Brasil, por exemplo, esta foi a melhor obra nacional lançada em 2009.


O narrador de “O Seminarista” é José, um assassino profissional que se aposentou precocemente. Considerado o melhor em sua profissão, o rapaz de quarenta anos ganhou o apelido de Especialista por sua precisão em executar os serviços encomendados. Ao acumular uma boa grana ao longo dos anos matando pessoas de maneira fria e calculista, José, que por outro lado não aceita violência contra as mulheres e os animais, é um apaixonado por livros, filmes e música e fala latim fluentemente (idioma aprendido quando ele era um seminarista), decidiu levar uma vida calma e longe do crime. Por isso, a opção pela aposentadoria. Essa decisão pegou seu chefe de surpresa. O Despachante, como o patrão do Especialista era conhecido, tentou dissuadi-lo de todas as formas sem obter, contudo, qualquer êxito.


Uma vez aposentado, José providenciou documentos falsos e se mudou para um novo endereço no Rio de Janeiro. Sua intenção era se afastar ao máximo da antiga vida. Logo de cara, ele se apaixona por uma alemã que conhece por acaso em um café. Os dois engatam um namoro tórrido e rapidamente passam a viver juntos. A alegria do ex-assassino profissional, porém, dura pouco. Inimigos do passado passam a perseguir José e a planejar sua morte. A nova e idílica rotina do protagonista, portanto, fica ameaçada. Até mesmo a namorada por quem ele nutre um amor incondicional se tornará suspeita de estar mancomunada com os inimigos. Nunca a vida de José esteve tão em perigo.

Por ser uma novela, “O Seminarista” é um livro curto. Ele possui pouco mais de 180 páginas. É possível lê-lo em uma tarde ou em uma única noite. Eu o conclui em aproximadamente três horas na última terça-feira. Li tudo em uma batida só. Neste caso, não preciso dizer que a narrativa prende o leitor e torna a leitura acelerada. Admito que achei a narrativa agradável (obviamente para quem curte um bom romance negro). Está longe de ser o melhor livro de Rubem Fonseca, mas é interessante (sendo muito acima da média dos thrillers policiais disponíveis nas estantes das livrarias).


O ponto alto da história é o seu início. José descreve nos primeiros capítulos seus antigos trabalhos como assassino profissional. A violência e a frieza do rapaz são assustadoras. Ao mesmo tempo, o narrador-protagonista possui um comportamento elogiável quando o assunto é o respeito pelos animais, a veneração pelas mulheres e a paixão pela cultura. José, assim sendo, é uma personagem redonda. Apesar da profissão indigna, o narrador consegue ser carismático, ganhando a torcida do leitor. Além disso, é inegável a ironia fina do texto: um ex-seminarista que se torna assassino de aluguel.


A construção do mistério da trama também é muito bem feita. Em poucas páginas, já estamos envolvidos com o conflito. Rubem Fonseca é mestre em envolver o leitor em uma história macabra e perigosa. Há boas cenas de ação e muito suspense do começo ao fim.

O desfecho é tipicamente fonsequiano. Não espere, portanto, um final feliz. Nesse sentido, o autor acerta em cheio mais uma vez, surpreendendo o leitor até a última linha. José não conseguirá se livrar facilmente do seu passado, tendo que pagar um preço alto e amargo por ser quem é e, principalmente, por fazer o que faz.


Diferentemente das outras narrativas médias e longas de Rubem Fonseca, achei esta com muitos pontos negativos. Em primeiro lugar, a identidade do vilão principal é extremamente óbvia. Ele é quem o leitor suspeita que seja. Nesse sentido, o autor já foi mais criativo.


Há também uma forte sensação de déjà vu. A história é muitíssimo semelhante às novelas e aos romances anteriores do mineiro. O protagonista, por exemplo, é parecido com outras personagens de Rubem Fonseca. José é quase que uma reencarnação literária de Camilo Fuentes, um dos vilões de “A Grande Arte” (Círculo do Livro). A principal diferença entre a personagem principal de “O Seminarista” e o assassino profissional do segundo romance do escritor é que José é um narrador- protagonista carismático enquanto Fuentes é apenas um inimigo perigoso e estrangeiro.


E o que dizer, então, das traduções das frases em latim?! O autor derrapa feio quando explica aos leitores o significado de várias passagens no idioma antigo (algo que ele nunca tinha feito nos livros anteriores quando inseria trechos em outras línguas). Trata-se de algo inverossímil principalmente quando realizado em diálogos entre duas pessoas fluentes de latim (elas jamais explicariam uma para a outro o que disseram). O mesmo princípio pode ser aplicado ao relato direto de um narrador poliglota.

Apesar de uma escorregada aqui e outra acolá, Rubem Fonseca continua sendo um excelente escritor. “O Seminarista” é um bom livro. Obviamente não está à altura de “Agosto” (Biblioteca Folha), “A Grande Arte” (Círculo do Livro), “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), "Lúcia McCartney" (Agir) e “O Caso Morel” (Biblioteca Folha). Até aí não há nada de errado nessa evidência. Afinal, quem disse que um escritor precisa produzir sempre clássicos, hein?! Às vezes, um bom livro, mesmo longe da perfeição, é o que agrada o leitor quando este precisa de uma leitura instigante.


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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